Ídolos
As vidas paralelas de Mandela e Pelé
Um na política, o outro no esporte, eles são personagens decisivos de nosso tempo - a trajetória dos dois ajuda a traduzir mais de meio século de história
| Juda Ngwenya/Reuters |
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| Mandela, em um dos encontros com Pelé, em 2005: "O esporte tem o poder de mudar o mundo" |
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O punho da mão direita erguido é a marca a unir dois dos grandes nomes da história recente. Um deles, Nelson Rolihlahla Mandela, ergueu uma catedral em nome da igualdade racial. O outro, Edson Arantes do Nascimento, construiu um monumento de 1 283 gols e três títulos mundiais pelo Brasil. Mandela e Pelé juntos, o rei da democracia e o rei do futebol, são a união simbólica que ditará a tônica dos 31 dias de Copa. O ex-presidente sul-africano, aos 91 anos, já foi vencido pelo tempo e, cansado, frágil, dificilmente aparecerá nos estádios. O eterno camisa 10, prestes a completar 70 anos, ainda forte, garoto-propaganda de uma dezena de marcas, desfilará pelos estádios como mito vivo.
Numa Copa como a da África do Sul, é difícil escapar das imagens que naturalmente brotam em torno do futebol como arma política, e não apenas como esporte. Em um de seus encontros com Pelé, em 2005, Mandela foi direto ao ponto, ao conversar com o brasileiro e sorrir para as fotos. "O esporte tem o poder de mudar o mundo, o poder de inspirar. Ele é mais forte que os governos em sua capacidade de quebrar as barreiras raciais", disse. Talvez não seja tudo isso - e ninguém duvida que Mandela tenha sido globalmente muito mais decisivo que Pelé. Mas uma Copa com os dois vivos, na África do Sul, tem a tal força inspiradora a que se referiu o líder africano. Na definição do atacante camaronês Samuel Etoo, presente ao jogo de futebol que celebrou o aniversário de Mandela em Johannesburgo, há três anos, com a presença do gênio da bola, "é um sonho poder encontrar esses dois gigantes ao mesmo tempo".
| Dana Gluckstein/Outline Corbis/Latinstock |
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| Muhammad Ali - com Mandela, em 1993, e Pelé, em 1977 - é a intersecção de ambos, fundamental na política e mítico no esporte |
Mandela, como político, foi um Pelé. Pelé, como jogador de futebol, foi um Mandela. Inverta-se a equação, e nem tudo é tão bonito. Os dois tiveram trajetória pública extraordinária, cada um em seu campo. Na vida privada, contudo, também guardam incômodas semelhanças. Em 1991, a então mulher de Mandela, Winnie, foi julgada e condenada a seis anos de prisão acusada de sequestro e assassinato de um jovem de 14 anos, suposto informante da polícia. Winnie pôs a culpa em seu grupo de guarda-costas, chamados de "Nelson Mandela Futebol Clube". Pelé, inexplicavelmente, deixou de reconhecer uma filha que tivera fora do casamento.
São manchas que não podem ser apagadas, evidentemente, mas que não os diminuem como personalidades obrigatórias. Eles são tão fortes, numa linha do tempo imaginária do século XX, como um outro nome a compor a trinca - o pugilista Muhammad Ali, o maior de todos os tempos. Ali é uma espécie de intersecção entre Mandela e Pelé. Tem a força política de um - sem ele não teríamos Barack Obama, que não por acaso o pôs na primeira fileira da posse, em Washington - e a carreira esportiva do outro. Tanto Mandela quanto Pelé demonstraram emoção no encontro com o boxeador que "voava como uma borboleta, mas aferroava como uma abelha", em suas próprias palavras. Mandela e Pelé sempre fizeram o mesmo.





