Política
Após décadas de ditadura,
país sofre para estabelecer
a democracia

Transparência política é sonho distante, enquanto violência se espalha.

A morte repentina do ditador da Nigéria Sani Abacha, em 1998, desencadeou comemorações nas ruas, insegurança nas Forças Armadas e uma tênue esperança de que algo melhorasse no país. Abacha estava no poder desde novembro de 1993, chefiando o regime mais nocivo dos 38 anos de independência pós-colonial da Nigéria. Esquivo e implacável, ele sufocou a oposição e dividiu as Forças Armadas. O comando militar do país teve de promover a general, a toque de caixa, o chefe do Gabinete Militar, Abdusalam Abubakar, para que assumisse a Presidência. A marca pessoal de Abacha foi um tentacular esquema de corrupção, impressionante até mesmo pelos padrões nigerianos, envolvendo as grandes reservas de petróleo do país.

De acordo com o ranking da Transparência Internacional, ONG devotada à promoção da honestidade, a Nigéria é um dos países mais corruptos do mundo. Sani Abacha foi um colaborador: está entre os presidentes mais ladrões da história mundial. O governo da Nigéria estima que ele tenha roubado pelo menos 4 bilhões de dólares entre 1993, quando tomou o poder num golpe militar, e 1998, ano de sua morte. Tanto dinheiro foi desviado da indústria petrolífera que ela se encontra em estado de calamidade, obrigando a Nigéria a importar combustível refinado e a fazer racionamentos constantes. Grande parte da população recorreu à economia informal, quando não à criminalidade. Uma gigantesca busca internacional conduzida pelo Banco Central da Nigéria localizou 650 milhões de dólares em bancos suíços, 350 milhões em Liechtenstein e 250 milhões em Luxemburgo. Em abril de 2002, foi anunciado um acordo do governo com Mohamed Abacha, filho mais velho do ditador, na tentativa de liberar a quantia.

Em 1999, o presidente Olusegun Obasanjo foi eleito, após quinze anos do regime dos quartéis, e prometeu combater a corrupção e modernizar o país. Ele vestiu o figurino de líder populista, quintuplicou o salário dos servidores públicos e chegou a torrar o equivalente ao orçamento da educação na construção de um complexo esportivo na capital, Abuja. Enquanto isso, o combate à aids e à fome foi ignorado. O governo mostrou-se incapaz de impedir a escalada da violência. Lagos, a maior cidade do país, com 12 milhões de habitantes, segue com favelas e criminalidade em alta. Mesmo assim, em 2003, Obasanjo foi eleito para o segundo mandato. De acordo com observadores internacionais que atuaram como fiscais da eleição, houve fraude nas urnas. Pelo resultado oficial, Obasanjo obteve mais de 60% dos votos.

Apenas em 2007 as eleições legislativas e presidenciais pareceram marcar a transição democrática no país. O pleito, porém, foi conturbado. Uma semana antes, nas eleições estaduais, 50 pessoas foram mortas em choques com a polícia. Realizada em clima de violência, a eleição presidencial foi vencida por Umaru Yar’Adua, do PDP, que conquistou 70% dos votos. Nas eleições legislativas, o PDP conquistou ampla vitória e manteve a maioria no Congresso. Mesmo assim, oposição e observadores internacionais novamente denunciaram fraudes.