A vitória de Trump e os imigrantes brasileiros.
E agora?


Daniela Traldi, de Nova York

A vitória de Donald Trump chacoalhou não apenas o establishment americano, mas provocou um verdadeiro tsunami global de incertezas na economia, na política e na diplomacia. Para os imigrantes brasileiros que moram nos Estados Unidos, o momento é de suspense e de apreensão. VEJA conversou com moradores de Nova York e Nova Jersey para saber como eles encaram a chegada do novo presidente americano, o homem que prometeu expulsar 11 milhões de imigrantes ilegais.

Rafaela Rangel
Publicitária

Fundadora do Brasileiras de Nova York, um grupo no Facebook com mais de 4.000 mulheres, a carioca Rafaela Rangel controla uma rede virtual de contatos. “Funciona como referência de dicas, de perguntas e respostas, para uma brasileira sobreviver em Nova York. Temos todos os tipos de assunto. Para conseguir emprego, lugar para morar e fazer amizades”, explica.

Nos últimos dias, esse apoio tem sido fundamental. “Todas estão desesperadas pedindo para organizar uma palestra. Teremos agora em janeiro, com um bom advogado, para explicar o que é real e o que é boato, e qual a melhor maneira de se proteger, estando aqui com ou sem papéis”. Rafaela afirma que há muita especulação, mas “ninguém tem muita informação”. O cuidado com as notícias nas redes sociais, portanto, é obrigatório.

Marinho Nobre
Compositor

Morador de Nova York há mais de 30 anos, o compositor Marinho Nobre diz que não ficou surpreso com a eleição de Donald Trump. Ele votou em Hillary Clinton, mas se arrependeu. “Eu acho que já era esperado. Uma parte dos americanos estava cansada da atual política externa e interna”. Marinho ficou “muito feliz” com a vitória do republicano, apesar de considerá-lo hostil. “Apesar dos pesares, Trump tem boas intenções”.

O compositor apoia a construção do muro com o México, para barrar a entrada “de bandidos e traficantes”, assim como a deportação de “muçulmanos ligados ao terrorismo”. Ele acredita que o presidente eleito só irá atrás daqueles que tenham cometido crimes. “As ideias de Trump são mais radicais mas inspiram mudança. E o povo quer mudança”, afirma, em relação a situação econômica do país.

Tony Motta
Cabeleireiro

Se pudesse, o capixaba Tony Motta daria uma repaginada no visual de Donald Trump. “Aquele cabelo é um pouco agressivo. Mudaria a cor e o corte. Deixaria tipo Silvio Santos, que é muito mais estilo”, ri. A descontração na conversa sobre o próximo presidente americano termina na “aparada nas laterais”.

Há 3 meses, Tony, que é cabeleireiro, abriu um badalado salão em Astoria, no Queens, uma das áreas de Nova York conhecida como reduto de imigrantes, principalmente de brasileiros. Surpreso com o resultado da eleição, ele diz que não “sabe se a campanha foi jogada de marketing ou se Trump vai fazer tudo o que falou”. Mas teme um possível impacto no negócio recém-inaugurado.

“Acho que vamos perder um pouco sim, possivelmente em relação a impostos estaduais ou de produtos”, diz Tony, diante de um provável aumento nos impostos sobre produtos da China.

Ricardo Rosa
Empresário

Há quatro anos em Nova York, o pernambucano Ricardo Rosa, dono do Petisco Brazuca, um delivery de salgadinhos, receia que Donald Trump possa atrapalhar a emissão de vistos, principalmente de trabalho. Ricardo diz que sempre prioriza a contratação de profissionais brasileiros, mas acredita que isso vá mudar. “Trump está com essa política de estreitamento de emissão de vistos”.

O empresário lembra que algumas restrições existem desde a administração Obama. Ele não teme, no entanto, o novo governo. “Trump quer priorizar os investidores, as empresas e a geração de empregos. Então eu acho que talvez na minha categoria de investidor as coisas possam caminhar melhor do que para quem, de repente, está buscando emprego como estrangeiro”.

Solange Paizante
Líder Comunitária

A pequena cidade de Mantena, em Minas Gerais, já virou referência entre os brasileiros que moram em Newark, no Estado americano de Nova Jersey. Lá funciona o Mantena Global Care, um dos principais projetos sociais de assistência a imigrantes. Idealizadora do projeto, criado há 12 anos, Solange Paizante tenta acalmar os ânimos da comunidade. “Estamos em momento de transição e isso causa insegurança. Mas é hora de esperar”, diz.

Solange já organizou uma sessão com advogados de imigração sobre o cenário pós-eleição. Pelo menos vinte brasileiros participaram do evento, e ouviram de especialistas que eles “têm direitos constitucionais”, mesmo aqueles em situação irregular. De acordo com a líder comunitária, até agora nenhum imigrante atendido pretende deixar os Estados Unidos. “Mas muitos já dizem que vão preparar tudo, caso precisem”.

Pricilla Mori
Advogada

Advogada especialista em imigração, Pricilla Mori, uma paraense que mora há 27 anos nos Estados Unidos e tem a cidadania americana, diz que os imigrantes estão com muito medo. Por isso, “é importante que obtenham informação de fontes seguras”. Ela acredita que “existe a possibilidade de Trump cumprir promessas de campanha”, como as deportações. Mas não crê que os números divulgados serão cumpridos.

O presidente eleito promete deportar 11 milhões de imigrantes ‘indocumentados’, como são chamados. “Como ele vai fazer isso?”, pergunta, “eu não acho que seja um número realista porque existem gastos para retirar tantas pessoas e o processo administrativo demora”. Ela cita ainda a “existência de muitos obstáculos. Os democratas podem bloquear certas medidas”. Além disso, Donald Trump “sabe como os imigrantes são essenciais” para o país.

Luciana Kornalewski
Babá

A carioca Luciana Kornalewski virou cidadã americana há quase um ano. Formada em sociologia, ela trabalha como babá. Votou em Hillary Clinton, e ficou “perdida” com o resultado. “Pode parecer exagero, mas eu me perguntava como iria viver”, conta. “Como latina, imigrante e bissexual, foi um soco no estômago”.

Luciana preparava um manual para imigrantes nos Estados Unidos. O projeto foi interrompido para dar lugar aos protestos. Ela já participou de manifestação em frente ao quartel-general do presidente-eleito: a Trump Tower, na Quinta Avenida, em Nova York. E promete continuar. “A vitória desse homem só vai fortalecer a extrema direita. As pessoas agora se sentem livres para falar no metrô, de serem racistas e misóginas. Não podemos aceitar que isso seja normal, não é”.

Marco
Músico

O músico Marco [que, por ser ilegal, prefere não ter seu nome completo revelado] mora nos Estados Unidos há mais de 10 anos. Ele foi estudar no Estado de Massachussetts, e nunca mais voltou. Marco revela que não conseguiu dormir na noite da eleição de Donald Trump. “Fiquei muito nervoso, com medo. A sensação é que existem dois países aqui: um que acredita na integração das raças, o outro não”.

O brasileiro conta que nunca conseguiu regularizar sua situação imigratória desde que o visto no passaporte expirou. Agora, acha ainda mais difícil. “Trump não é previsível, estou pessimista”. O músico diz que vai aguardar, mas considera retornar ao Brasil. “Já liguei para um amigo para perguntar sobre a possibilidade de emprego”.