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Voyager 1 entra em zona desconhecida nas fronteiras do Sistema Solar

Dados enviados pela nave mostram que ela está dentro de uma região inexplorada conhecida como estrada magnética — o limite que separa o Sistema Solar do espaço interestelar

A nave Voyager 1 está perto de se tornar o primeiro objeto construído pelo homem a superar as fronteiras do Sistema Solar. Dados enviados pela sonda, a 18 bilhões de quilômetros de distância do Sol, mostram que ela está percorrendo a última camada da heliosfera – uma bolha magnética dominada por partículas solares que representa os limites para o espaço interestelar. Segundo três pesquisas publicadas nesta quinta-feira na revista Science, a sonda atingiu uma região desconhecida chamada rodovia magnética, onde já sofre influência de outras estrelas da Via Láctea.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Magnetic Field Observations as Voyager 1 Entered the Heliosheath Depletion Region

Onde foi divulgada: periódico Science

Quem fez: L. F. Burlaga, N. F. Ness e E. C. Stone

Instituição: Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa, nos Estados Unidos; entre outras

Dados de amostragem: Dados enviados pela sonda Voyager 1 entre maio e setembro do ano passado.

Resultado: A partir de análises dos dados, os pesquisadores concluíram que a sonda havia entrado em uma zona chamada rodovia magnética, a última fronteira entre o Sistema Solar e o espaço interestelar.

A Voyager 1 e a Voyager 2 foram lançadas em 1977 para estudar os grandes planetas e medir o tamanho do Sistema Solar. Elas já analisaram Júpiter, Saturno, Urano e Netuno e, desde 1990, seguem em direção ao espaço interestelar. Mas a viagem é longa. Segundo os pesquisadores, a heliosfera se estende por, no mínimo, 13 bilhões de quilômetros além do último planeta.

A Voyager 1 só atingiu a rodovia magnética em agosto do ano passado. “Essa estranha e última região antes do espaço interestelar está se tornando conhecida graças à Voyager 1”, diz Ed Stone, cientista do Instituto de Tecnologia da Califórnia e autor de um dos estudos. A Voyager 2 ainda está a 15 bilhões de quilômetros do Sol, na região interna da heliosfera.

Os estudos mostraram que, depois de atingir a nova região, a nave passou a ser bombardeada por raios cósmicos, partículas emitidas no espaço interestelar que costumam ser repelidas pelos ventos solares. Ao mesmo tempo, ela parou de ser atingida por partículas emitidas pelo Sol. Esses são dois dos três sinais que os cientistas esperam para afirmar que a nave saiu do Sistema Solar. O terceiro seria uma mudança na direção do campo magnético – o que ainda não foi detectado. “Ao olhar apenas para as informações sobre os raios cósmicos e as partículas energéticas, podemos pensar que a Voyager atingiu o espaço interestelar, mas sabemos que ela ainda não chegou lá, pois ainda está no domínio do campo magnético do Sol.”

Os pesquisadores não sabem qual o tamanho dessa nova camada. Segundo os estudos, a sonda pode demorar meses ou até anos para atingir o espaço interestelar.

Fronteira final – Os artigos publicados na revista Science usam observações realizadas por esses instrumentos entre maio e setembro do ano passado. Um dos principais sinais de entrada na rodovia magnética foi sentido em agosto, com a diminuição da incidência de partículas solares. “Nós vimos um dramático e rápido desaparecimento das partículas originadas do Sol. Sua quantidade é apenas um milésimo do que era registrado antes, como se houvesse uma grande bomba de vácuo na entrada para a estrada magnética”, diz Stamatios Krimigis, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e autor de um dos estudos.

Ao mesmo tempo, houve um aumento da incidência dos raios cósmicos – partículas produzidas fora do Sistema Solar a partir da morte de estrelas. Segundo os pesquisadores isso acontece porque essa região da heliosfera é mais permeável, permitindo que partículas de baixa energia viajem para dentro e fora por meio de caminhos do campo magnético – daí o nome rodovia magnética.

Os pesquisadores também afirmam que, menos de 24 horas após a sonda cruzar os limites dessa zona, o campo magnético dobrou de intensidade. No entanto, se a nave tivesse escapado do Sistema Solar e passado a sofrer influência magnética do resto da galáxia, o campo teria de mudar de direção – o que não aconteceu. “Em apenas um dia o campo magnético subitamente dobrou de intensidade. Mas, como não houve mudança significativa em sua direção, a sonda ainda está sob o campo magnético originado pelo Sol”, diz Leonard Burlaga, pesquisador do Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa e autor de um dos estudos.

Vilã de Jornada nas Estrelas As naves Voyager foram desenvolvidas para explorar o espaço além dos limites do Sistema Solar. Em Jornada nas Estrelas: O Filme – o primeiro longa-metragem com os personagens da série clássica – essa ideia é levada ao limite, quando uma ficcional Voyager 6 encontra uma raça de máquinas alienígenas em um sistema distante. Alterada pelo contato com outra civilização, ela adquire consciência e se volta contra seus criadores. Esse, no entanto, é um cenário impensável para as Voyager 1 e 2. Elas foram construídas com tecnologias do começo dos anos 1970, incapazes de desenvolver qualquer tipo de inteligência artificial. Segundo a Nasa, os três computadores a bordo de cada sonda possuem apenas 68 kilobytes de memória, muito menos do que qualquer smartphone. Mesmo assim, a nave continua ativa mais de 35 anos depois do lançamento e seus instrumentos funcionam normalmente.