Verme propaga “onda fluorescente” na hora da morte

Brilho azulado tem início no intestino e se espalha pelo organismo, dissipando-se cerca de seis horas depois da morte do verme

Entender a morte é uma das fixações do ser humano. Uma das estratégias dos pesquisadores é estudá-la no nível celular, que se dá por meio de dois processos: a apoptose, ou morte programada, e a necrose, ou morte prematura. A apoptose elimina bilhões de células todos os dias, renovando o estoque do organismo. Já a necrose ocorre quando fatores externos levam à lesão irreversível da célula. É este processo que explica a morte do organismo, mas compreender como ele alcança cada um das células de um ser vivo ainda é um mistério. A descoberta de uma equipe formada por pesquisadores de diversos países, publicada nesta terça-feira no periódico Plos Biology, fornece novas pistas.

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Título original: Anthranilate Fluorescence Marks a Calcium-Propagated Necrotic Wave That Promotes Organismal Death in C. elegans

Onde foi divulgada: periódico Plos Biology

Quem fez: David Gems, Cassandra Coburn, Erik Allman, Parag Mahanti, Alexandre Benedetto, Filipe Cabreiro, Zachary Pincus, Filip Matthijssens, Caroline Araiz, Bart P. Braeckman, Frank C. Schroeder, Keith Nehrke e outros

Instituição: University College London, na Inglaterra, e outras

Resultado: Identificou-se uma “onda” de fluorecência azulada que se inicia no intestino do Caenorhabditis elegans e se espalha por seu organismo no momento de sua morte.

Pesquisando a morte do verme Caenorhabditis elegans – uma espécie de nematódeo (animais cilíndricos e alongados) -, os cientistas identificaram uma “onda” que se espalha pelo corpo do animal, matando célula por célula até que todo o organismo expire. Essa onda se origina no intestino do verme e é acompanhada de um intenso brilho azulado, que pode ser visto com o uso de um filtro fluorescente acoplado ao microscópio. “Identificamos as vias químicas de autodestruição que propagam a morte das células nos vermes, que vemos como esse brilho azul fluorescente”, afirma David Gems, pesquisador da University College London e principal autor do estudo.

Estudos anteriores já haviam descrito esse brilho azul no C.elegans, mas suas causas ainda eram desconhecidas. No experimento, os pesquisadores filmaram os instantes finais da vida do verme. A partir do momento em que ele parava de se mexer – cerca de duas horas antes da morte -, os cientistas notaram um aumento repentino de 400% na fluorescência azul. A onda tem início no intestino e se espalha para os outros tecidos, dissipando-se cerca de seis horas após a morte.

Onda mortal – O mesmo brilho foi observado nas mortes por calor excessivo, congelamento ou doença, tanto entre os vermes jovens como entre os mais velhos. Os pesquisadores descobriram que a substância que causa esse fenômeno, que eles batizaram de “fluorescência da morte”, é o ácido antranílico. Quando o verme começa a morrer, as organelas em seu intestino se rompem e liberam o ácido antranílico, que se espalha pelo corpo do animal, adquirindo propriedades fluorescentes.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a fluorescência era originada por necrose celular em cascata, causada predominantemente por íons de cálcio. Quando desativavam o transporte desses íons pelo organismo dos vermes, a fluorescência diminuía, e o animal levava mais tempo para morrer por infecção ou congelamento. No caso dos vermes que morreram em decorrência da idade, não foi possível retardar o processo. “Isso sugere que a morte pelo envelhecimento ocorre por diferentes processos”, afirma Gems.

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Os autores sugerem que, pelo menos nesses vermes, a morte parece estar ligada ao sistema digestivo. Ainda não se sabe, porém, se infecções ou congelamento atacam o intestino dos vermes, e se o bloqueio do canal de cálcio permitiria a sobrevivência do animal.

Como o C. elegans e os mamíferos apresentam vias de necrose semelhantes, os pesquisadores acreditam que o estudo dos nematoides pode ajudar a entender como a morte ocorre em outros animais e, talvez, até ajudar a criar formas de atrasar esse processo. “Essas descobertas põem em xeque a teoria de que o envelhecimento é apenas consequência de um acúmulo de danos celulares. Precisamos nos concentrar nos eventos biológicos que ocorrem durante o envelhecimento e a morte para entender o que pode ser capaz de interromper esses processos”, afirma Gems.