Seu filho não quer comer? Razão pode ser genética

Segundo um novo estudo, tendência infantil de selecionar e recusar novos alimentos é, em grande parte, inata

Os pais de crianças que fazem birra à mesa podem respirar aliviados. De acordo com a ciência, a tendência infantil de selecionar a comida e recusar alimentos novos é moldada pela genética – e não apenas pela educação familiar. Estudo publicado nesta sexta-feira no Journal of Child Psychology and Psychiatry revela que 58% da responsabilidade pela atitude de recusar ingredientes desconhecidos é dos genes e, em relação ao hábito infantil de selecionar a comida, quase metade (46%) pode ser atribuída à genética.

Leia também:
Cientistas encontram 74 genes relacionados ao desempenho escolar
Como a genética pode ser responsável pela idade da primeira relação sexual 

“Estabelecer uma influência genética substancial para essas duas atitudes pode ser um alívio e tanto para os pais, pois eles costumam se sentir julgados ou culpados porque seu filho não come. Compreender que essas atitudes são, em sua maior parte, inatas, pode ajudar a amenizar a culpa”, afirma a cientista Andrea Smith, da Universidade College London, na Inglaterra, e uma das autoras do estudo, em comunicado.

Genética e alimentação

Para analisar como o DNA influencia os hábitos alimentares das crianças, pesquisadores da Grã-Bretanha e Inglaterra estudaram quase 2.000 famílias britânicas com filhos gêmeos de um ano e quatro meses. Irmãos gêmeos oferecem uma excelente base para análises genéticas, pois os gêmeos idênticos têm o mesmo DNA, como clones, enquanto gêmeos fraternos têm cerca de metade dos genes diferentes. Os cientistas pediram que os pais respondessem um questionário sobre o comportamento dos filhos à mesa e analisaram o mapa genético das crianças. Comparando os resultados dos gêmeos idênticos com os dos gêmeos fraternos, os cientistas conseguiram separar o que é influência genética ou ambiental (como educação ou ambiente social, por exemplo).

Os resultados mostraram que os genes têm um papel-chave no modo como as crianças se relacionam com a comida quando ainda são muito jovens. Contudo, explicam os pesquisadores, o achado não significa que o modo como os pais cuidam da alimentação dos filhos não tenha influência na forma como as crianças comem – é preciso, porém, considerar o alcance do DNA nos hábitos infantis.

“Os genes não são o nosso destino. Conhecemos muitos hábitos com uma forte base genética que podem, mesmo assim, serem alterados, como o peso. Seria muito útil que futuras pesquisas identiquem os fatores ambientais mais importantes para o hábito de selecionar os alimentos e rejeitar ingredientes desconhecidos em crianças. Assim eles podem ser um bom alvo para a mudança do comportamento”, afirmou Clare Llewelly, pesquisadora da Universidade College London e uma das autoras do estudo.

Jovens e crianças de mais idade já foram alvo do mesmo tipo de análise por outros cientistas, mas os autores do novo estudo acreditam que ele traz outro olhar sobre o assunto, mostrando que os genes têm peso na decisão alimentar dos seres humanos desde a infância.