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Projeto brasileiro estudará DNA de idosos saudáveis para aumentar longevidade da população

Banco de dados com o genoma de pessoas saudáveis e com mais de 80 anos vai ajudar médicos e geneticistas a entender melhor doenças que ocorrem depois dos 50 anos e os mecanismos genéticos da longevidade

“O código genético daqueles que conseguiram chegar a oito décadas de vida, em um ambiente tão hostil quanto São Paulo, tem muito a nos dizer sobre como podemos aumentar nosso tempo de vida”

Mayana Zatz, geneticista da USP

O DNA de idosos que chegaram com boa saúde aos 80 anos poderá ajudar futuras gerações a viver mais – e bem. O Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH), da Universidade de São Paulo, está catalogando o código genético de pessoas saudáveis com mais de oito décadas de vida. A ideia é montar um banco de dados que possa servir de comparação com o genoma de pessoas mais jovens. Batizado 80+, o projeto foi apresentado pela geneticista brasileira Mayana Zatz durante a Fapesp Week, em Washington, nos Estados Unidos.

Segundo o geneticista Kevin Davies, em poucos anos o sequenciamento de DNA deve se tornar tão corriqueiro quanto tirar um raio-X. O fundador do periódico britânico Nature Genetics disse ao site de VEJA que, até 2014, um milhão de pessoas terão o genoma sequenciado. “Vamos detectar milhões de mutações que podem ou não desencadear doenças”, disse. “Quanto mais pessoas tiverem o DNA sequenciado, mais variações desconhecidas encontraremos”, acrescentou.

O que é genoma?

Daniel Cisalpino, mestre em biologia pela UFMG

“O genoma é toda a informação hereditária de um organismo. Ele pode ser entendido como se fosse o disco rígido de um computador. Dentro dele ficam as pastas, ou cromossomos. Dentro de cada cromossomo ficam os arquivos, ou genes. Os genes são responsáveis por desencadear características e comportamentos do organismo, desde resistência a certos remédios ou o desenvolvimento de doenças. O Projeto Genoma, concluído em 2003, identificou onde ficava cada um dos três bilhões de “arquivos” dentro das 46 pastas – ou cromossomos – do código genético humano. Agora, os especialistas estão trabalhando para saber qual é a função de cada um dos genes”

“Se encontrarmos uma mutação no indivíduo jovem que também esteja presente no grupo dos ’80+’, ou seja, de idosos saudáveis, teremos uma indicação de que a alteração tem poucas chances de desencadear uma doença”, disse Mayana. “Contudo, se for uma mutação que não está presente no banco de dados – ou seja, não se manifestou em idosos saudáveis – pode ser algo que o indivíduo tenha que discutir com seu médico.”

Atualmente, o CEGH já tem o genoma de 400 pessoas com mais de 80 anos e saudáveis, a maioria da capital paulista. Os cientistas querem chegar a 1.000 indivíduos. Para isso, eles contam com a ajuda da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, que colabora com os dados demográficos de idosos que estão sendo acompanhados há 11 anos, e do hospital Albert Einstein, também da capital paulista, responsável pela análise de ressonância magnética cerebral dos voluntários e pelo transporte dos participantes. “Quando tivermos o sequenciamento de todos os indivíduos, os dados relevantes ficarão disponíveis para toda a comunidade científica.”

Aplicações – Mayana deu o exemplo de doenças neurológicas que começam depois dos 50 anos, como o Alzheimer. “O banco de dados do ’80+’ é formado por pessoas que têm chances mínimas de desenvolver essas doenças, já que são saudáveis em uma idade mais avançada”, disse a geneticista. “Se uma pessoa jovem fizer o sequenciamento do genoma, poderemos verificar se as mutações que ela tem são semelhantes às das pessoas saudáveis bem mais velhas. Isso vai dar uma resposta mais próxima do que pode acontecer com ela no futuro”, disse.

Mayana Zatz: “Código genético de idosos guarda segredos sobre a longevidade”

O banco do 80+ também poderá ajudar a conhecer melhor doenças graves, como a que afeta o físico britânico Stephen Hawking, a esclerose lateral amiotrófica. “Hawking possui uma variante rara”, disse Mayana. “Pacientes diagnosticados com a doença geralmente vivem entre dois e três anos.” A geneticista conta que especialistas encontraram um gene associado à esclerose lateral amiotrófica em pessoas saudáveis. Ainda é preciso determinar se a alteração basta para desencadear a doença ou se ela fica adormecida e algum dia pode causar a manifestação dos sintomas. “As informações reunidas no ’80+’ vão ajudar a esclarecer se uma pessoal que é saudável tem mais ou menos chances de desenvolver a doença”, disse Mayana.

O trabalho do CEGH também vai ajudar a medicina a entender melhor os mecanismos genéticos da longevidade. De posse do genoma dessas pessoas, os cientistas terão acesso às informações hereditárias que as ajudaram a viver mais e bem. “Apesar do ambiente também influenciar na longevidade de uma pessoa”, disse Mayana, “o código genético daqueles que conseguiram chegar a oito décadas de vida, em um ambiente tão hostil quanto São Paulo, tem muito a nos dizer sobre como podemos aumentar nosso tempo de vida.”