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‘Pensei que fosse um trote’, diz vencedor do Nobel de Química

Stefan Hell, um dos cientistas que contribuiu para o desenvolvimento do microscópio fluorescente de alta resolução, conta que só se convenceu de que o prêmio era real quando recebeu uma confirmação por e-mail

Os vencedores do Prêmio Nobel de Química foram anunciados na manhã desta quarta-feira: os americanos Eric Betzig e William E. Moerner, e o romeno naturalizado alemão Stefan W. Hell. Eles foram laureados por terem contribuído para o desenvolvimento do microscópio de fluorescência de alta resolução, que permite observar em detalhe interações químicas no interior de células vivas.

Stefan Hell ficou tão surpreso que chegou a achar que a ligação informando que havia sido um dos vencedores do Nobel era um trote. “Depois eu reconheci a voz do professor Normark [Staffan Normark, um dos membros do comitê do Nobel], e percebi que havia outras pessoas ao redor, e ele disse que confirmaria por e-mail. No início eu não conseguia acreditar, mas depois fui gradualmente percebendo que era verdade”, contou em entrevista à organização do Nobel. Quando recebeu a notícia, Hell estava lendo uma pesquisa científica. Entre risos, disse que terminou de ler o parágrafo em que estava e só depois ligou para a esposa e os amigos.

Perto de desistir – Logo após o anúncio oficial dos vencedores, feito esta manhã pela Academia Real de Ciências da Suécia, Hell respondeu a perguntas de jornalistas pelo telefone. Questionado sobre uma entrevista dada há dois anos, na qual afirmou que já esteve “à beira de desistir” de sua pesquisa, contou que a comunidade científica não era muito receptiva à ideia de superar a barreira da difração [que se acreditava ser a resolução máxima a qual os telescópios ópticos chegariam]. “As pessoas pensavam que, como essa barreira existia desde 1873, fazer alguma coisa quanto a isso seria meio maluco. Mas eu percebi que havia como superar a barreira de difração mexendo nas moléculas, mudando seus estados. Eu sabia que ia funcionar. Então foi por isso que eu fiquei tão confiante e continuei tentando apesar de todos os problemas”, contou o cientista.

William Moerner recebeu a notícia no Brasil. “Eu fiquei sabendo quando a minha esposa me ligou, por volta das sete da manhã [horário de Brasília]. Claro que o seu coração acelera e você pensa ‘será possível?'”, disse o pesquisador, que participava do 3º Workshop Internacional sobre Fundamentos da Interação Luz-Matéria, em Recife, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). De acordo com o jornal Correio Braziliense, hoje o pesquisador participaria do evento apenas como espectador, mas devido à inúmeras ligações que recebeu após a divulgação da notícia, decidiu não comparecer mais. “É muito melhor conversar com as pessoas e tentar explicar porque essa descoberta foi tão importante”, disse Moerner, que deve retornar ainda hoje aos Estados Unidos.

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Medo e felicidade – Já Eric Betzig estava na Alemanha, também para uma conferência, quando recebeu a notícia, conforme relatou, da seguinte maneira: “Primeiro foi um choque. Depois vieram alguns tremores por cerca de 20 segundos, e então medidas iguais de felicidade e medo”. O medo, de acordo com Betzig, é de que a sua vida mude em decorrência do prêmio. “Eu realmente gosto de como a minha vida está agora. E estou bastante ocupado assim”, brincou o pesquisador. “Não gosto de dizer não para as pessoas e vou ter que aprender a fazer isso mais”, completa.

Formado em física, Betzig considera seu prêmio em química “justiça poética”. “Eu não entendo de química. Essa foi sempre a minha matéria mais fraca no Ensino Médio e na faculdade”, contou, entre risos. “É um pouco irônico porque, como um jovem físico, eu não dava muito importância aos químicos. Então eu comecei a me interessar pela super-resolução, e eu percebi que este era meu carma, porque de repente estava implorando para os químicos me ajudarem. Mas eu estou feliz pelo jeito que as coisas aconteceram”, afirma.

O pesquisador, que já mudou de área de atuação ao longo de sua carreira, afirma que ainda alimenta um sonho “quixotesco” de trabalhar no setor de transporte espacial privado. “Se eu estivesse apenas varrendo o chão do lugar onde eles constroem os foguetes já seria incrível”, conta.

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Relevância – A principal inovação trazida pelo microscópio que fez com que o trio fosse laureado com o Nobel de Química foi tornar possível a observação de células vivas, e as reações que ocorrem dentro delas, em alta resolução. Essa descoberta permitiu vencer um limite estabelecido em 1873 pelo microscopista Ernst Abbe. Por meio de uma equação, ele concluiu que os microscópios ópticos eram incapazes de diferenciar dois objetos quando a distância entre eles era menor do que metade do comprimento de onda da luz, ou seja, 0,2 micrômetro (ou 0,0000002 metro). Com uma técnica que combina o uso de feixes de luz e fluorescência, a chamada super-resolução, o trabalho desses pesquisadores tornou possível observar os caminhos de moléculas individuais dentro de células vivas, ver a forma como as sinapses surgem entre os neurônios e rastrear proteínas envolvidas em doenças como Parkinson, por exemplo.

“Atualmente já existe a microscopia eletrônica, que tem uma resolução muito maior, mas é preciso tratar as células para observá-las nesse tipo de aparelho, e elas acabam morrendo no processo”, explica Henning Ulrich, professor do departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Em sua pesquisa na área de neurociência, Ulrich pretende utilizar o equipamento criado pelos vencedores do prêmio, o microscópio óptico de alta resolução, para observar as sinapses, conexões entre neurônios, no momento em que transmitem um sinal.

“O truque foi utilizar a fluorescência”, afirma Ulrich. De acordo com o pesquisador, um feixe de luz estimula as moléculas a emitirem luz fluorescente, tornando-as visíveis no microscópio. Assim, cada molécula é observada em seus detalhes, até que toda a área de interesse da célula seja iluminada. Depois, a imagem é montada no computador. Com essa técnica, é possível conseguir uma resolução até menor do que 20 nanômetros – um décimo da “barreira” que se acreditava existir antes.

Para Ulrich, essa descoberta foi importante especialmente para a bioquímica, justamente por permitir a observação de interações químicas no interior das células. Ele afirma que esses microscópios ainda não são amplamente utilizados, principalmente em decorrência de seu custo, que pode chegar a 1 milhão de dólares. “Com certeza, com o Prêmio Nobel, espera-se que seu uso aumente”, afirma.