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Papiro que faz referência a mulher de Jesus é falsificado, diz professor

Francis Watson, pesquisador da Universidade de Durgham, afirma que o texto é uma colagem de outros textos coptas

As discussões sobre o fragamento de papiro que provaria que Jesus foi casado ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira. O pesquisador Francis Watson, professor do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Durham, na Inglaterra, e especialista no Novo Testamento, disse não ter dúvidas que se trata de uma falsificação. Em um texto publicado online (em inglês), ele afirma que o texto do papiro seria uma colagem de trechos do Evangelho de Tomé escrito em copta, que teriam sido misturados para sugerir um novo significado. “O texto foi construído a partir de pequenos pedaços – palavras ou frases – retiradas em sua maior parte dos provérbios 101 e 114 do Evangelho de Tomé em copta, colocadas em novo contexto”, escreveu.

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EVANGELHOS APÓCRIFOS

São livros que descrevem a vida de Jesus, mas que a maioria das igrejas cristãs não considera legítimos. Por isso eles não entram no cânone – conjunto de textos sagrados – da Bíblia. Além dos evangelhos, porém, há outros tipos de apócrifos que descrevem, por exemplo, a origem e o fim do mundo, como fazem o Gênesis e o Apocalipse bíblicos, respectivamente. A maior parte desses relatos foi destruída ou se perdeu com o tempo. Em 1945, porém, foram descobertos vários textos escondidos em cavernas no Egito. De lá pra cá, especialistas passaram décadas na busca de novos textos e tentando traduzi-los. Entre os relatos já estudados, estão evangelhos atribuídos a Maria Madalena e aos apóstolos Tomé e Judas.

Ele até considerou a possibilidade de se tratar de um evangelho antigo, que juntou e reinterpretou trechos de outros textos, como muitos dos evangelhos apócrifos. Não haveria problema nenhum – e nem como chamar o texto de falsificação – se Watson não insinuasse que a colagem teria sido feita recentemente. “A técnica de composição de textos é provavelmente de um indivíduo moderno, que não é falante nativo do Copta.”

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Como argumento, Watson cita uma quebra em uma das linhas – uma das palavras aparece pela metade, como se a primeira parte tivesse sido escrita na linha anterior – que teria sido copiada diretamente de outro texto. Segundo o professor, era comum as palavras serem quebradas no meio nos textos antigos, que não utilizavam hifens, mas a quebra dificilmente apareceria no mesmo lugar em dois textos diferentes, a não ser que o autor não dominasse o idioma. “O autor é evidentemente dependente do manuscrito do Evangelho de Tomé em copta, cuja divisão de linhas ele copia. Uma explicação óbvia é que o autor usou uma edição moderna impressa do texto copta, onde a divisão original de linhas foi preservada.”

Debate sem fim – A historiadora Karen King ainda não se pronunciou sobre as críticas. No entanto, quando sua pesquisa foi anunciada, ela afirmou que o papiro havia sido analisado por dois especialistas no assunto, que confirmaram sua autenticidade. O professor Roger Bagnall, diretor do Instituto para o Estudo do Mundo Antigo da Universidade de Nova York, foi um deles. Em declaração ao site de VEJA, ele confirmou que acredita na veracidade do documento.

Francis Watson diz que mesmo que o papiro analisado pelos especialistas seja antigo, o mesmo não pode ser dito da tinta usada no texto. “Se testes químicos forem realizados para estabelecer a composição química da tinta, eles podem mostrar que tinta moderna foi usada e provar que é uma falsificação moderna”, escreveu. Karen King já havia prometido submeter a tinta a uma espectroscopia, técnica que analisa a composição química de um produto. Até lá, os questionamentos de Watson devem permanecer sem resposta. E, mesmo assim, nada indica que os resultados do exame devem acabar com a controvérsia.