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O que estes assassinos têm em comum

Reportagem de VEJA de abril de 2011 aponta que os autores de chacinas partilham de um mesmo sentimento, manifestado em doses brutais - a raiva de si próprios e do mundo

O psicólogo americano Peter Langman trabalhava no Hospital Psiquiátrico KidsPeace, na Pensilvânia, quando dois estudantes abriram fogo contra colegas e professores da escola Columbine, em 20 de abril de 1999. Nos dez dias que se seguiram ao massacre, Langman atendeu duas dezenas de pais, aflitos porque o comportamento de seus filhos tinha similaridade com o dos assassinos. Os jovens, relatavam os pais, desejavam ser famosos e populares, sofriam de depressão, tinham tendência ao suicídio, não gostavam da própria aparência, sentiam-se rejeitados, principalmente pelas garotas, e eram fascinados por armas. “Na maioria dos casos, havia motivos para preocupação. As características eram muito parecidas com as dos agressores”, contou Langman a VEJA. Se havia tantos traços semelhantes, por que, então, nenhum deles protagonizou um rompante de fúria assassina? E por que os estudantes de Columbine e outros tantos sucumbiram ao desejo de matar?

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Langman, hoje um dos mais respeitados estudiosos de jovens criminosos dos Estados Unidos, passou a última década investigando a mente dos dez mais perversos assassinos que atacaram escolas em seu país para responder a essas perguntas. O resultado está no livro Why Kids Kill: Inside the Minds of School Shooters (Por que os Jovens Matam: por Dentro da Mente dos Assassinos Escolares), publicado em 2009. O psicólogo concluiu que os jovens homicidas estudados não se encaixam num único e definitivo perfil psicológico ou social. Mas todos, sem exceção, partilhavam um sentimento – a raiva. Odiavam suas vidas. Estavam desesperados e deprimidos a ponto de desejar a própria morte. Dylan Klebold, de 17 anos, um dos assassinos de Columbine, tinha seu próprio BMW, morava numa casa com piscina e quadra de tênis. Era considerado pacífico e doce, mas não era popular. Evan Ramsey, de 16 anos, autor de disparos no colégio Bethel, no Alasca, em 1997, morava em um apartamento sem aquecimento. Sua mãe era alcoólatra. “O que faz de um jovem um assassino em massa é uma complexa combinação de fatores, como ambiente, predisposição genética e características individuais”, escreve Langman.

Um estudo realizado pelo serviço secreto americano com 41 jovens que perpetraram assassinatos em 37 escolas dos Estados Unidos também conclui que eles têm perfis diferentes, mas partilham denominadores comuns no terreno das estatísticas. Os homens são maioria absoluta. Dois terços pertencem a famílias bem estruturadas. Mais de 60% nunca tiveram mau comportamento na escola. Quase metade tirava notas altas e participava de atividades sociais dentro e fora da escola. Do ponto de vista psicológico, a pesquisa revela que 61% têm histórico de depressão, sede de vingança e tendência suicida. Pouco mais de 80% têm dificuldades em lidar com perdas e frustrações, e relatavam ter sofrido perseguições. “É preciso frisar que nada disso é determinante. Ninguém entra numa escola disparando tiros só porque sofreu bullying. Ser deprimido ou ter um distúrbio mental também não detona esses atos”, disse a VEJA o psicólogo Randy Borum, da Universidade do Sul da Flórida, um dos autores da pesquisa.

Se entender a mente e as razões dos jovens assassinos é difícil, perceber que um massacre está prestes a acontecer é teoricamente mais fácil. Pouco antes de atacar, a maioria dos assassinos envia sinais diretos e indiretos de que haverá uma chacina. Pode alertar um amigo ou tentar recrutar um cúmplice, por exemplo. Indícios da tragédia sempre pairam no ar. Ou na internet. Infelizmente, na prática, é muito difícil prestar atenção em todos esses mínimos detalhes.

Com reportagem de Carolina Melo e Ricardo Westin