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Florestas tropicais são capazes de resistir ao aquecimento global

Estudo mostra que florestas da América, Ásia e África podem sobreviver às mudanças climáticas do século 21

“Descobrimos que a floresta é razoavelmente resistente às mudanças climáticas. Não podemos continuar puxando essa resistência em direção ao colapso” – José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

Uma nova pesquisa publicada neste domingo mostra que as florestas tropicais correm menos risco de perder sua cobertura vegetal como consequência do aquecimento global do que as previsões mais alarmistas mostravam. Na análise mais completa já feita sobre o perigo de as florestas tropicais entrarem em colapso por causa das emissões de gases do efeito estufas ao longo do século 21, os pesquisadores mostraram que elas serão capazes de suportar a maior parte dos danos trazidos pelo aumento de temperatura. O estudo foi publicado na revista Nature Geoscience.

Como as florestas são capazes de armazenar uma grande quantidade de carbono, sua capacidade de resistir aos efeitos do aquecimento global é importante para o planejamento de novos programas de redução de emissão de gases do efeito estufa e de combate ao aquecimento do planeta. No entanto, essa capacidade era, até agora, incerta. “Desde os anos 2000 que se discute sobre a capacidade de a Amazônia resistir às mudanças climáticas. Algumas previsões eram muito catastróficas, mas a incerteza dos modelos usados na época ainda era muito grande”, disse José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e um dos autores da pesquisa, em entrevista ao site de VEJA.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Simulated resilience of tropical rainforests to CO2-induced climate change

Onde foi divulgada: periódico Nature Geoscience

Quem fez: Chris Huntingford, David Galbraith, Lina M. Mercado, Oliver L. Phillips, Owen K. Atkin, Carlos Nobre, Jose Marengo

Instituição: Centro de Ecologia e Hidrologia, na Inglaterra

Dados de amostragem: 22 modelos climáticos que analisaram como as florestas tropicais da América, Ásia e África responderão ao aumento de emissão de gases de efeito estufa durante o século 21

Resultado: Os pesquisadores descobriram em 21 dos 22 modelos as florestas não sofreram grande perda de massa vegetal. Em apenas um caso, as florestas sofreram dano, mas somente na América.

Para realizar esse tipo de medição, os pesquisadores têm de lidar com dois tipos de incerteza. Uma delas leva em conta os diferentes aumentos de temperatura projetados para o século 21, e a outra é referente aos processos fisiológicos das plantas, que ainda não estão completamente desvendados. Por causa disso, os pesquisadores usaram simulações de computador para calcular a resiliência das florestas em 22 modelos diferentes, com aumentos de temperatura que iam até quatro graus Celsius. Os cálculos levaram em conta as florestas tropicais da América, Ásia e África.

Como resultado, descobriram que em 21 dos 22 modelos as florestas seriam capazes manter sua cobertura vegetal – ou recuperá-la- após o aumento de temperatura. Em apenas um caso houve uma diminuição nas florestas, e apenas na América. “A pesquisa mostra que não chegaremos ao extremo de as florestas desaparecerem. Na maior parte dos casos, elas podem até perder uma pequena parte de seu estoque de carbono, mas não chegarão a perder tanta massa a ponto de entrar em colapso”, disse Marengo.

Incertezas – Ao comparar os diferentes modelos, os pesquisadores descobriram que a maior parte das incertezas nessa medição vem dos processos fisiológicos das plantas, e não das diferentes projeções de aquecimento global. “A grande surpresa em nossa análise é que a incerteza nos modelos ecológicos das florestas tropicais é significantemente maior do que a incerteza vinda das diferenças nas projeções do clima”, diz David Galbraith, pesquisador da Universidade de Leeds, na Inglaterra, que participou da pesquisa.

Apesar de o estudo sugerir que o risco de as florestas sofrerem danos por causa do aquecimento global são pequenos, os pesquisadores deixam claro que não se trata de um sinal verde para a emissão de gases do efeito estufa. Eles lembram, por exemplo, que seus modelos não levaram em conta as queimadas e a derrubada intencional das florestas, que também podem afetar a quantidade de carbono armazenado. “A pesquisa não pode ser interpretada como um sinal para continuar desmatando e liberando gás carbônico na atmosfera. Ela apenas mostra que o cenário não é catastrófico: as florestas perderão robustez, mas continuarão sendo florestas”, afirmou José Marengo. “Descobrimos que a floresta é razoavelmente resistente às mudanças climáticas. Não podemos continuar puxando essa resistência em direção ao colapso”.