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Em São Paulo, sistemas de alerta já fazem a diferença

Medidores ajudam a prever inundações e avisar os moradores de áreas de risco

“Monitorar a chuva em tempo real é importantíssimo para tomar as decisões que salvarão vidas” – Mário Thadeu Leme de Barros, engenheiro da USP

Nem um milagre da engenharia poderia resolver o problema das enchentes no estado do Rio de Janeiro em apenas um ano. É necessário muito mais para solucionar as questões políticas, sociais, e de infraestrutura da região serrana fluminense que desencadearam a tragédia. A curto prazo, é possível criar medidas de emergência que, apesar de não impedirem os deslizamentos de ocorrerem novamente, podem diminuir dramaticamente a gravidade das consequências e salvar vidas. O mais simples é o sistema de alertas – técnicas de monitoramento do tempo e do nível dos rios feitos para avisar a população do risco iminente de inundação.

Em São Paulo já existe um sistema assim desde outubro de 2010. Desenvolvido em parceria com a escola Politécnica da USP, o sistema de previsão e alerta de enchentes funciona com o cruzamento de informações de estações meteorológicas e da uma rede de monitoramento de rios e córregos. As informações chegam a uma central de controle a cada minuto e permitem que os técnicos façam previsões de chuvas e alagamentos que irão acontecer no mesmo dia. É tempo suficiente para acionar a Defesa Civíl e fazer com que a população deixe a região ou tome os devidos cuidados.

Resultados – Dentro de São Paulo, nas margens do rio Tietê, existem 12 equipamentos instalados entre o bairro São Miguel e a região do Cebolão, na zona oeste de São Paulo. Todos medem o volume do rio e alguns calculam a altura da água por meio de um ultrassom. Se o nível subir demais, os sensores enviam os sinais de alerta. O número de medidores é igual em cada um dos 200 municípios banhados pelo Tietê.

Com um alcance tão grande, o sistema já rende bons frutos a São Paulo. De acordo com dados da Defesa Civil do estado, 21 pessoas morreram por causa de enchentes entre dezembro e abril de 2010. Até agora, em 2011, foram registradas duas mortes. Mário Thadeu Leme de Barros, um dos engenheiros que ajudou a projetar o sistema, explica que o segredo está em um radar meteorológico de alta precisão capaz de prever chuvas que podem acontecer três horas no futuro. “Monitorar a chuva em tempo real é importantíssimo para tomar as decisões que salvarão vidas”, diz Barros.

Comprometimento – No entanto, só radares e medidores não são suficientes. A população precisa de treinamento para entender o sistema. “Hoje, se chegar um aviso na região serrana do Rio, as pessoas não sabem o que fazer. Precisamos treiná-las para deixarem suas casas de maneira segura e eficiente”, diz Augustinho Guerreiro, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro (Crea-RJ). De acordo com o engenheiro, o sistema de alerta é parte fundamental para mobilizar a população e salvar vidas. “Essas técnicas permitem a Defesa Civil determinar patamares de risco e planos de ação para ajudar os moradores a tempo”, diz Guerreiro.

Quanto mais rápido e eficiente, mais vidas salvas. De acordo com Barros, o risco de acontecer uma fatalidade ligada às chuvas e aos rios depende de dois fatores – a probabilidade de um evento natural acontecer e a vulnerabilidade da população. “É fácil remediar a vulnerabilidade, basta remover a população do local”, diz o engenheiro. O problema, continua, é que o homem oficializa a ocupação de áreas onde ninguém deveria morar, como as margens do rio Pinheiros, por exemplo. “O que é legal não quer dizer que é seguro. O local pode ser definido pelo homem, mas e a natureza? Essa a gente não consegue vencer”.