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DNA de Ricardo III indica filho ilegítimo na realeza britânica

Análise genética põe em dúvida a legitimidade do monarca e de toda a dinastia Tudor, mas cientistas preferem não implicar a atual família real na descoberta

O estudo do DNA do esqueleto do rei Ricardo III, encontrado em 2012 sob um estacionamento na Inglaterra, chegou a uma conclusão surpreendente: há evidências de infidelidade sexual na árvore genealógica da realeza britânica e de que monarcas herdaram ilegitimamente o trono. Para os cientistas que analisaram os restos mortais de Ricardo III, a revelação, feita no periódico Nature Communications, pode reescrever a história inglesa.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Identification of the remains of King Richard III​

Onde foi divulgada: periódico Nature Communications

Quem fez: Turi E. King, Gloria Gonzalez Fortes, Patricia Balaresque, Mark G. Thomas, David Balding, Pierpaolo Maisano Delser, Rita Neumann, entre outros

Instituição: Universidade de Leicester, na Inglaterra, entre outras

Dados de amostragem: Amostras de DNA recolhida dos restos mortais do rei Ricardo III, encontrados sob um estacionamento na Inglaterra

Resultado: O DNA do monarca não corresponde ao de familiares vivos que deveriam dividir um mesmo ancestral, sugerindo que houve infidelidade na história real britânica

O estudo revelou ainda que, ao contrário do que mostram quase todas as pinturas, Ricardo III não era moreno. Ele tinha cabelos loiros na infância (77% de chance) e olhos azuis (96% de probabilidade).

Os pesquisadores têm 99,999% de certeza de que os ossos analisados são do rei morto em 1485. Ao comparar o DNA extraído do esqueleto com amostras de cinco descendentes vivos da família do monarca, eles descobriram que o material genético feminino bate, mas o masculino não. A explicação mais provável é que houve traição de alguma genitora real antes de Ricardo III subir ao trono.

“Um evento (ou eventos) de falsa paternidade em algum momento dessa genealogia poderia ter um significado histórico”, afirmou em comunicado a equipe de cientistas, chefiada pela geneticista Turi King, da Universidade de Leicester.

Tanto Ricardo III quanto seu rival Henrique VII (que o sucedeu e fundou a dinastia Tudor) eram descendentes de Eduardo III, pai de João de Gante. Este, por sua vez, foi perseguido por rumores de ilegitimidade na sua vida. “Hipoteticamente falando, se João de Gante não era filho de Eduardo III, então seu filho Henrique IV não teria legitimidade para o trono, assim como Henrique V e Henrique VI”, afirmou Kevin Schurer, especialista em genealogia do estudo. Dependendo de onde tenha ocorrido a quebra na linhagem, é possível questionar a legitimidade do trono tanto de Ricardo III quanto de toda a dinastia Tudor – incluindo Henrique VIII e Elizabeth I.

Presente – Os pesquisadores preferem não entrar na discussão sobre o impacto que a revelação poderia ter sobre a atual família real, uma vez que a ruptura – ou rupturas – na linha de descendência ainda não é clara. Mesmo assim, é possível traçar uma linha genealógica entre a atual rainha e o início da dinastia Tudor.

Elizabeth II, que pertence à casa real de Windsor, é descendente da casa de Hanover, uma família de nobres germânicos que assumiu o trono da Grã-Bretanha com George I – apesar de ser o 52º na linha sucessória, ele foi parar no trono por causa de uma lei aprovada em 1701 para impedir que católicos assumissem a coroa, que passsou a ser exclusiva de protestantes. George I era bisneto de Jaime I, cuja mãe Mary Stuart, rainha da Escócia, descendia diretamente do primeiro rei da dinastia Tudor, Henrique VII.

Tantas gerações e relações familiares intricadas constituem justamente um dos argumentos do pesquisador Kevin Schurer para não implicar na questão os atuais ocupantes do Palácio de Buckingham. “A sucessão real não é uma herança direta de pais para filhos e filhas. A história teve várias reviravoltas”, disse o especialista à rede BBC. Além disso, ele sublinha que nem sempre a herança familiar foi o fator chave na transmissão do trono e os Tudor tomaram a coroa “pela força”, alegando parentesco com João de Gante para sustentar sua reivindicação.

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Esqueleto – O esqueleto de Ricardo III foi encontrado em agosto de 2012 durante a construção de um estacionamento em Leicester, no centro da Inglaterra. Último monarca da casa York, Ricardo III morreu aos 32 anos, na batalha de Bosworth, perto de Leicester, e foi enterrado anonimamente em um mosteiro franciscano, demolido em 1530. Apesar do reinado curto – ele governou entre 1483 e 1485 -, Ricardo III se tornou um dos reis mais famosos e controversos da história do país. O monarca foi imortalizado por William Shakespeare na peça Ricardo III, em que é descrito como um vilão disposto a tudo pelo poder. Até hoje, intelectuais ingleses procuram estabelecer a verdade histórica. O debates abrangem desde a causa de sua morte até a o grau de sua deformidade – e de seu maquiavelismo.

Em setembro, os mesmos pesquisadores da Universidade de Leicester revelaram em um estudo publicado no periódico The Lancet como Ricardo III morreu: sem capacete e possivelmente de joelhos quando teve o crânio perfurado por seus inimigos. Os cientistas analisaram a ossada do soberano e contaram onze ferimentos – nove na cabeça – provocados por armas cortantes. A análise das lesões endossa os relatos da época, segundo os quais, preso em um lamaçal, o rei teria abandonado seu cavalo antes de ser morto.