Ciência à prova de erros — e fraudes

Cinco temas científicos importantes de 2014 estão sendo contestados por pesquisadores. A divulgação de dados na internet, além da visibilidade de assuntos com grande apelo ao público, tornaram mais fácil e rápida a identificação de falhas em pesquisas. E podem ter inaugurado um modo mais rigoroso de se fazer ciência

Em 1912, o caçador de fósseis amador Charles Dawson e o paleontólogo Arthur Woodward anunciaram no Reino Unido a descoberta do “elo perdido” entre os homens e os macacos. Os restos do homem de Piltdown revolucionaram o conhecimento sobre as origens humanas e forneceram evidências para teorias que explicariam nossa ligação com os macacos, o tema mais quente da ciência no início do século XX. Quarenta anos depois, análises e técnicas de datação mostraram que a revelação científica de Dawson e Woodward correspondia ao que seria o mais famoso fóssil falso de todos os tempos. A fraude tinha sido fabricada com minúcia por seus descobridores.

Não foi preciso tanto tempo para se descobrir a fabricação de dados de um dos temas mais relevantes da ciência em 2014, a pesquisa com células-tronco. Em seis meses a revista Nature assumiu os erros de um estudo revolucionário sobre o tema publicado em suas páginas. Também foi rápida a contestação de outros feitos científicos do ano. Após serem anunciados, a descoberta das ondas gravitacionais, o exoesqueleto que faria paraplégicos voltarem a andar e a descrição de dois planetas semelhantes à Terra não sobreviveram ao crivo da ciência. Na última quinta-feira, o recuo veio de autores de uma pesquisa que anunciou a cura de um bebê com aids, em 2013. Parece que a ciência enfrenta uma temporada de “voltas atrás” – os temas compõem metade da lista dos mais promissores selecionados pela revista Nature para 2014. Sua contestação pela comunidade científica indica que hoje, mais do que nunca, a ciência não tolera falhas, anúncios precipitados – ou a pura e simples desonestidade, é claro.

A atividade científica é, por princípio, calcada na dúvida. Começa por hipóteses e teorias que, por meio de experimentos, podem ou não ser comprovadas. No caminho, há espaço para erros, retornos e reformulações – mas dentro de certos parâmetros éticos. Erros causados pelo desleixo ou pela pressa em anunciar resultados maculam o trabalho científico. Mas há também pesquisadores que intencionalmente omitem ou fabricam dados com o objetivo de angariar recursos, boas posições acadêmicas ou fama. Para gerenciar essa conduta, conselhos de ética e comissões que garantem a integridade científica tornam-se cada vez mais atuantes. Esses vigilantes, auxiliados pela transparência proporcionada por formas mais eficazes de revisão e controle de dados, criam hoje uma ciência capaz de detectar, rapidamente, simples equívocos de interpretação ou a pior má-conduta.

“É inegável que a internet e as novas tecnologias tornaram mais fácil detectar erros e plágios em pesquisas. O cientista caminha em uma linha tênue entre o conhecimento e a falha, mas, hoje, é necessário ainda mais rigor na apuração de dados e resultados. Não é preciso apenas fazer algo novo: é necessário também provar e possibilitar que outros cientistas repitam o achado”, diz o químico Jailson de Andrade, professor da Universidade Federal da Bahia e um dos membros da Comissão de Integridade, ramo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Descobertas não publicadas – Um dos primeiros indícios de que um grande achado deve ser visto com cautela é a falta de publicação dos dados e conclusões em periódicos científicos. Foi o que aconteceu com a detecção das ondas gravitacionais que confirmariam o Big Bang e com a veste robótica que faria paraplégicos andar. Ambas foram amplamente divulgadas na imprensa antes de chegarem a revistas científicas internacionais.

“Se a pesquisa não é publicada em periódicos científicos, ela está na mira das críticas”, afirma o bioquímico brasileiro Rogério Meneghini, co-criador do projeto SciELO, uma plataforma online com quase 1 000 revistas internacionais. “A publicação significa que o estudo passou pela revisão de outros pesquisadores, por discussões em congressos ou conferências e pela correção de possíveis erros. Sem isso, ela está destinada a ser contestada.” É o que acontece com médicos que usam métodos sem comprovação científica para tratar doenças incuráveis, a exemplo da vitamina D utilizada no combate à esclerose múltipla.

A publicação científica é um parâmetro que faz com que os pesquisadores tenham acesso aos dados detalhados e às formas inovadoras com que os autores os interpretaram. Se isso não acontece, pode ser um indício de que há outros interesses, além dos científicos, por trás dos grandes achados.

O surgimento de sistemas online de publicação científica ampliou a rede de controle dos resultados científicos. “É ótimo que mais pesquisadores, em todos os lugares do mundo, possam acessar os dados científicos e desafiá-los. O compartilhamento de informações é fundamental para os avanços da ciência e nos ajudam a chegar à verdade”, diz Kamran Abbasi, editor internacional do BMJ, na Inglaterra.

Esses sistemas tornaram a ciência moderna uma área em que hipóteses sem confirmação têm pernas curtas. Foi o caso da declaração de cientistas americanos, na última quinta-feira, de que a possível cura de um bebê com HIV nascido no Mississipi, nos Estados Unidos, não se sustenta. E também da descrição de que dois prováveis planetas semelhantes à Terra, Gliese 581d e Gliese 581g, anunciados em 2007 e 2010, não passam de manchas ou atividades estelares.

Pesquisas fraudulentas – Não são apenas os erros ou anúncios precipitados que precisam ser combatidos pela ciência, mas, principalmente, as pesquisas fraudulentas, assinadas por cientistas que deliberadamente forjaram dados. Neste mês, a revista Nature assumiu que errou ao publicar uma pesquisa que teria transformado células animais maduras em células-tronco. Anunciada em janeiro como revolucionária, a técnica chamou a atenção de grupos de pesquisas de todo o planeta, que se empenharam em avaliá-la. Cientistas tentaram reproduzir os resultados, sem sucesso. As discussões sobre os resultados do artigo culminaram na sua retratação. A Nature declarou que o estudo continha erros graves, como manipulação de dados, e decidiu que ele não possui valor científico e, portanto, não pode mais ser citado por colegas da área.

Nos últimos anos, retratações como essa vêm aumentando. Em 2012, foram cerca de 400 artigos retratados em periódicos ao redor do mundo, número semelhante a 2011. Em 2013, os dados subiram para 500, de acordo com o site americano Retraction Watch, que publica diariamente notificações de pesquisas retratadas em todo o mundo. Trata-se de uma pequena fração dos cerca de 2 milhões de artigos publicados anualmente – mas as fraudes têm se tornado cada vez mais comuns.

Os últimos dados do Escritório de Integridade em Pesquisa (ORI, em inglês), do Departamento de Saúde do governo americano, mostram que, em 2011, houve 240 denúncias de fraude, número superior à média histórica do escritório, de 198. No mesmo ano, 44% das denúncias resultaram em condenações de má conduta – nesse caso, um número superior à média anual de 36%. Na última semana, um único periódico, o Journal of Vibration and Control, publicação importante na área da acústica, retratou 60 artigos ligados a um pesquisador de Taiwan. De acordo com a investigação conduzida pelo periódico, o pesquisador teria criado 130 contas de e-mail que seriam usadas para a revisão de suas pesquisas.

Um dos principais objetivos de um cientista que age de maneira fraudulenta é garantir o financimento para o seu trabalho. “Conclusões que recebam muita publicidade podem se traduzir em fama financiamento”, diz Abbasi. “Mas ciência é baseada na honestidade e pesquisas fraudulentas não devem ter espaço.”

Sem lugar para o erro – Os especialistas na área apontam que, graças a modernos programas de computador tornou-se possível encontrar plágios de textos e erros em imagens de maneira rápida e simples. Erros que antes levavam anos para serem descobertos podem ser encontrados em segundos por meio de uma busca em bases de dados.

Todas essas novas estratégias possibilitaram que a revisão, tradicionalmente feita antes da publicação, tenha se tornado contínua, mesmo após a pesquisa ser divulgada. “A revisão após a publicação é algo recente, que melhorou o exame dos artigos e, certamente, levou a muitas retratações”, diz Adam Marcus, um dos editores e fundadores do site Retraction Watch. “A noção de que um estudo publicado seja um tipo de ‘trabalho em andamento’ pode ser assustador para muitos cientistas, mas é nesse sentido que a ciência está avançando. Por mais perturbador que isso possa parecer, não é uma tendência negativa, pois o objetivo de qualquer artigo científico é oferecer uma proposta que resista a exames posteriores.”

“O que move a ciência é a dúvida, a busca pelo novo. No entanto, isso exige, cada vez mais, um grande rigor”, diz o químico Jailson de Andrade, da Comissão de Integridade do CNPq. “Produzir uma fraude é capaz não só de acabar com a carreira de um cientista, mas também de produzir consequências graves e até ameaçar vidas humanas.”

Foi o que aconteceu com um estudo publicado em 1998 no periódico The Lancet que associou o autismo à vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). A pesquisa semeou o pânico e fez com quem muitos pais deixassem de vacinar seus filhos em todo o mundo. A revista se retratou apenas em 2010, quando reconheceu que os métodos do estudo eram inexatos e pouco éticos. Mas o estrago permanece. Países europeus vivem surtos de sarampo, causados pela baixa adesão à vacinação.

Os recuos deste ano mostram que a ciência trabalha com a incerteza, mas se torna, cada vez mais, intolerante com o erro. Com a publicação de dados e conclusões em sistemas online, o apoio da imprensa especializada na divulgação dos resultados e a revisão rigorosa de grupos de pesquisa em todos os cantos do planeta, falhas e equívocos são expostos com clareza ao público – e inauguraram uma ciência mais rigorosa e eficaz. “Todos que geram um conhecimento novo precisam fazer isso com muito cuidado e severidade. Má conduta, cópia de dados são extremamente graves e não são mais tolerados”, diz Andrade.