Baleias-jubarte ensinam as outras a pescar

Assim como em humanos e em primatas não-humanos (macacos), o comportamento das baleias também pode ser difundido culturalmente

As baleias-jubarte são capazes de aprender novas técnicas de alimentação com outras baleias da sua espécie. De acordo com estudo que será publicado no periódico Science nesta sexta-feira, assim como em humanos e em primatas não-humanos (macacos), o comportamento das baleias também pode ser difundido culturalmente. Na pesquisa, foi comparada a maneira como uma única baleia se alimentava na década de 1980 e como o comportamento evoluiu para outras baleias em 2007.

A baleia jubarte se caracteriza por ter a cabeça um pouco achatada, coberta por “calombos”. Para a alimentação, elas possuem barbatanas, que descem do céu da boca formando algo similar a uma cortina, que funciona como um filtro – a água do mar passa, mas os alimentos ficam presos.

Alimentação – À época da primeira observação dos pesquisadores, ainda na década de 1980, as jubartes se alimentavam no Golfo do Maine (localizado na Costa Nordeste da América do Norte) produzindo um círculo de bolhas por baixo da água. Ao subir para a superfície, essas bolhas formam uma espécie de rede, obrigando, assim, o cardume a se manter concentrado no meio. Em seguida, as baleias também se dirigem à superfície para comer os peixes.

Na década de 1980, no entanto, uma baleia foi flagrada se alimentando de uma maneira nunca vista antes. Para obrigar os peixes a ficarem concentrados no meio do círculo, a baleia bateu a cauda na superfície da água, também em círculos. Essa técnica ficou conhecida como alimentação com batida de cauda, e é amplamente praticada entre as jubartes atualmente.

Pesquisa – Para o levantamento, a pesquisadora Jenny Allen e colegas utilizaram mais de duas décadas de informações coletadas por navegações comerciais. Foi usada uma técnica chamada análise de difusão com base em rede. Essa técnica parte do princípio de que o aprendizado acontece por meio de outros animais: as baleias que andam na companhia das que praticam a alimentação com batida de cauda são mais suscetíveis a começarem a se alimentar do mesmo modo.

Os pesquisadores conseguiram demonstrar, então, que a transmissão cultural é uma força potente por trás desse tipo de comportamento alimentar. Outros fatores, como genética e aprendizado individual, por exemplo, não seriam suficientes para explicar os padrões de disseminação dessa técnica alimentar. Assim como na cultura humana, há inovadores na população de baleias que aparecem com novas soluções. Suas ideias são espalhadas e, eventualmente, podem acabar sendo copiadas pela população em geral.

População reduzida – De acordo com Milton Marcondes, diretor de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, após as sucessivas caças do século 20, o número de indivíduos da espécie foi reduzido a entre 5% e 10% de sua população original. “Estima-se que existiam, no Brasil, na década de 1980, entre 1.500 e 2.000 animais”, diz. Hoje, esse número já está entre 11.000 e 14.000 – calcula-se que esta população já tenha sido de até 32.000 baleias.

Opinião do especialista

Milton Marcondes

Diretor de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte

“Já se sabia que as baleias-jubarte têm alguns comportamentos aprendidos socialmente. No canto, por exemplo, quando uma delas altera a estrutura do som, as demais escutam e começam a fazer a mesma mudança. Cada população de jubarte tem um canto próprio, é algo cultural.

Em relação à alimentação, essa característica social pode ser vista também quando elas resolvem sair juntas à procura de peixes. Há casos nos quais apenas uma delas produz a rede de bolhas. Quando a rede está pronta, ela dá o sinal para que as demais, que ficaram esperando ao redor, subam para comer. Assim, as chances de sucesso são maiores: se o peixe escapar de uma, vai acabar sendo comido por outra.”