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Aos 70 anos, Stephen Hawking ganha nova biografia

Novo livro traz detalhes sobre infância e divórcio do cientista vivo mais famoso do mundo. Como Einstein, Hawking não se destacou no ensino fundamental e ainda pretende descobrir uma 'teoria de tudo'

Ele ainda não compreendeu a “mente de Deus”, como alguns previam no fim da década de 1980, nem recebeu o prêmio Nobel da Academia Sueca. Contudo, ainda é considerado o cientista vivo mais famoso do mundo e acaba de ganhar, aos 70 anos, uma nova biografia. Em Stephen Hawking: Aventuras de uma vida (Editora Benvirá, 480 páginas, 49,90 reais), o físico inglês é retratado pela americana Kitty Ferguson, que atualizou uma outra biografia sobre o cientista, publicada em 1991.

A atualização era mais do que necessária. A própria escritora, grande amiga do cientista, considerava o antigo livro pequeno e com linguagem voltada mais para jovens. A nova versão, por outro lado, inclui passagens sobre o divórcio do físico – que ocorreu à época da publicação da primeira biografia e não entrou na versão final do livro -, passagens sobre sua infância e os avanços no campo da física nos últimos 20 anos.

A vida de um gênio

STEPHEN HAWKING

O físico nasceu em Oxford, na Inglaterra, no dia 8 de janeiro de 1942, exatamente na data em que se comemorava o tricentenário da morte de Galileu Galilei.

INFÂNCIA – Hawking é o filho mais velho de uma família excêntrica que dirigia um táxi e saía de férias em antiquado trailer de viagens. Foi criado em um ambiente de muita leitura, com muitos jantares em que os familiares em silêncio se debruçavam sobre livros. Assim como Einstein, com quem é frequentemente comparado, Hawking passou pelo ensino fundamental sem destaque. Era o terceiro pior da turma. Porém, como muitos físicos, era obcecado pelo universo e suas questões mais fundamentais, como seu início e fim. Aos 15 anos, soube que o cosmos estava em expansão. “Claramente há algum erro”, pensou, ainda sem saber que a teoria estava correta.

DOENÇA – Quando finalmente se inscreveu no exame de seleção da Universidade de Oxford foi aceito com uma bolsa. Durante o período universitário, a partir de 1962, Hawking dedicou boa parte do tempo liderando a equipe de remo. “Isso ajudava a aliviar o imenso tédio no campus”, disse. Apesar da pouca atenção que dedicava à graduação, conseguiu passar nas provas finais e garantiu uma bolsa para estudar o doutorado em Cambridge. Durante o primeiro ano, com 21 anos, foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença degenerativa que paralisou todos os movimentos do físico ao longo dos anos. Os médicos deram a Hawking somente dois anos de vida.

SUPERAÇÃO – O gênio foi devastado por uma depressão. Kitty escreve que Hawking não abusou de bebida alcóolica por causa disso. “Me senti como um personagem de uma tragédia. Comecei a escutar Wagner”, disse o físico. O gosto pelo compositor alemão continuou e a tristeza sumiu à medida que sua carreira em Cambridge prosperou. Em 1979, passou a ocupar a cadeira de professor lucasiano da instituição, cátedra ocupada por ninguém menos que Isaac Newton. Em 2007, Hawking participou de um voo antigravidade em um Boeing 727. A experiência dá aos passageiros a sensação de gravidade zero, como se estivessem no espaço. O físico adorou o voo. “A humanidade não deveria ter todos os seus ovos em apenas um cesto ou um planeta”, disse em entrevista a uma rede de televisão logo após o voo.

Em entrevista ao site de VEJA, Kitty disse que a ideia era transformar a primeira biografia em um e-book. Contudo, segundo a escritora, havia tanto material novo que a nova biografia vai além de ser um livro revisado. “Ele canibaliza a versão antiga, mas a linguagem foi atualizada”, garante.

Sem fofocas – Contudo, a escritora deixou de fora aspectos controversos sobre a vida do gênio. Kitty explica que Hawking não fala muito sobre a relação que teve com Elaine, sua segunda esposa, de quem se divorciou em 2006. “Ninguém sabe detalhes sobre o que aconteceu entre eles”, diz.

A escritora revela que conversou com Hawking sobre a possibilidade de incluir o que é publicamente conhecido sobre o assunto, como rumores de abuso por parte de Elaine, mas decidiu se resguardar. “Não sou uma jornalista de fofocas e não procurei ser uma repórter investigativa sobre o assunto”, justifica.

Mas a escritora conseguiu o que queria quando se propôs a relatar a vida do gênio. “Eu queria que ele gostasse do livro, que o aprovasse”. Tudo indica que Kitty conseguiu. “A nova biografia é o único livro sem a autoria de Hawking que ele exibe em sua página pessoal”, diz, sem disfarçar o orgulho.

Hawking religioso? – De controverso, Kitty trata no livro apenas aquilo que considera ser uma cruzada pessoal: a de impedir que Hawking seja lembrado como um ateu. “Ele passa uma imagem de que não pensou muito bem sobre o assunto”, diz, com indignação. “Todo o resto das coisas que faz, ele pensa muito bem”, compara a escritora, católica. “Acredito em Deus e não gosto das afirmações ateias dele.”

A escritora confessa que nunca discutiu o assunto religioso com Hawking. “Ele demora tanto tempo para responder a uma pergunta que aprendi a priorizar os assuntos mais importantes”, explica. Por causa de sua doença, a esclerose lateral amiotrófica, Hawking usa um computador especial para ditar suas respostas, o que pode levar vários minutos. “No fim, respondi as questões que realmente interessavam a mim.” Provavelmente, Kitty deixou de tratar sobre Deus com Hawking por temer que o físico a dissesse diretamente aquilo que já foi objeto de tanta reflexão que virou livro.

Em O Grande Projeto (Editora Nova Fronteira), Hawking é contundente: “Não precisamos de Deus para explicar a origem do universo.” Kitty, contudo, protesta. “Acredito firmemente que ele não mostrou no livro que Deus não existe. Seria lastimável se parte do legado dele influenciasse jovens a se tornarem ateus.”

Legado – Impossível dizer como Hawking será lembrado após a sua morte. Contudo, o físico é considerado o mais popular desde Einstein. Já participou de episódios no seriado de ficção Jornadas nas Estrelas, foi personagem do desenho americano Os Simpsons e recentemente fez uma aparição no seriado The Big Bang Theory.

Muitos concordam que a maior contribuição de Hawking à física foi a descoberta de que os buracos negros podem diminuir de tamanho, emitindo uma radiação, a radiação Hawking. “Ele gostaria de ser lembrado pela ciência que fez e não pela deficiência que tem”, diz Kitty. “Não sei se isso vai acontecer – acho que ele será lembrado pela figura heroica que sempre foi.”

Desde 1977, VEJA acompanha as descobertas de Stephen Hawking e suas contribuições para física. O cientista já foi capa em uma edição de 1988 e em 2009 apostou 100 dólares que o Grande Colisor de Hadrons, o maior acelerador de partículas do mundo, não encontraria o bóson de Higgs. Por enquanto, o gênio está ganhando.