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Tragédia em Niterói: sobreviventes estão sem rumo

Ao redor do local onde estão concentradas as buscas no Morro do Bumba, concentram-se famílias, grupos e gente solitária que sobreviveu ao desmantelamento da encosta, mas ainda não retomou a vida. O contingente de desabrigados e afetados indiretamente pela tragédia ainda é uma incógnita – assim como o de mortos, 17 confirmados no morro, número que pode chegar a 200. A técnica de enfermagem Denise Gonçalves do Carmo morava ao lado da filha. As duas casas estão interditadas, com risco de desabamento.

“Não tenho a menor condição de sair daqui e retomar meu trabalho. Minha filha e eu estamos com nossas famílias fora de casa. Mas não posso sair daqui. Fico vigiando de onde posso a casa no alto do morro, tenho medo de saques, de perder o que restou inteiro”, explicou.

Pela manhã, Denise recebia conforto no abraço de outra moradora do Viçoso Jardim, Leda Borges. “Agradeço muito a Deus porque na minha casa está todo mundo vivo. Eu e minha filha escapamos com vida”, disse.

LedaBorges e Denise Gonçalves (Reginaldo Costa Teixeira)

Há 10 anos, Jaqueline Alves da Silva, desempregada, foi morar no Bumba. “Nunca soube que era um lixão, que isso tudo podia desabar”, revelou. “Estou perdida, sem ninguém. Não tenho acesso a minha casa e não sei se vou poder recuperar o que ainda tenho”.

A corrente de solidariedade se estende para chegar a onde quer que haja alguém necessitado. Militar reformado, Ricardo Oliveira, 48 anos, mora na Ilha da Conceição, bairro a cerca de 5 quilômetros do Viçoso Jardim. “Vim trazer roupas, cobertor, travesseiros e comida”, conta, depois de distribuir 100 pães no ajuntamento junto à faixa que isola o canteiro de buscas.

Ricardo trouxe mais. Em um papel já amassado, rabiscos tentam recriar a localização de casas e a disposição dos prédios na rua. “Um grande amigo que morava aqui perdeu toda a família e está em um abrigo. Trouxe esse papel para tentar ajudar os bombeiros, indicando onde pode haver corpos, onde ficavam as casas”.