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Risco para a Copa: nas favelas com UPPs, os bandidos estão armados

Ataques a policiais e crescimento da criminalidade no ‘asfalto’ mostra que quadrilhas mantêm seu poder de fogo. No ano da Copa do Mundo, noticiário internacional sobre o Rio volta a ter foco na violência e no tráfico de drogas

Para os otimistas, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) atravessam apenas um momento tenso, mas os tiroteios em favelas e os ataques à polícia logo serão resolvidos, com reforços de efetivo e prisão de traficantes. Para os pessimistas, o projeto perdeu o rumo, e a reconquista do território nas favelas cariocas não passou de ilusão. Os dois grupos – e também quem está nos gabinetes da cúpula da segurança no Estado do Rio – concordam em um ponto, indiscutivelmente: é frustrante constatar que, a um mês da Copa do Mundo, o noticiário internacional sobre o Rio ainda esteja concentrado na criminalidade e no medo que turistas e delegações manifestam às vésperas da competição.

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Deu errado? É cedo para dizer. Mas definitivamente não era esse o objetivo. No cronograma das UPPs, 2014 sempre foi o prazo para as favelas estarem sob controle. Afinal, além da Copa do Mundo, é ano de eleição, e foi a ocupação de favelas o carro-chefe da reeleição de Sérgio Cabral em 2010. A situação nas favelas que o governo chama de “pacificadas” não é boa. As mortes de policiais chegaram a quatro nos primeiros quatro meses do ano, superando as três de 2013, como revelou reportagem do site de VEJA. Vinte e cinco foram feridos até agora em 2014 – no ano passado inteiro foram 24.

Torcer contra as UPPs é um tiro no pé. O programa beneficiou uma parte da população – nos cálculos usados pela propaganda oficial do governo, 1,5 milhão de moradores – e transformou para melhor uma grande área do Rio, principalmente na região ao redor da Tijuca, na Zona Norte. Mas o que apavora turistas e delegações internacionais no momento, e que amedronta também os cariocas, é o fato de mesmo onde as UPPs deram certo a situação parece se deteriorar.

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A Tijuca é, provavelmente, a área que mais se transformou com as UPPs. Não por acaso: é nessa área da cidade que fica o estádio do Maracanã, onde será realizada a final da Copa do Mundo. Formou-se, nessa área, um cinturão de ocupação das favelas, com sete UPPs. Mesmo assim, em março, como mostra a edição desta segunda-feira do jornal carioca Extra, o total de roubos na região do estádio dobrou em relação aos registros do ano passado. Foram computados 481 registros no mês passado, em comparação com 238 no período correspondente de 2013. Roubos de rua são determinantes para a sensação de segurança. E dificilmente a população se convence de que há avanço contra a criminalidade quando aumenta o risco de assalto à porta de casa. Um levantamento do site de VEJA mostrou que, em janeiro deste ano, o Estado do Rio teve o maior volume de roubos dos últimos dez anos – ou seja, os assaltantes voltaram a agir como antes das UPPs.

Os números da criminalidade foram extraídos das estatísticas oficiais do Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão do governo do Estado. Uma comparação feita pelo jornal O Estado de S. Paulo entre os três primeiros meses de 2014 e de 2008 – antes do início das UPPs – revelou que, seis anos depois do projeto, o Rio voltou a ter incidência de crimes nos mesmos níveis do período pré-UPP: entre janeiro e março deste ano, 1.459 pessoas foram assassinadas no Estado, número próximo do período correlato de 2008 (1.562). Desde então, o menor índice de homicídios registrado pelo ISP foi em 2012, quando houve 1.100 casos no primeiro trimestre (4.030, ao longo de todo o ano).

A fotografia do momento é ruim para o Estado. Os crimes vinham em queda até recentemente. “A ideia que se espalhou de que há migração do crime está fazendo sentido. Há mudança de padrão da criminalidade na Baixada Fluminense e outras áreas da Região Metropolitana do Rio, como Niterói e São Gonçalo, não só com aumento da criminalidade, mas com pessoas que passaram a circular armadas. Há uma rearrumação do mundo do crime. E as políticas de segurança foram lentas para responder a isso”, afirmou ao Estadão a cientista política Sílvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes.

O Rio tem atualmente 38 UPPs. Mas o crescimento do programa não foi capaz de sustentar o que se viu logo após o surgimento das primeiras unidades, na Zona Sul. Inicialmente, as UPPs tornaram-se cartões de visita do Rio, com festas em pequenas favelas antes controladas pelo tráfico e uma onda de investimentos em turismo. Ainda há festas frequentadas por jovens de classe média no Dona Marta, bares e pousadas no Morro da Babilônia e Chapéu Mangueira, turistas que se hospedam no Vidigal. Mas na Rocinha, no Alemão e na Cidade de Deus – maiores favelas chamadas de “pacificadas” – a situação é tensa.

Um vídeo obtido pelo site de VEJA mostra uma boca de fumo no Alemão com homens armados – exatamente como no período antes das UPPs. Os tiroteios no complexo são diários, assim como na Rocinha. O objetivo do programa não era acabar com a venda de drogas, mas com o risco armado – principalmente para os moradores desses locais. Entre as críticas mais frequentes à política de Segurança do Rio está o baixo número de prisões e apreensões de armas. Os dados do ISP mostram que, em relação aos três primeiros meses de 2008, houve agora um aumento de 60% no cumprimento de mandados de prisão. A apreensão de armas caiu 11%.

A justificativa para a queda pode estar na lógica de que “quanto mais se recolhe menos há para recolher”. Mas não é o que mostram os confrontos e os ataques a policiais.

(Com Estadão Conteúdo)