‘Que bom que tu tá vivo! Já contei 15 amigos que perdi hoje’

Jovens sobreviventes se despedem dos amigos mortos no incêndio de boate

Atualização: Em 31 de janeiro de 2013, o número de mortos era de 236 pessoas. Segundo o Ministério da Saúde, 143 vítimas ainda estavam internadas, mais de oitenta em estado crítico.

Faltando dez minutos para a meia-noite, foi divulgada a lista com a identidade dos 231 corpos no Centro Desportivo Municipal de Santa Maria – onde foi reconhecida a maior parte dos mortos no incêndio da boate Kiss. Enquanto isso, no Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, sobreviventes que estavam na festa e escaparam aparentemente ilesos voltavam para checar se a fumaça inalada não havia prejudicado seus pulmões. Um deles, ao reconhecer o amigo em frente ao hospital, suspirou aliviado: “Que bom que tu tá vivo! Já contei 15 amigos que perdi hoje”.

O Brasil de luto por Santa Maria: 231 jovens mortos no incêndio da boate Kiss

No ginásio onde acontecia o velório coletivo, era comum ouvir frases semelhantes. Carolina Christo, 16 anos, tinha acabado de voltar do cemitério onde enterrou dois amigos – os irmãos Pedro e Marcelo Salla – e já velava o corpo de mais um, João Carlos Barcellos. “Por onde eu ando, vejo alguém conhecido. Muito triste. Acho que foram uns seis amigos…”. A adolescente confirma que era comum menores de idade entrarem na boate, apelidada de “Kids” justamente por causa dos menores que apresentavam identidade falsa na entrada.

Em meio às dezenas de voluntários que serviam água, biscoitos e sanduíches, outro grupo de jovens lamentava perdas. Matheus Silveira Leite, 22 anos, saiu antes da banda Gurizada Fandangueira subir ao palco. Era 2h50min. Poucos minutos depois, enquanto esperava por um cachorro-quente próximo dali, recebeu um SMS de um amigo que estava em frente à boate dizendo que algo horrível estava acontecendo e que precisam de ajuda. Matheus e a namorada, Fernanda Borin Noal, 20 anos, voltaram a tempo de ajudar os bombeiros e policiais que já estavam no local. “Eles pediram que derrubássemos as janelas e as partes de madeira da frente para que mais gente pudesse sair. Vimos gente saindo e desmaiando ali mesmo, na calçada”, conta. No meio da tarde, Matheus e Fernanda e outros 8 amigos aguardavam ainda informações sobre o corpo de um quarto conhecido – outros três já estavam sendo velados.

Superlotação – De acordo com o comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Guido, apesar do alvará de Plano de Prevenção de Combate a Incêndio da boate estar vencido desde agosto de 2012, a casa atendia critérios como ter sinalização de saída de emergência e extintores. “A questão é que a lotação da casa é de mil pessoas. Ainda não temos certeza, mas testemunhas contam que havia mais de 1.500 na hora do incêndio. Outro problema foi usar material pirotécnico, o que é proibido neste tipo de local”.

Segundo jovens que estavam na festa, um dos extintores não teria funcionado quando um dos integrantes da banda tentou apagar as primeiras faíscas. Outra menina disse que “a sinalização na casa era confusa e muita gente acabou se dirigindo aos banheiros, em vez da saída”.

Cidade universitária, Santa Maria inteira está de luto. Foram decretados 30 dias pela prefeitura. O reitor da Universidade Federal de Santa Maria, Felipe Müller, esteve o dia todo no ginásio acompanhando a identificação dos corpos. Foram suspensas as aulas dos próximos dias. “Neste momento, o que importa são as pessoas. Estamos entrando em contato com as famílias, inclusive as de dois alunos estrangeiros, do Paraguai e da Argentina, e oferecendo ajuda nos traslados dos corpos”, disse, esclarecendo que a instituição não se responsabilizava por eventos ocorridos em estabelecimentos privados, mesmo com o envolvimento de associações de alunos, como foi o caso da festa na Kiss. “Dentro da universidade, a boate do DCE está interditada desde o início do ano justamente por questões de segurança. Fizemos uma fiscalização após denúncias de barulho e acabamos verificando outros problemas”.

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