PM vai usar bomba de efeito moral com dobro da potência

Por falta de granadas em estoque, fabricante entregou hoje à polícia fluminense 2.000 artefatos produzidos para Angola, onde a concentração de lacrimogêneo é de 20% - no Brasil, o máximo permitido é de 10%

“Perto desse lote que estava indo para Angola, a bomba do Brasil é um acarajé”, compara um oficial da PM, em entrevista ao site de VEJA.

A Polícia Militar do Rio passará a usar bombas de efeito moral duas vezes mais potentes do que as lançadas nas últimas manifestações na cidade. Uma obra do acaso fez com que a corporação adquirisse esse tipo de artefato: por absoluta falta de material no fornecedor desse produto, os policiais adquiriram bombas produzidas para serem exportadas para Angola – e fora das especificações brasileiras. Na verdade, as bombas não foram obtidas como manda o figurino. Ao fazer um novo pedido de emergência ao fabricante, a PM recebeu a informação de que não havia estoque disponível. Na base da pressão, os oficiais fluminenses arremataram, e carregaram, 2.000 bombas extra fortes.

“Perto desse lote que estava indo para Angola, a bomba do Brasil é um acarajé”, compara um oficial da PM, em entrevista ao site de VEJA.

Tecnicamente, a diferença é a seguinte: no Brasil, a concentração máxima de ortoclorobenzalmalononitrilo, o lacrimogêneo (CS), é de 10%. Em Angola, as granadas têm concentração de 20% de CS. Na prática, cada estouro no Rio vai significar o dobro da irritação para quem estiver no raio de alcance da fumaça tóxica.

A PM fluminense teve um ‘gasto inesperado’ com esse tipo de granada desde a última segunda-feira, quando foi atacada a Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj). O estoque ‘foi para o vinagre’ de vez na quinta-feira. Por lei, a PM só pode comprar 2.000 bombas por vez. Mas na batalha em frente à prefeitura foram lançadas bem mais. Como? Um oficial ouvido pelo site de VEJA explicou que, oficialmente, havia um estoque de cerca de 2.000 bombas. Mas também foram lançadas as que estavam fora da validade. A estimativa de militares envolvidos na operação é de que perto de 4.000 bombas estouraram em toda a cidade desde a quinta-feira da semana passada, em três grandes conflitos – na Alerj, no centro, no Palácio Guanabara, na Lapa, no Passeio Público e nos pequenos confrontos cidade afora. “Jogamos bomba feito confete”, compara um policial do Batalhão de Choque, depois do confronto na Avenida Presidente Vargas.

Na quinta-feira, até no hospital Souza Aguiar elas foram atiradas. “Estávamos saindo para jantar e tivemos de voltar, porque jogaram aqui dentro sem necessidade”, reclamou uma enfermeira. O coronel Alberto Pinheiro Neto, chefe operacional da PM, justificou que o vento levou o gás até o hospital. Mas admitiu: “Havia a necessidade de fazer a utilização desse equipamento em larga escala para conter os distúrbios que estavam ocorrendo por todo o centro”, disse na entrevista coletiva.

Como em toda ‘revolução’, um lado perde, outro ganha. Até o momento quem saiu ganhando foi a Condor, fabricante que atende a PM do Rio. “Os caras estão desesperados. Estão pagando até hora extra para produzir mais bombas”, revelou um militar.

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