Paulistana de 19 anos explica como pintou grafite de 2.500 m²

Luna Buschinelli pode entrar para o Guinness Book pela arte, considerada o maior mural do mundo feito por uma mulher

Uma artista de apenas 19 anos tem dado o que falar desde a última sexta-feira, quando inaugurou, no Rio de Janeiro, o maior grafite do mundo feito por uma mulher. A paulistana Luna Buschinelli foi convidada para pintar todas as paredes, incluindo as laterais, da Escola Municipal Rivadávia Corrêa, na Avenida Presidente Vargas, entre a Igreja da Candelária e a Central do Brasil. A ação faz parte do projeto Rio Big Walls, da Secretaria Municipal de Cultura, que pretende valorizar espaços da cidade por meio da arte urbana. A gigantesca pintura, batizada de Contos, ocupa uma área total de 2.500 metros quadrados e pode render à jovem o recorde feminino no Guinness Book.

Luna conta que o convite partiu do produtor Pagu, um dos responsáveis pelos murais do Boulevard Olímpico – entre eles, o de Eduardo Kobra, reconhecido pelo Guinness como o maior grafite do mundo – e a pegou de surpresa. “Eu não poderia ficar mais feliz com a proposta nem com a confiança depositada em mim e no meu trabalho mesmo sendo tão nova”, diz a artista.

Colocar “a mão na massa”, no entanto, não foi fácil. A jovem teve de trabalhar cerca de 12 horas todos os dias, durante um mês e meio, desde as sete da manhã até as sete da noite. “Não tive finais de semana ou feriados. Foi um processo muito árduo, mas que valeu muito a pena”, descreve.

Luna conta que, mesmo com tanto espaço, assim que viu a foto da escola, soube na hora o que iria pintar. “Para mim, cada parede já tem um desenho ideal para ser ‘escavado’ ou descoberto por mim. É como se, ao bater os olhos, eu já soubesse o que deveria ser feito ali”, diz. “No processo acabo acrescentando algumas surpresas, mas na maioria das vezes sigo a ideia original, e com esse mural não foi diferente.”

Mesmo assim, para ela, o significado que quer transmitir é criado e se transforma a cada traço. “Com o mural, quis passar para todos que acreditem em seus sonhos e talentos, assim como eu acreditei nos meus e hoje me vejo aqui, conquistando tanto mesmo com tão pouca idade”, afirma. A ideia, segundo a artista, era “tocar o íntimo de cada um que para e vê” e fazer com que as pessoas descubram “mais sobre si mesmas” olhando para a obra.

A noção de que poderia estar pintando o próximo recorde mundial, no entanto, não veio na hora. Ela conta que só foi informada que seu mural seria o maior grafite já pintado por uma mulher quando estava quase embarcado para o Rio de Janeiro. “Quando comecei a traçar o projeto, apenas sabia que seria o maior que eu já tinha feito até agora”, ri a jovem.

Machismo

Luna diz que o universo do grafite é predominantemente dominado por homens, o que faz com que as mulheres sejam, muitas vezes, subestimadas ou desvalorizadas nessa área “Mas nunca me vi como mais fraca ou menos capaz, e não sou. Nós não somos”, diz com convicção. “Fico muito feliz em poder trazer com esse trabalho a força de um graffiti feminino, além de abrir portas e dar visibilidade não só para mim, mas também para todas as mulheres que se aventuram no mundo do graffiti e da arte.”

E, para as jovens que decidem seguir no mundo da arte de rua, Luna dá apenas um conselho. “Nós somos nossas maiores aliadas ou inimigas, então escolha acreditar no seu talento e aliar-se consigo mesma. A partir do momento que você tem certeza que faz aquilo que ama e que está no seu caminho certo, ninguém pode te colocar para baixo. Não dê ouvidos a comentários maldosos ou machistas, o que vai vir no final desse túnel que pode parecer tão escuro é muito maior do que você pode imaginar.”