Para o diretor do BEA, pilotos poderiam ter evitado tragédia

Segundo Jean-Paul Troadec, apesar das falhas nos sensores, a situação era reversível. Relatório do escritório aponta falha humana como causa do acidente

A queda do voo 447 da Air France, que ia do Rio a Paris no dia 1º de junho de 2009, poderia ter sido evitada. É o que avalia o chefe Escritório de Investigações e Análises (BEA) da Aviação Civil da França, órgão oficial encarregado das investigações do acidente. Para Jean-Paul Troadec, os pilotos da aeronave poderiam ter evitado a tragédia, apesar do congelamento das sondas Pitot. Troadec falou a imprensa nesta sexta-feira, dia em que o BEA divulgou o relatório em que aponta a sequência de falhas que culminaram no acidente.

“A situação era salvável”, afirmou Troadec. No relatório, o BEA indica os pilotos não adotaram o procedimento adequado após os primeiros problemas detectados durante o voo: perda de indicadores de velocidade – devido ao congelamento das sondas Pitot – e perda de sustentação da aeronave. “Os pilotos não identificaram a situação de perda de sustentação”, apesar do alarme sonoro que se ativou durante 54 segundos, informa o documento.

O diretor do BEA afirmou ainda que o relatório final sobre as investigações da tragédia ficará pronto somente no primeiro semestre de 2012. “Todos os dados obtidos exigem uma análise mais sistemática que demanda muito tempo”, declarou Troadec.

Outros representantes da BEA afirmaram ainda que os pilotos não tinham treinamento para lidar manualmente com a aeronave em altas altitudes. A agência recomenda que a tripulação passe a ser submetida a exercícios referentes ao comando manual dos aviões e a como evitar os “stalls” em altitudes elevadas. “Parece óbvio que a tripulação não reconheceu a situação em que estava, por qualquer razão, e que mais treinamento teria ajudado”, acrescentou Paul Hayes, diretor de segurança da consultoria britânica Ascend Aviation.

Justiça – A definição sobre a causa do acidente – se falha humana ou técnica – será determinante para a batalha judicial travada entre os envolvidos no caso. A Air France e a EADS, fabricante do Airbus, são alvo de investigações e processos criminais, além dos pedidos de indenização feitos pelos familiares das vítimas.

A companhia aérea divulgou uma nota nesta sexta-feira alegando que os pilotos tiveram dificuldades no voo porque os sistemas de alerta, chamados de “stall” eram ligados e desligados de forma intempestiva e enganosa. “A esta altura, não há razão para questionar a capacidade técnica da tripulação”, comentou a Air France.

O advogado Olivier Morrice, que representa familiares de vítimas na França, questiona a interpretação do relatório em referência aos pilotos. “Essa foi talvez uma maneira de o BEA liberar as empresas das suas responsabilidades”, disse à agência Reuters. “Se não houvesse uma falha nos sensores de Pitot, os pilotos não teriam sido colocados em uma situação tão complicada.”

O acidente – A aeronave Airbus 330 caiu quando fazia a rota Rio de Janeiro-Paris e matou 228 pessoas. O relatório parcial divulgado em maio indicava que a queda durou exatos 3 minutos e 30 segundos. O documento revelado nesta sexta aponta que, ao observarem o congelamento dos sensores Pitot, os pilotos não adotaram o procedimento adequado, o que provocou a perda de velocidade e de sustentação do avião.

Nas primeiras declarações, o BEA reconhecia a falha nos sensores, mas dizia que somente a análise das caixas pretas poderia confirmar o real motivo do acidente. O material que registra os parâmetros de voo e as conversas na cabine dos pilotos foi recuperado no início de maio, depois de passar 23 meses a 3.900 metros de profundidade no Oceano Atlântico.

(Com agências Reuters e AFP)