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Misrata abre o primeiro museu do conflito na Líbia

Jorge Fuentelsaz.

Misrata (Líbia), 1 nov (EFE).- Não é casualidade que Misrata, a cidade líbia cujos combatentes participaram de mais sítios a cidades e conquistas de praças, tenha inaugurado o primeiro museu da guerra do país.

Suas 200 brigadas de milicianos contribuíram para enriquecer os fundos do museu com símbolos do regime trazidos de Trípoli e de Sirte.

Na desolada rua Trípoli, onde foram vividos os combates mais ferozes entre as forças fiéis a Muammar Kadafi e os milicianos da terceira maior cidade do país se ergue esta modesta exposição, metade ao ar livre, metade coberta.

Uma das peças mais chamativas da exposição é, sem dúvida, a escultura ‘do punho de ferro achatando um avião americano’ que representa a resistência líbia e que Kadafi mandou erguer em frente a um palácio de sua residência de Trípoli depois que os Estados Uniodos o bombardearam em 1986 para tentar matar o coronel.

Os rebeldes de Misrata, depois de participar da tomada do complexo residencial de Kadafi de Bab aol Aziziya, arredores de Trípoli, arrancaram com um guindaste esta construção metálica de vários metros e não duvidaram em levá-la a Misrata.

Além do punho de aço, onde os visitantes ao pequeno museu se amontoam para tirar fotos, na sala de exposição se encontra a cadeira de Kadafi de sua residência de Sirte, de onde os rebeldes trouxeram também o cadáver do ditador ao qual expuseram publicamente durante cinco dias como um troféu a mais.

No museu, que leva o nome Murad Ali Hassan Jaber, o câmera do canal ‘Al Jazeera’ assassinado em Benghazi em março, também são mostradas as fotos de mil mortos e desaparecidos durante o regime de Kadafi, incluindo as vítimas da rebelião do dia 17 de fevereiro.

O objetivo, segundo seus fundadores é que as pessoas tenham uma ideia das armas que foram utilizadas no conflito e que não esqueçam.

E assim, além da cadeira de Kadafi ou os pratos que usava para comer, duas cópias do Corão ou uma enorme estátua de uma águia usada também em Trípoli, do quartel das brigadas de Salahaldin, também podem ser admiradas.

Desde balas de kalashnikov, até uma bomba de meia tonelada, passando por foguetes, morteiros, projéteis, tanques de fabricação russa, coletes antibalas caseiros e uma garrafa de mosto Don Simón, que não se sabe muito bem qual é sua função na exposição, mas que está situada junto a uma de genebra, para mostrar, talvez, que os seguidores de Kadafi bebiam álcool, o que é proibido pelo islã.

‘O que mais me chama a atenção são os tanques e a bomba de 500 quilogramas’, diz à Efe Ahmed Woyah, que veio com alguns amigos de Trípoli a 200 quilômetros ao oeste para ver a destruição da cidade e de Sirte ‘que dizem que está muito mais destruída’, comenta.

‘São armas que se usam fora da cidade, não nas ruas como fez Kadafi’, acrescentou.

No entanto, cada um fica impressionado com coisas diferentes, como Nabil al Gwail, que o que mais lhe chama a atenção são as bombas.

‘Um desses me explodiu ao lado, em Sirte, no dia 19 de outubro, por isso não posso deixar de olhá-los’, assegura este médico miliciano que dá graças a Deus porque não tem muitas sequelas, embora ainda precise de muletas para caminhar.

Gwail, que chegou à exposição em ambulância com uns amigos, insiste em que é uma boa ideia ‘porque explica a destruição de Kadafi’.

Mas nem todos as peças da cidade estão expostas, Omar al Shibani al Salihi, chefe da brigada Al Guiran, a que deteve Muammar Kadafi no último dia 20 em Sirte, guarda com zelo seus troféus, que saca de uma bolsa branca quando chega à entrevista concedida à Efe.

O revólver que o ex-ditador tinha em mãos quando foi detido: um Magnum 357 Smith and Wesson, um telefone Thuraya com a tela quebrada, uma bota de couro preto com zíper e salto, o turbante que usava na cabeça e um amuleto.

Mas há outro objeto que Salihi não leva consigo, a pistola de ouro que tiraram do coronel.

Ele assegura que, por enquanto, não pensa em cedê-los para a exposição, embora também não descarte que em um futuro os tente vender. Por enquanto, diz que esperará que as coisas se tranquilizem e que depois verá o que vai fazer.

Ao ser perguntado pela detenção de Kadafi, Salihi se lança a interpretar, com a arma em punho, o momento da captura do ditador.

Para isso, inclusive se ajoelha e avança de cócoras colocando os cotovelos no solo com a pistola na mão, como se saísse do encanamento no qual se encontrava escondido Kadafi em Sirte.

‘Jerkun, shu fi ja awlad?’ (Como vai, o que está acontecendo filhos meus?), assegurou Salihi reproduzindo as primeiras palavras que aparentemente pronunciou Kadafi ao ser detido e que se transformaram também em outro troféu, embora imaterial, dos rebeldes de Misrata. EFE