Mercadante focará campanha em transporte, educação e segurança

Aos 56 anos, o senador Aloizio Mercadante (PT) diz estar seguro de que levará a disputa eleitoral pelo governo de São Paulo para o segundo turno e que, dessa briga, sairá vitorioso. Para de fato conseguir o intento, terá de contornar ao menos dois obstáculos – nada desprezíveis. O primeiro deles é o fato de que seus principais adversários na corrida rumo ao Palácio dos Bandeirantes, os tucanos, dominam o estado há 16 anos – desde 1994 eles são os campeões nas urnas paulistas. O segundo obstáculo é expresso pelas pesquisas eleitorais, que apontam uma ampla vantagem do ex-governador Geraldo Alckmin, com mais de 30 pontos de frente sobre Mercadante. Para reveter o quadro na eleição paulista deste ano, ele aposta no apoio da frente partidária de 12 legendas, que inclui até representantes de agremiações que, no passado, eram arquirrivais do PT, como o DEM. O petista também acredita que podem lhe dar frutos eleitorais propostas para áreas que, na visão dele, enfrentam os maiores desafios no estado: caso de transporte, saúde, educação e segurança. Confira a seguir os principais trechos da entrevista com o petista.

Qual a importância da frente partidária em torno de sua candidatura?

Em 2006, quando fui candidato, tivemos o apoio de três partidos e chegamos a 32% dos votos. Desta vez, teremos 12 partidos, com o apoio de praticamente todas as centrais sindicais e um amplo setor do PMDB, que acompanhará Michel Temer (indicado pela legenda a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff) e o ministro da Agricultura, Wagner Rossi. Vamos ter um setor do PTB que nos apoia, com prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e deputados, como Frank Aguiar, além de setores do DEM. Essa coligação bem mais ampla mostra que há uma insatisfação grande com o continuísmo de quase 28 anos de um mesmo grupo político no poder. Foram 12 anos de PMDB, mais 16 anos de Geraldo Alckmin como vice-governador, governador e secretário de governo. Há um desejo de mudança e também um grande reconhecimento da qualidade do governo Lula neste momento extraordinário que o país atravessa. Tudo o que fizemos pelo Brasil, podemos fazer por São Paulo.

Qual o peso, para sua campanha, do apoio de nomes como o do vereador Milton Leite (DEM), historicamente ligado à direita?

Apoio é sempre bem-vindo na campanha, e a gente avalia que não há coesão dos nossos adversários em torno da candidatura do Alckmin. O governador interino (Alberto Goldman), assim que tomou posse, disse que ele não era o melhor candidato. Todo mundo sabe que ele não era o candidato preferido dos tucanos José Serra (pré-candidato à Presidência) e Aloysio Nunes, e também do Orestes Quércia, do PMDB. Não era e não sei se será o candidato ideal do Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo. Tudo isso fortalece a nossa candidatura. Temos forte unidade no PT, ampliamos nossas alianças e atraímos setores que são historicamente das bases do PSDB. Isso ajuda a viabilizar um segundo turno, quando eu e o Alckmin poderemos debater com profundidade. Vou mostrar que São Paulo precisa mudar muito e que não pode continuar acomodado, porque o Brasil vai crescer fortemente nos próximos anos.

De que forma as candidaturas de Marta Suplicy (PT) e Netinho de Paula (PC do B) ao Senado poderão ajudá-lo?

Em 180 anos de Senado, nunca houve um negro ou uma mulher na representação de São Paulo. Nós vamos lutar para que essas duas coisas aconteçam de uma vez só. O Netinho vem da periferia, da cultura, já é vereador e tem se preparado muito para esse desafio. E a Marta foi uma grande deputada federal, contemporânea, moderna e de muita coragem, e uma grande prefeita, com sensibilidade social e política. Os dois vão contribuir muito para nossa vitória.

O PSDB governa o estado há 16 anos. Qual o maior problema da gestão tucana na visão do senhor?

Estarem há tanto tempo no governo. São quase 28 anos de um mesmo grupo político (PMDB e PSDB) no poder. Depois, temos a Grande São Paulo, em especial a capital, com um grave problema de transporte e trânsito. As pessoas perdem 2 horas e 43 minutos por dia, ou 35 dias úteis por ano, no trânsito. Isso é uma queda na qualidade de vida. Eles foram incapazes de pensar uma política urbana integrada à de transporte. A gestão do Alckmin praticamente não investiu em metrô, os trens da CPTM estão sobrecarregados, o Ferroanel, que deveria ter sido inaugurado junto com o Rodoanel, não foi feito. Eles prometeram 20 trens em cada linha e isso não aconteceu, pararam os investimentos nos corredores de ônibus, inclusive nos intermunicipais. Tudo isso começa a prejudicar a competitividade da economia paulista. No interior, temos o abuso visível dos pedágios, com as tarifas mais altas do mundo e muitas praças de cobrança. Outra área problemática é a segurança pública. São Paulo tem hoje o pior salário de polícia do Brasil: um delegado ganha cerca de 5.200 reais, enquanto no Piauí o salário é de 7.140 reais. A disparidade é muito grande. Há profunda insatisfação nas polícia Civil e Militar. Chegamos a ter confrontos entre as polícias. E qual é o resultado disso? Todos os indicadores pioraram no ano passado: homicídios, roubo, assalto e sequestro. Especialmente no governo Alckmin, houve perda de controle do sistema prisional, com os ataques do PCC em 2006, que deixaram 42 policiais e 16 agentes penitenciários mortos. O controle do sistema prisional está nas mãos das organizações criminosas, e os presídios viraram universidades do crime.

A Secretaria de Segurança Pública paulista diz que os homicídios caíram 69% nos últimos dez anos.

No ano passado, os homicídios no interior cresceram 16%; neste ano, o número de homicídios praticados pela própria polícia subiu 40%. Há uma deterioração do sistema de segurança pública, falta policiamento ostensivo e chegamos ao ponto de ter assalto dentro de delegacia. Não adianta mais o governo tapar o sol com a peneira. A população sabe que o estado está inseguro. As prisões no interior levaram a criminalidade para lá, o crack já está tomando conta de várias cidades, mas alguns estados reagem com certa eficácia a tudo isso. Até o Rio de Janeiro vem reagindo positivamente, mas em São Paulo não vemos a mesma energia e determinação.

Qual seu principal projeto para são Paulo, caso seja eleito?

Separar os presos por grau de periculosidade e introduzir trabalho e educação para os detentos de menor periculosidade. Fazer também o monitoramento eletrônico dos presos, com tornozeleiras eletrônicas, que é um projeto meu, aprovado pelo Senado. Assim, poderemos introduzir penas alternativas. Precisamos ainda tratar como política prioritária a educação. O quadro é desolador: temos 100.000 professores sem concurso, são contratados professores sem formação específica, porque os salários são muito baixos. Se quisermos recuperar a educação, temos que começar pelos professores, valorizando a profissão, o processo de formação continuada, o estímulo à graduação e à pós-graduação. Teremos que fazer um grande investimento em tecnologia, com banda larga e laptop para os alunos, formando uma escola acolhedora e ágil, com interatividade e produção pedagógica digital. Na saúde, precisamos de investimentos em prevenção. O setor público tem que dar direito a diagnóstico para as famílias. Hoje, 41% da população têm que pagar plano de saúde porque a saúde pública é muito ruim. Precisamos remunerar melhor os profissionais e, sobretudo, apostar na parceria com o governo federal para a construção das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). O problema é que, em São Paulo, estão sendo construídas 97 UPAs, que ficarão abertas 24 horas por dia o ano inteiro para atender urgências e emergências, e o governo estadual não participa do cofinanciamento de nenhuma delas.

Em pesquisa recente, o senhor aparece com 19% das intenções de voto contra 51% de Alckmin. Esperava tamanha diferença nesse início de pré-campanha?

Na última campanha, em 2006, comecei com 8% e terminei com 32%. O Alckmin, depois de ter ficado no governo por 12 anos, foi candidato à Presidência em 2006, e, quando se candidatou a prefeito de São Paulo, começou com 45% e terminou com 22%. Não foi nem para o segundo turno. Isso mostra que eu tenho um histórico de crescer nas campanhas. O importante nessa hora é o debate político, especialmente no segundo turno: só eu e ele para fazer um balanço e mostrar o que pode e deve ser feito pelo estado. São Paulo sabe a importância do segundo turno e é assim que eu espero vencer as eleições.

Em 2006, em sua primeira disputa ao governo do estado, o senhor foi derrotado. Por que acredita que terá mais chances desta vez?

Sinto diferenças tanto em relação ao apoio político que estamos recebendo, muito mais amplo do que o de 2006, quanto em relação ao entusiasmo da nossa militância, muito orgulhosa do governo Lula e de tudo o que fizemos pelo Brasil. Além disso, sinto esse sentimento de fadiga, cansaço e acomodação da mesma panela no Palácio dos Bandeirantes. O sentimento de mudança e renovação em São Paulo é muito forte e está trazendo apoio à nossa campanha.

O PMDB apoia Dilma Rousseff na corrida à Presidência, mas em São Paulo não está com o senhor. Como lidar com isso?

O Temer está convocando uma grande mobilização no PMDB. Em meados de junho, faremos um encontro em Jales e mostraremos a força do PMDB, com prefeitos, deputados, vereadores e lideranças no apoio de Dilma e Mercadante. Teremos uma grande surpresa em relação ao apoio do PMDB.

O que falta para escolher o vice? O deputado Paulinho da Força disse que o PDT quer o posto de qualquer maneira.

Nós temos vários bons candidatos, ao contrário da campanha de alguns, que ainda não conseguiu encontrar nomes. Nós temos mais vices do que vaga (risos). Temos que ter habilidade e, como temos tempo até a convenção de junho, vamos amadurecer, para ter grande unidade em torno de um vice. O PDT tem sugerido bons nomes, como o Doutor Hélio, prefeito de Campinas, que é uma liderança muito importante. E o Major Olímpio, que traz a pauta de segurança pública à tona, mostrando a insatisfação nessa área. Temos ainda o (Eduardo) Suplicy, uma liderança histórica do PT, grande amigo e uma pessoa com quem convivo há mais de 30 anos e em quem tenho muita confiança, o que fortalece nossa chapa. De fato, havia um entendimento de que o PDT indicaria um vice. Nós temos que construir uma saída unitária com eles. E o faremos.

Na campanha de 2006, pessoas ligadas a sua candidatura ao governo do estado se envolveram na compra de um dossiê falso contra Serra. O senhor acredita que isso pode prejudicá-lo nessa campanha?

Acho que existem coisas que, para os amigos, não precisamos explicar, para o cidadão, devemos explicar, mas, para os adversários, não adianta explicar. Faz parte da política. Esse episódio serve para demonstrar de forma decisiva que a campanha se faz em torno de ideias e debates de propostas. Esse é o caminho para a nossa vitória em São Paulo e eu espero que os militantes tenham aprendido. Eu me sinto muito seguro para essa discussão, afinal de contas, o Ministério Público, órgão rigoroso que denunciou centenas de parlamentares e patrocinou a cassação de governadores, disse que não havia um único indício da minha participação (no episódio do dossiê) e o Supremo (Tribunal Federal) anulou e arquivou por unanimidade esse processo em duas votações. Estou tranquilo.