Marina nega saída, mas não esconde insatisfação com PV

Aliados confirmam, no entanto, que ela estuda deixar partido; ex-senadora rompeu com presidente do PV, José Luiz Penna

Embora negue publicamente que vá deixar o PV e fundar um novo partido, a ex-senadora Marina Silva já não consegue esconder que está com um pé fora da legenda. A maior divergência é com o presidente do PV, José Luiz Penna. Desde março, quando ele foi reconduzido ao cargo que ocupa há doze anos, os dois romperam relações. Nesta segunda-feira, Marina deu claros sinais de que sua paciência com Penna está próxima do limite.

As notícias sobre a debandada do grupo Transição Democrática, ligado à ex-senadora, surgiram no fim de semana. Um dos integrantes do grupo confirmou ao site de VEJA a tendência. “Percebemos que, por onde passávamos, um soldado ia ao chão”, diz o político, referindo-se à reação do presidente da legenda de punir quem apoiasse as ideias de reforma da estrutura do PV.

A decisão deve sair em menos de dez dias. Os verdes estimam haver cerca de trinta deputados federais de várias legendas dispostos a seguir Marina, caso ela crie uma legenda nova. Prefeitos e vereadores podem engrossar a lista.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira, Marina negou que a saída do PV esteja em discussão. Ainda assim, mandou recados bem diretos ao grupo de Penna. “Nós estamos aguardando para saber o que eles querem”, destacou. “Está na mão dessas pessoas decidirem para onde vamos”, reforçou aos jornalistas após o programa.

A ex-senadora e seus aliados têm sido cautelosos ao comentar sobre a possibilidade de fundar um novo partido. “Não queremos ser oportunistas como Gilberto Kassab. É preciso discutir com a sociedade para elaborar um novo modelo que esteja antenado com o século XXI e não com a velha forma de fazer política”, diz um dos verdes ligados a Marina.

Questionada sobre o prazo para tomar uma decisão, Marina desconversou. “O prazo é o da democracia. Estou querendo que a gente seja no mínimo razoável. Os 20 milhões de votos recebidos são muita responsabilidade para achar que vão ficar as mesmas pessoas e os mesmos cantinhos”.

Negociação – Para parte do grupo, uma debandada agora seria precipitada. “As tentativas de negociação não foram esgotadas e só quem tem interesses particulares estão com pressa”, afirma o deputado Alfredo Sirkis (RJ), único do grupo que ainda mantém contato com Penna. “De qualquer forma, não existe a hipótese de irmos para uma legenda já existente e um novo partido só seria viável após 2012, pois precisaria de muita conversa”.

Há quem aposte que Marina aguentará mais tempo no partido, mesmo com desgaste, para não perder território político – sem partido, seria mais difícil ela se manter em evidência e muitos de seus aliados que têm mandato ou querem se candidatar em 2012 não poderiam acompanhá-la porque precisam de uma sigla.

Apesar de divergirem publicamente sobre o futuro dos descontentes do PV, todos os integrantes do grupo Transição Democrática, inclusive Marina, concordam que o clima dentro do partido está cada vez mais pesado. Em abril, pessoas ligadas a Penna até iniciaram uma forte campanha na internet para expulsar a ex-senadora da legenda. “A situação é de fato desconfortável e revoltante”, reconhece Sirkis.

“Todos os sinais que temos recebido é de que não nos querem mais por perto”, diz outro aliado de Marina. “Só mesmo se houver um milagre e o Penna se manifestar a favor do diálogo é que as coisas poderão mudar, mas da forma que está não temos como ficar”.