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Leona Jhovs, 30: menino, deprimia-se com pelos no corpo

'Doía muito eu me olhar no espelho e não me reconhecer. Aquele não era eu. Algo estava errado', conta a hoje atriz, produtora e apresentadora

Desde os 3 anos de idade a atriz Leona Jhovs, hoje com 30 anos, mostrava sinais de que era mais do que um menino afeminado. Magra, com rosto delicado, ela se sentia e se comportava como uma menina. Gostava de batom, rímel, maquiagem, sandálias. Desde muito cedo, seus pais buscaram entender sua posição e a apoiavam, o que lhe transmitia segurança.

Leona conta que teve uma infância bastante tranquila como um menino afeminado até por volta dos 13 anos, quando entrou na puberdade masculina. O crescimento de pelos no corpo, principalmente a barba, incomodou demais a adolescente, que passou a sofrer com depressão. Foi também nessa época que ela assistiu a uma entrevista da modelo e apresentadora Roberta Close no programa Silvio Santos e soube, pela primeira vez,  o que era uma mulher transexual. Leona imediatamente se identificou, pois sabia que não era um homem gay.

Um pouco mais velha, trabalhando ainda como homem, Leona chora ao lembrar que era obrigada a usar terno, camisa social e gravata todos os dias. “Era como estar com um sapato de salto com os pés trocados 24 horas por dia. Doía muito eu me olhar no espelho e não me reconhecer. Aquele não era eu. Algo estava errado.”

Com o apoio familiar – todo mundo da casa fazia terapia –, Leona começou uma transição discretamente. Primeiro passou a fazer as sobrancelhas, depois a pintar as unhas, a usar rímel incolor, blusas em que parte da barriga ficava de fora. E assim a jovem foi ganhando força e coragem para assumir a sua verdadeira identidade feminina. Aos 25 anos, foi convidada a trabalhar em uma companhia de teatro, oportunidade que agarrou com todas as forças, pois seu sonho era ser atriz. Começou como atendente do público, passou pelo bar, pela área administrativa e pela coordenação até chegar a ser atriz da casa.

Doía muito eu me olhar no espelho e não me reconhecer. Aquele não era eu. Algo estava errado

A terapia hormonal começou aos 26 anos. Os seios cresceram naturalmente, e o rosto ficou ainda mais delicado. Ao usar o inibidor do hormônio masculino, no entanto, Leona perdeu a libido e achou melhor interromper o tratamento. Hoje, portanto, ela continua produzindo hormônio masculino e injeta o feminino. Não pretende colocar silicone nem fazer a cirurgia de transgenitalização. “Sou mulher, trans e travesti. Vejo a cirurgia como uma mutilação. Não é o meu pênis que me faz mais ou menos mulher”, diz ela, que se posiciona como militante do movimento LGBT.

Dentro da sua carreira, Leona já fez campanhas publicitárias, recebeu prêmio como melhor atriz por sua atuação no curta Lúcia, de Cristobal Hernandes, fundou a campanha Representatividade Trans Já, sendo uma das representantes do desfile de mulheres trans de Ronaldo Fraga, no São Paulo Fashion Week 2016, além de ser mestre de cerimônias do Prêmio Justiça para Todas e Todos Josephina Bacariça, da Ouvidoria Pública do Estado de São Paulo. Neste ano, foi a primeira mulher trans travesti a abrir a cerimônia e apresentar o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). “Eu me considero uma mulher completa.”

Conheça a história de dez transexuais


Ariadne Ribeiro
36 anos, pedagoga


Bruna Coutinho da Silva
52 anos, professora


Erick Barbi
38 anos, músico, empresário e publicitário


Gabriel Graça de Oliveira
51 anos, psiquiatra e professor


Jordhan Lessa
50 anos, guarda civil


Laura de Castro Teixeira
36 anos, delegada


Leona Jhovs
30 anos, atriz, produtora e apresentadora


Luca Scarpelli
27 anos, publicitário


Luiza Coppieters
38 anos, professora


Matthew Miranda Gondin
25 anos, auxiliar de escritório e empresário