Joesley sugeriu que Saud mentisse sobre repasses a políticos

Ao conversarem sobre divisão de dinheiro para políticos, dono da JBS sugere que executivo finja que não tinha conhecimento de todas as falcatruas

Na conversa que gravaram e encaminharam na última semana à Procuradoria-Geral da República, aparentemente sem querer, os delatores Joesley Batista e Ricardo Saud, da JBS, conversam sobre a divisão de dinheiro para os partidos políticos, especialmente para o PT.

A certa altura do diálogo, o dono da JBS sugere que seu principal executivo faça uma delação pela metade. Joesley afirma que Ricardo Saud poderia fingir que não tinha conhecimento de todas as irregularidades da empresa. Saud se mostra contra essa ideia, com medo de posteriormente ser delatado pelas dezenas de pessoas para as quais pagou propina.

Hoje eu estava fazendo a soma toda lá no Guarujá, sabendo que você estava pagando dinheiro para o PT. Você viu quanto eu economizei para você, seu v.?”, questiona Saud a Joesley. O diretor da Relações Institucionais passa, então, a relatar ao chefe conversas que tinha com supostos “credores” petistas. “Os caras metiam a faca em mim, eu dizia: ‘Não, problema seu com o Joesley. Joesley? Não, não quero falar com ele não. Não mandaram procurar o Joesley, mandaram te procurar, quem vai… problema nenhum. Esse dinheiro não é seu não, Ricardo, para segurar isso, não é seu não. Você está nos roubando, o dinheiro é do PT’. Eu falava: ‘Não, não fala este tipo de assunto, não, que eu não aceito’. E hoje eu estava fazendo as contas lá. Então quer dizer que 39 milhões, não é? Eu mereço pelo menos dez por cento, né, Joesley?”.

De acordo com Ricardo Saud, também houve contabilização de repasses ao PRB e para o ministro das Comunicações, Gilberto Kassab. “Eu ficava puto com os caras, me roubavam esses caras. Estão roubando todo mundo. Nesse dia o ‘coisa’ escreveu lá: ’15 milhões do PRB, tal, tal, tal’. Tá bom. A hora que dei para ele, ele falou assim: ‘Olha, Ricardo, só tem 3 milhões. Quer dizer, falei: ‘Acho que digitei errado’. Falei: ‘Espera aí, deixa eu pensar aqui’. Aí vem lá no outro: ‘Kassab, tal, tal, tal, 40 e tantos. Uai, Ricardo, está faltando 7 milhões. Não, desculpa, eu estou fazendo confusão’. Chegou no terceiro, ele falou assim: ‘Ricardo, acho que aquilo que o Joesley falou é verdade, você não sabia de p. nenhuma, você ficava p. de dar dinheiro para esses caras e você babava para ajudar a empresa’.”

Diante da contabilidade apresentada pelo subordinado, Joesley então sugere que Saud poderia alegar não saber do esquema, se confrontado por autoridades. “Ué, dizer que você não sabia da transa”, afirma. De pronto, é confrontado: “Eu não tenho chance. Todo mundo vai me delatar. A hora que a coisa começar a cair…(risos). Nós fizemos a conta lá, são 172, eu e o Marcelo fizemos a conta lá. Será quantos vão falar de mim?”.

A seguir, trechos das conversas entre os delatores:

Joesley – Você falou que eu te devo uma.

Ricardo – Ah é. Hoje eu estava fazendo a soma toda lá no Guarujá, sabendo que você estava pagando dinheiro para o PT. Você viu quanto eu economizei para você, seu v.?

Joesley – Eu vi. Eu vi.

Ricardo – …está novinho, né?

Joesley – Agora que você entendeu o que rolava, não é?

Ricardo – O povo falava para mim, eu… Eu fazia de… Eu até imaginava, mas não queria entender porque senão os caras…

Joesley – É. É melhor não entender.

Ricardo – Os caras metiam a faca em mim, eu dizia: ‘Não, problema seu com o Joesley. Joesley? Não, não quero falar com ele não. Não mandaram procurar o Joesley, mandaram te procurar, quem vai… problema nenhum. Esse dinheiro não é seu não Ricardo, para de segurar isso, não é seu não. Você está nos roubando, o dinheiro é do PT’. Eu falava: ‘Não, não fala este tipo de assunto, não, que eu não aceito’. E hoje eu estava fazendo as contas lá. Então quer dizer que 39 milhões, não é? Eu mereço pelo menos dez por cento, né, Joesley?

Joesley – Que que é esses 39?

Ricardo – Eu ficava puto com os caras, me roubavam, esses caras. Estão roubando todo mundo. Nesse dia o ‘coisa’ escreveu lá: ’15 milhões do PRB, tal, tal, tal’. Tá bom. A hora que dei para ele, ele falou assim: ‘Olha, Ricardo, só tem 3 milhões. Quer dize, falei: ‘Acho que digitei errado’. Falei: ‘Espera aí, deixa eu pensar aqui’. Aí vem lá no outro: ‘Kassab, tal, tal, tal, 40 e tantos. Uai Ricardo, está faltando 7 milhões. Não, desculpa, eu estou fazendo confusão’. Chegou no terceiro, ele falou assim: ‘Ricardo, acho que aquilo que o Joesley falou é verdade, você não sabia de p. nenhuma, você ficava p. de dar dinheiro para esses caras e você babava para ajudar a empresa’.

Joesley – É isso. É isso. E você sabe…

Ricardo – E somando, você sabe quanto deu? 39 milhões. Deve ter ficado puto, deve ter ficado p…

Joesley – E você sabe que, de repente, se der para classificar você como leniente, ué, também melhor ainda.

Ricardo – Quem, eu?

Joesley – É, ué. De dizer que você não sabia da transa.

Ricardo – Não tem como… Não tô ligando para essa p. não.

Joesley – Não, eu estou dizendo o seguinte: no contexto, entendeu? No contexto…

Ricardo – Eu não tenho chance. Todo mundo vai me delatar. A hora que a coisa começar a cair…(risos). Nós fizemos a conta lá, são 172, eu e o Marcelo fizemos a conta lá.  Será quantos vão falar de mim?

Joesley – Esse é o ponto, é melhor falar…

Ricardo – Agora, nós entregarmos…

Joesley – Igual esse negócio do SIF (Serviço de Inspeção Federal). Ninguém queria falar, ninguém, ninguém, ninguém… Ainda bem que nós falamos. Que agora, olha: ‘Nós falamos’. Tá vendo, como é que é?

Ricardo – …Velho, te juro, aquilo ali deu segurança para esse caso aí. Eu não quis falar isso pro Marcelo pelo telefone. Não falei não.  Aquilo ali deu segurança: ‘Marquinho, amanhã, quando o doutor seu chegar aí, cê cuida dele, viu? Ele gosta de massagem…’.

Joesley – Isso é um bandido, né, ô Ricardo?

Ricardo – Sauna… ‘Pode deixar’. Sauna, é…