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Dom Odilo: da infância na lavoura ao favoritismo no conclave

Arcebispo de São Paulo cresceu em distrito agrícola no Paraná e organizava pescarias nos dias de folga. Hoje, é um dos favoritos a suceder Bento XVI

Líder da terceira maior arquidiocese do mundo, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, de 63 anos, é um dos nomes mais cotados para suceder o papa Bento XVI no comando da Igreja Católica. Sétimo filho de uma família de treze irmãos, Odilo teve infância simples no distrito agrário de Dois Irmãos, no oeste do Paraná, quase na fronteira com o Paraguai. Desde cedo, trabalhou, ao lado dos irmãos, na lavoura. “Era uma tradição em nossa região que os filhos ajudassem os pais. E as crianças não se importavam, ao contrário, não admitiam que apenas os pais trabalhassem duro”, diz o historiador Vitor Beal, autor de livros sobre a história de Toledo.

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Dom Odilo nasceu na cidade gaúcha de Cerro Largo, em 1949, e mudou-se com a família para Toledo com dois anos de idade. Na infância, cultivou os mesmos hábitos dos garotos de Dois Irmãos. “Lembro dele correndo, nadando… era uma criança normal, que gostava do contato com o campo”, lembra Egon Flinker, tio de dom Odilo. “E jogava bola naquele campinho ali em cima. Tempo bom que não volta mais”, completa. “Era engraçado, sempre quando nos aproximávamos da época do Natal o Odilo chegava ali na cerca, que divide as propriedades e me chamava: ‘Tio, quero presente esse ano!'”, lembra.

Com o passar dos anos, dedicou-se aos estudos e à religião. Convidado pelo então bispo de Toledo, dom Armando Círio, Odilo Pedro Scherer ingressou na primeira turma do seminário da cidade. Ele foi ordenado padre aos 27 anos, em dezembro de 1976. Em seguida, passou a trabalhar no seminário de Cascavel (PR) e ajudou a fundar uma faculdade, na qual lecionou filosofia.

Estudos e pescaria – Dom Odilo viajou o mundo para estudar. Viveu no interior da França e da Alemanha, aprendeu inglês na Irlanda e aperfeiçoou o espanhol e o italiano durante sua passagem pela Europa. Também se dedicou aos idiomas utilizados pela Igreja, como o latim, o grego e o hebraico.

Em Toledo, foi padre da paróquia Cristo Rei e lá, em meio a diversas amizades, deixou seu maior legado. “Devo minha formação como padre a ele”, afirma o padre Ademir Alves, que foi vigário auxiliar de Odilo no oeste paranaense de 1987 a 1988. “Ele é de uma simplicidade irretocável. No início, muitas comunidades não possuíam estrutura, e ele só precisava de uma fonte de luz, um lampião, para reunir o povo e orar.”

Embora o trabalho o tenha levado para longe de Toledo, as lembranças permanecem entre os moradores da cidade. “Quando estudamos em Roma, moramos juntos no colégio Pio Brasileiro. Eu era o churrasqueiro da turma, e o Odilo adorava. Ainda tenho algumas fotos de nossos churrascos na capital italiana”, diz o padre Hélio Bamberg, hoje pároco em Toledo. “Quando ele era padre aqui, saíamos pescar todas as terças-feiras, que é o dia da folga dos padres, nos açudes da região. Era ele quem organizava nossas pescarias.”

A Ordenação Episcopal de dom Odilo foi sagrada em fevereiro de 2002. Já a nomeação como arcebispo de São Paulo ocorreu em 2007, pelo papa Bento XVI. Scherer foi ainda bispo auxiliar de São Paulo (2002 a 2007), secretário-geral da CNBB (2003 a 2007) e, em novembro de 2007, foi nomeado cardeal, também por Bento XVI.

Favoritismo no conclave – Além da boa relação com a Cúria Romana, o brasileiro também tem a seu favor a idade – 63 anos -, o domínio de diversos idiomas e a afinidade com as linhas gerais consagradas pelo agora papa emérito. Em maio, quando o executivo Ettore Gotti Tedeschi, presidente do Banco do Vaticano, foi demitido por suspeita de lavagem de dinheiro, Scherer viajou três vezes para Roma para acompanhar o processo de afastamento. O cardeal possui estreita afinidade com a visão teológica defendida pelo Vaticano.