Depois de Marina Silva, Alfredo Sirkis ameaça deixar PV

Vice-presidente da legenda divulgou texto impondo condições para ficar

Depois de Marina Silva dar sinais claros de que sua permanência no PV fica cada vez mais improvável, o deputado federal Alfredo Sirkis (RJ), um de seus aliados mais próximos, também parece estar disposto a jogar a toalha. O vice-presidente do PV, até então considerado um dos poucos a acreditar em uma negociação pacífica entre os grupos rivais que travam uma guerra interna no partido, divulgou textos em seu blog, em tom de despedida, impondo condições para ficar.

Na última semana, apesar de verdes do grupo Transição Democrática afirmarem que Marina estava prestes a se desfiliar do PV, Sirkis insistia em negociar com o presidente José Luiz Penna. Ele era o único do grupo que ainda mantinha contato direto com o presidente e dizia acreditar em uma reviravolta.

Penna e seus aliados permaneciam em silêncio até então. Na sexta-feira, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a secretária de Assuntos Jurídicos do partido, Vera Motta, afirmou que Marina não faria falta se deixasse a legenda. Ela também disse que os dirigentes estariam analisando um possível processo contra a ex-presidenciável pelas críticas feitas a Penna.

Estopim – As afirmações de Vera serviram como estopim para a crise. “Não vi nenhum gesto de Penna ou de ninguém de seu grupo desautorizando-a. Tornou-se, então, a porta-voz e quem cala, consente”, destaca Sirkis em seu blog. No mesmo texto, o deputado diz ter sido dominado por um “pessimismo resignado” ao ver que a negociação estava se diluindo e que Marina era vista como estorvo pelo grupo do presidente. “Vou canalizar minhas energias para um movimento político suprapartidário que, sem ser partido, adquira capilaridade em todo o Brasil”, completa.

No domingo, Sirkis subiu o tom. Com um texto intitulado “Nossa condição de permanecer”, ele lista itens enviados para José Luiz Penna que deveriam ser considerados para um possível “acordo capaz de superar a gravíssima crise” no partido.

Entre as reivindicações, Sirkis cita pontos considerados delicados pelo grupo de Penna: reincorporar filiados expulsos sem justificativa ética; poder de voto a todos os filiados em escolhas municipais; realização de uma convenção para a escolha de um novo Conselho Nacional; prorrogação da executiva estadual de São Paulo nos mesmos critérios dos demais estados e anúncio público de que o PV lançará candidaturas próprias e não fará coligações nas eleições proporcionais das capitais e grandes cidades.

Decisão – Na opinião de aliados, a atitude do vice-presidente do partido demonstra que a debandada está mais próxima de ocorrer. “Essa é a primeira vez que o Sirkis ameaça sair. Ele colocou o gato em cima do telhado e sua opinião conta muito para a Marina”, destaca um verde ligado à ex-senadora. “Ele só divulgou essas condições num tom ‘para não dizer que não falei das flores’.”

A palavra do ex-deputado federal Fernando Gabeira (RJ) também tem peso de ouro tanto para Marina quanto para Sirkis. Ele diz estar afastado das discussões por estar se dedicando à escrita de um livro, mas se viu obrigado a entrar no assunto. “Eu até tentei ajudar na conciliação, mas não consegui. Fui me dedicar a meu lado profissional, mas a Marina me ligou ontem [domingo] dizendo que a situação para ela está muito difícil dentro do partido, porque há um grupo não só se recusando a modificar a estrutura do PV, mas querendo que ela saia”, relata.

Gabeira deve se reunir no fim da semana com Sirkis e Marina para ficar a par da crise. “Concordo com a ideia de mudança e democratização no PV, mas só vou tomar minha decisão após conversar com as pessoas com quem atuo no partido”, diz. Perguntado se, pela conversa com Marina, sentiu que ela está prestes a desistir da legenda, Gabeira indica: “Sim, senti pouca possibilidade de reversão desse quadro”.