Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Carta ao leitor: A corrupção e a democracia

O combate à corrupção não fere a democracia. Ao contrário: a democracia, associada à liberdade de imprensa, é o elemento que viabiliza o combate à corrupção

Agora, a Lava-Jato faz mal à democracia. Sim, a mais recente onda de ataques à maior investigação de corrupção na história do Brasil agora desfila o argumento de que estamos fazendo mal ao regime democrático. Não é exatamente recente, mas o coro engrossou.

Na semana passada, o atual ministro da Justiça do presidente Michel Temer, Torquato Jardim, em entrevista ao jornal Valor Econômico, disse que a Lava-Jato é uma amea­ça à democracia, na medida em que está “desfazendo a classe política”. Também na semana passada, Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, a voz mais insistente contra o que considera abusos da Lava-­Jato, afirmou em palestra no Recife que o país precisa evitar o risco de “despencar para um modelo de Estado policial”. Disse Mendes: “Expandiu-se demais a investigação, além dos limites”.

E chegou a ser aplaudido.

O que Torquato Jardim e Gilmar Mendes denunciam hoje, o PT e os petistas denunciavam ontem. Em outubro do ano passado, quando já era ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, Eugênio Aragão deu entrevista em que dizia que a Lava-Jato “faz mal à democracia brasileira” porque os poderes vinham sendo exercidos “sem limites” — o mesmo problema dos “limites” de Gilmar Mendes. Em março deste ano, o PT promoveu um seminário para discutir o impacto da Lava-Jato e concluiu, entre outras coisas, que a operação era uma ameaça à democracia, pois enxergava nas investigações uma escalada de um Estado autoritário e de exceção.

É forçoso notar que há uma sintonia, mas também há uma diferença. As autoridades que hoje denunciam os males que a Lava-Jato causa à democracia brasileira acompanham uma mudança da própria operação. Antes, concentrada em Curitiba nas mãos do juiz Sergio Moro, a Lava-Jato tinha como alvos preferenciais assessores de segundo escalão e políticos sem foro privilegiado. Agora, conforme se transfere para Brasília, porque a operação passou a mirar em autoridades ainda no exercício do cargo e, portanto, beneficiárias do foro privilegiado, os protestos permanecem iguais — mas mudam seus autores.

Só isso já mostra o oportunismo das críticas, mas mostra algo mais: é também um equívoco monumental. O combate à corrupção não fere a democracia. É o contrário: a democracia, associada à liberdade de imprensa, é o elemento que permite e viabiliza o combate à corrupção — o qual, num círculo virtuoso, fortalece o próprio regime democrático.

Nesse sentido, a voz que não mudou de lado continua sendo a do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Na semana passada, diante do bombardeio de críticas à Lava-Ja­to e das insinuações de agressões à democracia, Janot disse o seguinte: “Basta de hipocrisia. Não há mais espaço para a apatia. Ou caminhamos juntos contra essa vilania que abastarda a política ou estaremos condenados a uma eterna cidadania de segunda classe, servil e impotente contra aqueles que deveriam nos representar com lealdade”.

VEJA assina embaixo.

Compre a edição desta semana de VEJA no iOS, Android ou nas bancas. E aproveite: todas as edições de VEJA Digital por 1 mês grátis no Go Read.

Comentários

Não é mais possível comentar nessa página.

  1. SÉRGIO MORO, RODRIGO JANOT, DELTAN DALLAGNOL E A POLÍCIA FEDERAL; Honram as suas Funções a BEM do Serviço Público…Me Representam,,,,,,,,,,,,,

    Curtir

  2. Marcos MOraes

    Mino Carta voltou? MAM

    Curtir

  3. Alex Sandro Silva

    Já Not se pode confiar no MP nem no Gil mar de lamas, do STF. Confio ainda no Moro e na PF, apenas.

    Curtir

  4. Ciro Lauschner

    Janot emitindo opinião? E o conchavo com a JBS veio dos políticos? Figurinha maquiavélica! Por quê não explica o passe livre que deu ao maior corrupto do país? E o sossego que Lula e sobretudo Dilma estão.Janot é defensor do PT e está na hora de sair, para o bem do país.

    Curtir

  5. Hamilton Jgs

    Esses caras quando fazen opinião não vomitam e sim saem diária pela boca.Que nojo.

    Curtir

  6. Carlos Aurélio

    Varo Ciro, Janot ganha 40.000,00 por mês, aparentemente não tem roubado nossa grana através de propina nem se sabe nada dele a respeito de conchavos para livrar corruptos, haja vista a liberdade atual do serra, aecio, lula etc, os dois primeiros cometendo os mesmos crimes, em escala menor, que o lula cometeu. O ideal será fazermos uma limpeza geral desses todos que estão aí e aguardar por gente nova em 2018. É possível fazer com que se anule toda uma eleição por meio de 50% + 1 de votos nulos. Se conseguirmos isso, será uma bela rasteira em toda essa politicagem abjeta que vendo perpetrada por todos, sem exceção. Não devemos ter bandidos de estimação.

    Curtir

  7. Nádia Sanchez

    É com espanto que leio essa Carta ao Leitor de Veja. Parece que a revista vestiu mesmo a camisa de Rodrigo Janot, o justiceiro de Brasília. É óbvio que o combate à corrupção deve continuar, mas por meios ilícitos, afrontando as leis e a Constituição? Quais os novos parâmetros da revista, que pensei zelar pela democracia e pelo estado de direito?

    Curtir

  8. Joao Marques

    Marcos Moraes, parabéns. A impressão que tive foi a mesma. Mino Carta voltou.

    Curtir