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Carnaval 2012: Angola é tema da Vila Isabel

Por Alexandre Rodrigues

Rio – Uma comissão de frente hipnotizante e um samba-enredo animado foram as principais armas usadas pela Vila Isabel para a difícil tarefa de encerrar a primeira noite de desfiles do Rio depois da apresentação impactante da Beija-Flor. A escola de Nilópolis explorou melhor os temas africanos no enredo sobre o Maranhão, tirando o brilho do navio negreiro que a Vila apresentou como um dos carros no enredo sobre Angola, mas a garra dos componentes numa explosão de felicidade exaltando Martinho da Vila garantiu um bom espetáculo.

A manhã já estava próxima quando a Vila Isabel despontou na Sapucaí para defender o enredo “Semba de lá… Que eu sambo de cá…”, cumprindo em parte a expectativa de recriar a magia de seu mais lendário desfile. Em 1988, a escola cantou o centenário da abolição da escravatura com o enredo “Kizomba, festa da raça”, que rendeu seu primeiro campeonato e um dos sambas mais bonitos de todos os tempos.

Autor daquele enredo histórico, Martinho da Vila desfilou no último carro da escola, liderando a velha guarda e segurando uma faixa com as cores de Angola e um pandeiro com a imagem do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Consagrado pelo samba cujo refrão o consagrava como “negro rei”, Martinho mostrou que segue empunhando a bandeira do reconhecimento do valor do negro, no Brasil ou nas Américas para onde foram levados.

Diferentemente de 1988, Martinho se diz apenas um “idealizador” da história que a escola contou este ano na Sapucaí, a ligação entre o Brasil e Angola. Martinho ficou um pouco angolano ainda nos tempos duros da luta pela independência e a sangrenta guerra civil, quando foi um dos primeiros artistas brasileiros a se apresentar em Angola regularmente. E ainda trouxe ao Brasil o “canto livre” dos artistas de lá.

Embora as marcas da guerra e da escravidão estivessem presentes, a carnavalesca Rosa Magalhães seguiu a intenção de Martinho de realçar as belezas naturais e a cultura angolanas, num desfile alegre. Logo no começo, a comissão de frente arrancou aplausos com bailarinos que surpreenderam atuando como nativos e animais africanos numa savana cenográfica, abrindo caminho para o abre-alas repleto da rica fauna africana.

A comparação com Kizomba foi inevitável, já que havia muito da vivência angolana de Martinho naquele enredo, mas a Vila ofereceu à Sapucaí no fim da madrugada de segunda-feira um espetáculo diferente. Se há 24 anos a escola chegava ao sambódromo com muito material artesanal numa tentativa de sobreviver entre as grandes escolas em meio a dificuldades financeiras, o que se viu neste ano foi uma Vila mais rica. Nas fantasias, havia detalhes que chegaram à reprodução do colorido de estampas típicas de Angola.

Nos sete carros grandiosos, havia muitos rostos negros e animais em esculturas bem acabadas, mas pouca inovação. Rosa manteve-se fiel ao seu estilo barroco e usou muito material sintético, mas também reproduziu muita palha em fantasias e adereços, numa referência clara a Kizomba. “Eu acho que conseguimos recriar algo de Kizomba, mas eu quis mesmo é que ficasse bonito”, disse a carnavalesca, que acompanhou o desfile da escola pelo cantinho, recebendo cumprimentos das frisas.

A evolução era irregular, mas a escola da zona norte foi beneficiada pelo empolgante samba-enredo, que explorou a nova acústica do sambódromo arriscando com versos em contracanto e conquistou as arquibancadas. A letra ensinava o semba angolano como a origem do samba brasileiro, ajudando a explicar também como o kuduro e o funk carioca transitam tão facilmente entre os dois territórios separados pelo Atlântico nos dias de hoje.

A mistura de origens que dá o tom do carnaval do Rio seguiu forte pela passarela com a Vila Isabel. A escola do bamba branco Noel Rosa cujo nome homenageia a princesa redentora e dá sobrenome a Martinho foi o abrigo perfeito para o sucesso repetido do carisma de Sabrina Sato, a estrela de TV paulista de origem japonesa que brilhou mais uma vez à frente da bateria. Com uma fantasia que exibia leões nos ombros, teve que dividir a cena com o prefeito Eduardo Paes por muito tempo, que não saiu de perto da bateria da Vila por quase metade do desfile.

Além de 1988, a Vila só levou o troféu em 1996, com o enredo Soy loco por ti America.