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A morte do reitor: crônica de um suicídio

O tormento do reitor que, levianamente acusado de integrar um “esquema criminoso”, foi preso, banido do câmpus e derrotado pelo peso da humilhação

Na noite do domingo 1º de outubro, um antigo cliente do Macarronada Italiana, de onde se avista a deslumbrante Baía Norte de Florianópolis, entrou no restaurante à procura de Zé. O garçom José de Andrade, de 63 anos, irrompeu no salão e aproximou-se para registrar em seu bloquinho o pedido de sempre do freguês de quase quatro décadas: talharim à bolonhesa.

— Não, Zé, hoje só vim te ver e tomar um café contigo.

O garçom percebeu um timbre diferente e retrucou:

— Te conheço, Cau. Você está bem?

O FIM DA VIDA – Memória: a última foto do reitor Cancellier, ao pôr do sol à beira-mar, foi feita pelo irmão cinco dias antes do suicídio, durante um passeio em que ele tentava tirá-lo do fundo do poço (///)

Cau não estava bem, mas desconversou. Reclinou sua vasta figura de 1,90 metro e 85 quilos sobre o balcão e tomou um expresso em companhia de Zé, que percebeu outra estranheza: o silêncio incomum e prolongado do interlocutor. Dez minutos depois, Cau deu-lhe um abraço apertado, um beijo na bochecha esquerda e disse “adeus”.

Dali, Cau foi ao Shopping Beiramar, uma caixa de concreto de sete andares, subiu até o último piso e andou em torno das escadas rolantes mirando lá embaixo, como quem calcula o território. Caminhou duas, três, cinco vezes ao todo. E decidiu ir ao cinema. Assistiu a Feito na América, o mais recente filme de Tom Cruise, e voltou para casa. No dia seguinte, na última manhã de sua vida, Cau deixou seu apartamento, no bairro de Trindade, e pegou um táxi. No meio do caminho, talvez à espera de que o shopping abrisse as portas, às 10 horas, encerrou a corrida na Praça dos Namorados, onde costumava levar o filho quando pequeno. Sentou-se num banco. Uma conhecida o cumprimentou, ele perguntou as horas. Eram 9h20. Quando o shopping abriu, Cau não demorou a chegar. Cruzou com um estudante universitário, a quem saudou protocolarmente, e tomou o elevador até o 7º andar. As câmeras de segurança do shopping captaram o momento em que Cau, sem nenhuma hesitação, se postou na escada rolante, colocou as mãos no corrimão de borracha, em seguida subiu ali com os dois pés — e jogou-se no vão da escada, projetando-se no precipício. Despencou de uma altura de 37 metros, a uma velocidade de 97 quilômetros por hora. Seu corpo bateu no chão como se tivesse 458 quilos. Ele morreu na hora, às 10h38 de 2 de outubro de 2017.

O suicídio de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, aos 59 anos, o Cau, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi o desfecho trágico de dezoito dias dramáticos. Sua vida começou a desabar na manhã de 14 de setembro, quando agentes da Polícia Federal deflagraram a Operação Ouvidos Moucos, com o objetivo de apurar desvios de verbas para cursos de ensino a distância na UFSC. Às 6h30 daquela quinta-feira, o reitor ouviu tocar a campainha de seu apartamento e, enrolado em uma toalha de banho, abriu a porta para três agentes da PF, que subiram sem se fazer anunciar pelo porteiro do edifício. Os agentes traziam dois mandados — um de prisão temporária e o outro de busca e apreensão. Recolheram o tablet e o celular do reitor e conduziram-no à sede da Polícia Federal em Florianópolis, dentro de uma viatura.

Colaborou Maria Clara Vieira

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Comentários

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  1. Sergio Vasconcelos

    Graças a reitores como este a UFSC é um antro de comunistas que impediram até mesmo uma exposição com os crimes do comunismo !! Na UFSC a democracia passa ao largo, só entram comunistas como este suicida !

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  2. Alberto Lopes Lapolli

    Vai foi meu amigo é vizinho de infância.A casa do Pai de madeira sem reformas permanece aqui e é agora dos Irmãos.Tento lá com 18 me enveredar pra Política mas não aceitei porque estava abrindo o PMDB na cidade onde existia duas Arenas.Seria difícil enfrentar a Cidade e hoje o PMDB é o maior Partido do Município de Tubarão SC.Gostava do Caí e do Júlio seu Irmão ambos sempre dispostos a Ajudar.

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  3. Alberto Lopes Lapolli

    Meu amigo de infância e até hoje conservam a casa dos Pais.Cau e Júlio sempre foram prestativos.

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  4. Jorge Luiz Silva

    Pelo que se observa na reportagem da revista Veja, a Policia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal são sim, no mínimo, inconsequentes e co-responsáveis pela morte do reitor.
    Os agentes destes órgãos, tão importantes na sociedade, deveriam atuar de forma mais sóbria, técnica e analítica no exercício de suas funções.

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