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A estranha onda de coincidências no Caso Bruno

Polícia encerra buscas no sítio que foi do goleiro sem sinal de Eliza. Depois da morte de uma testemunha e dos ataques ao motorista do goleiro, jovem que colaborou com a polícia pede proteção

Há quem não acredite em coincidências. E existe também quem enxergue conexão entre fatos não necessariamente relacionados. Os dois comportamentos podem ser nocivos quando o tema em questão é um crime brutal, com uma dezena de acusados. No momento, policiais, promotores, advogados e juízes que atuam nos crimes que cercam a morte da jovem Eliza Samudio têm sobre suas cabeças um emaranhado incômodo de coincidências. O ápice da última onda de estranhezas ocorreu neste terça-feira. Num intervalo de seis dias, uma testemunha do crime foi assassinada, outra sofreu duas tentativas de homicídio, e na noite de segunda-feira chegaram à polícia novas informações sobre onde estariam os restos mortais da jovem. No início da noite, as buscas pelo corpo de Eliza no sítio que foi do goleiro Bruno foram encerradas. O mistério continua.

Por prudência, a Polícia Civil de Minas Gerais vem tratando publicamente os episódios como meras coincidências. E não acredita, por exemplo, que a morte de Eliza esteja relacionada com os dois ataques a Cleiton da Silva Gonçalves, o ex-motorista de Bruno que escapou de tiros na noite de domingo e novamente foi perseguido na segunda-feira. Cleiton, é sabido, tem amigos estranhos. E chegou a ser indiciado como mandante de um homicídio em março deste ano. Mais estranho é o seguinte: ele próprio, e seus advogados, descartam a relação dos ataques com a morte de Eliza, e preferem dizer que o motivo dos atentados é a ligação dele com o crime de março. Ou seja: quase uma confissão de ligação com um assassinato.

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Seria mais fácil acreditar no azar de Cleiton se os ataques não tivessem ocorrido dias depois de outro dos envolvidos ser assassinado. Sérgio Rosa Sales, o primo do goleiro que mais contribuiu com a polícia, foi morto com seis tiros na manhã de quarta-feira. O advogado de Sales negou saber de ameaças sofridas pelo cliente. A família do rapaz também. Dois dias depois, no entanto, os parentes admitiram ter medo de represálias e informaram, em depoimento formal à Polícia Civil, que ele recebeu intimidações por mensagem de celular.

Sales, aliás, andava com quatro celulares – um de cada operadora. E o chip pré-pago pelo qual foi recebida a ameaça já teria sido descartado. A polícia tem meios para saber qual era este número e o teor exato da mensagem. A família diz estar com medo.

É o medo também que leva o advogado Eliezer Jónatas de Almeida Lima, defensor do outro primo de Bruno, a pedir proteção para o cliente. O rapaz, hoje com 19 anos, era menor de idade em 2010, quando Eliza desapareceu. Foi ele quem descreveu à polícia a casa de Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, como local onde Eliza viveu seus últimos momentos. Detalhou também as características físicas de Bola, um ex-policial, e o que foi dito no momento da execução brutal – tudo isso sem ver o local e o suspeito. A polícia confirmou as descrições levando o jovem até a casa, em Vespasiano – cenário de uma das hipóteses mais macabras que rondam o crime, com a suspeita de que o corpo teria sido picado e dado a cães.

O rapaz foi ouvido pela Justiça também nesta terça-feira. A explicação para o depoimento, dada pela Justiça, é de que foi um procedimento de rotina, para reavaliar as medidas socioeducativas. Ou seja, mais uma coincidência.

Considerar que os envolvidos no caso estão seguros, diante desse conjunto de fatos, é subestimar o poder das coincidências. Independentemente da motivação, a morte de Sérgio Rosa Sales eliminou a possibilidade de ele vir a colaborar no julgamento dos acusados. O mesmo vale para Cleiton e outros acusados com menor participação no caso. O trio principal – Bruno, Macarrão e Bola – responde por homicídio, ocultação de cadáver e uma série de outros crimes. As figuras secundárias pegariam penas bem mais brandas, e, se colaborassem, poderiam ter o castigo bastante atenuado.

Entenda o caso: