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1,5 milhão de brasileiros fumam maconha diariamente

Por Bruno Deiro

São Paulo – Pouco mais de 1,5 milhão de brasileiros usam maconha diariamente, revela o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado ontem pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo, concluído em março, mostra que 7% da população adulta, o equivalente a 8 milhões de pessoas, já experimentaram a substância.

Segundo a psiquiatra Clarice Sandi Madruga, coordenadora do levantamento, a frequência do uso não está relacionada diretamente à dependência. “Há pessoas que fumam todos os dias e têm o cotidiano menos afetado pela droga que outras que consomem com menos frequência, mas têm maior vulnerabilidade genética”, diz. “Mesmo fumando de forma menos regular, essas pessoas tendem a desenvolver dependência e ter sua vida pessoal mais impactada.”

O estudante de História Henrique Lopes, de 22 anos, fumou maconha diariamente e afirma não ter dito dificuldade para reduzir o consumo. “Sentia que ela estimulava a criação na minha área de trabalho e me ajudava a socializar, pois fumava com amigos. E isso não mudava o meu ritmo de vida.” Hoje, ele usa a substância a cada 15 dias. “É um hábito de uma parcela significativa da população de todas as classes, não apenas de áreas mais pobres.”

De acordo com o estudo – que ouviu 4.607 pessoas com mais de 14 anos em 149 municípios brasileiros -, o Brasil não está entre os países com maiores índices de uso de maconha no mundo. No ano passado, 3% da população adulta brasileira utilizou a substância ao menos uma vez, enquanto que nos países da Europa o porcentual foi de cerca de 5%. Entre os países onde foi feito levantamento semelhante, o Canadá teve o maior índice: 14%.

Adolescentes

Para os responsáveis pelo estudo, um dos aspectos mais relevantes é a incidência do uso de maconha entre os adolescentes. O levantamento mostra que 62% das pessoas que experimentaram pela primeira vez tinham menos de 18 anos.

“É um ato que pode ter consequências no futuro, aumentando o número de patologias psiquiátricas e a possibilidade de curiosidade sobre outras drogas”, argumenta Clarice. “Até os 25 anos, qualquer droga psicotrópica, e até mesmo o álcool, é nociva para o desenvolvimento e causa mudanças químicas permanentes no cérebro.”

Segundo a psiquiatra, o estudo revelou que 17% dos adolescentes que admitiram o uso conseguiram maconha dentro da própria escola. O número de adolescentes usuários cresceu desde o último levantamento, realizado em 2006. Há seis anos, havia menos de um adolescente para cada adulto que fazia uso de maconha; neste ano, o índice subiu para 1,4. A pesquisa, no entanto, não era tão abrangente como a realizada em 2011.

Legalização

Mesmo com uma quantidade considerada relevante de usuários no País, 75% do total de entrevistados se mostraram contrários à legalização do consumo da substância. Em uma projeção nacional, significariam 111 milhões de brasileiros contrários, contra 16,3 milhões (11%) favoráveis à liberação.

Para o antropólogo Rafael Gil Medeiros, que foi um dos organizadores da Marcha da Maconha em Porto Alegre, a divulgação de estudos ajudar a dar visibilidade ao debate sobre a legalização da maconha no Brasil. “É um numero que causa alarde. Mas o mais interessante não é ser contra ou a favor nessa questão, mas discutir as políticas públicas sobre o uso de drogas. Atualmente não existe uma discussão sobre o assunto”, afirma Medeiros. “Eu, por exemplo, não concordo com muitas das propostas para a legalização. É algo a ser discutido.” As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.