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Reinaldo Azevedo

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Domingo, Março 18, 2007

O Avarento
Há muito, muito tempo, deixei de ir ao teatro. Há uma coincidência interessante: quando era moleque, mocinho, militante de esquerda, quase dava plantão. Falsificava carteirinha de escola para entrar nos espetáculos a que não podia assistir. Cheguei a flertar com o teatro amador etc e tal. Depois me desencantei. À medida que ia me livrando dos preconceitos da esquerda, também fui me desinteressando da coisa. Isso talvez valesse um texto, mas de outra natureza.

Fui neste sábado ver O Avarento, de Molière, dirigido por Felipe Hirsch, que tem o grande Paulo Autran no papel do avarento Harpagon. Um casal de amigos que não é de São Paulo estava aqui, e resolvemos, eu e dona Reinalda, acompanhá-los, já que tinham reservado os ingressos. Depois de uns 20 minutos, eu só torcia para que o restaurante escolhido para depois do espetáculo não me decepcionasse. Não decepcionou. E a conversa foi muito agradável. Que bom!

Acho que não agüento mais teatro.

O maior encenador brasileiro, talvez eu surpreenda muita gente, é José Celso Martinez Corrêa. Sim, o próprio. Não fossem as suas obsessões, incluindo as (homo)sexuais, que são um porre, seria um exemplo — se a obsessão fosse heterossexual, chatearia do mesmo jeito. Obsessões são chatas. Zé Celso rompeu com a coisa que mais me irrita em teatro: aquela fala impostada, pecado em que o veterano Autran, 85 anos, não incorre. Mas todos os outros atores da peça, fraquíssimos — Karen Rodrigues está afastada —, sim. Salvam-se a cenografia, de Daniela Thomas, e a iluminação. Sim, Autran vai bem na maioria das vezes. Mas é um espetáculo fraco de um homem só.

Hirsch adaptou Molière ao público acostumado com humorísticos de televisão. Não tenho nada contra a TV. Ninguém me pegará naquele papo careta de antropólogo sobre os males que ela provoca na formação cultural do Brasil e das nossas crianças. Quem tem de educar as nossas crianças é a escola, não a Globo. Conversa mole. A televisão faz mais bem do que mal às pessoas. Civiliza. Com ela, o país é menos selvagem.

Meu ponto é outro: certos produtos culturais não são mesmo para a maioria. O Avarento está em cartaz, parece, desde agosto do ano passado. Não existe tanta gente assim interessada em Molière em São Paulo. Por isso, o Molière de Hirsch lembra, às vezes, A Praça é Nossa (nunca vi, mas deve lembrar). Não é Molière.

O autor é uma referência obrigatória, por conta de suas farsas, a quem, como eu, escreve sobre política. As sutilezas e gags do teto original desaparecem numa coleção impressionante de facilidades do diretor, que também adaptou o texto. Por qualquer razão inexplicável, o filho do avarento, que, na peça abusa de uma linguagem excessivamente melosa quando fala do amor, é caracterizado, por exemplo, como uma bichona afetada, o que arranca risos da platéia — e como a platéia de teatro ri fácil, não? Ela só não ri tanto quanto tosse, mas ri muito — ao dar dois ou três passos largos. Por quê? Pra quê? Não entendi.

A história de O Avarento é também a história de uma terrível solidão, que não mostra as caras. A lei do menor esforço — do espectador — torna-se o grande elemento redutor do espetáculo. Não fiz pesquisa, é claro, mas intuo: boa parte deve ter deixado o teatro achando que, no fim das contas, tudo acabou. O velhote termina agarrado a seu dinheiro. Não era o que ele queria? Talvez não...

O que não fica claro, nem de longe, nesta montagem de O Avarento? Que Harpagon é um pobre diabo. Um dado da montagem colabora para tanto — ao menos na versão que vi. É tal a diferença de talentos entre Autran e seus colegas de cena, que não resta ao espectador outra coisa que não se identificar com Harpagon. Ou com Autran.

Na montagem que está no Cultura Artística, Harpagon venceu. No texto de Molière, ele é um perdedor.
Por Reinaldo Azevedo | 5:31 AM

Comentários:

Anonymous william
Pois é. Quando eu assisti, também me perguntava do que as pessoas tanto riam. Umas piadinhas tão previsíveis... Até me perguntei se a culpa era do meu mau-humor. Sim, eu sou mau-humorado, mas pelo menos acompanhado do Tio Rei.

E fora o Autran, os atores não prestavam mesmo.
9:38 AM  

Anonymous Anônimo
Oh, Sr. Reinaldo,

o sr. acha que o Brasil é menos selvagem hoje do que pouco antes de aparecer a TV por aqui?

Essa é uma pergunta básica, empírica.

Grato pela atenção.

Ataliba Massaranduba
10:17 AM  

Anonymous Anônimo
Oi Reinaldo,

Você poderia escrever um texto sobre São Paulo? Mas, por favor, elogiando São Paulo?
Eu sou carioca e por motivos profissionais talvez tenha que mudar para São Paulo. Estou começando a ficar deprimido. Tenho certeza que um texto seu vai mudar meu estado de ânimo em relação a maior cidade do Hemisfério Sul.
11:15 AM  

Anonymous Mauro
Isso me lembra um post do Alexandre Soares Silva:

http://soaressilva.wunderblogs.com/archives/003720.html
11:45 AM  

Anonymous Anônimo
O seu comentário sobre essa encenação de O Avarento vale, no sentido de ser aplicável, à encenação de O Doente Imaginário a que assisti aqui em Brasília no ano passado. Em cena também um grande: Tonico Pereira. Imprimir aos textos de Molière a dinâmica dos programas humorísticos da TV produz o riso fácil. O resultado é que o ingresso do teatro passa a ser assim demasiadamente caro: se assistiremos a um humorístico igual ao de A Zorra Total (e inferior a um A Grande Família), ir ao teatro para quê? Por certo, a adaptação de um texto e o trabalho de direção representam desafio sempre. Mas os nossos ainda estão a nos dever algo de mais satisfatório em relação a esse autor do século XVII.
12:24 PM  

Anonymous edson luchesi
Será que a peça de teatro, como a ópera, não faz mais sentido? Será que o cinema atual, tão rico em efeitos especiais tornaram o teatro uma coisa primária?, talves primitiva?
9:49 PM  

Blogger Horse
Pô, e eu achando que era o único que me irritava com o ar de Quico encenando "Mamãe querida" na turma de Chaves, presente em tudo quanto é ator de ribalta hoje em dia...

(abrindo bem a boca) "MAMÃE QUERIDA, MEU CORAÇÃO POR TI BATE COMO UM CAROÇO DE ABACATE"...

E como riem a toa... hehehe... Tio Rei, quando agente acha que está sozinho, vêm o senhor, educadamente nos fazer companhia.

Dia desses fui no teatro, a turma ficou me chamando de azedo. Mas uma peça inteira levada com humor sexual do zorra total é a hora da morte...

A única diferença é que cá em BH, há menos variedade e quantidade do que aí. As fórmulas se repetem.

Bração de Minas, Gabriel de Azevedo.
10:59 PM  

Blogger Benedictus Blackwhite
As pessoas tossem mais do que riem porque há mais ácaros do que talento no teatro. E riem porque, se não rirem, quem está do lado pode pensar que não entenderam a cena. Também na platéia há os que realizam a "deixa". Um dia ainda faço uma antropologia das platéias de teatro.
12:36 AM  

Blogger Marcos Diniz Ribeiro
Pois é. O trouxa bobo aqui foi ver a peça e quase dormiu. E ficou com a impressão de que o avarento, de fato, conseguiu o que queria depois de um final novelesco. Eu pensei: "Molière é tão bobo assim?" Entre o autor, os atores, o diretor e a platéia, só agora entendi que o único trouxa não é o Molière.
11:25 AM  

Blogger Bernardo Zirpoli
É o teatro para as massas. Deve existir, mas tem coisas que não cabem.

Aliás, eu tusso também em teatros, cinemas e etc, mas tento ser o mais discreto possível. Problemas na garganta são involuntários.
3:37 PM  

Blogger Blogildo
Teatro é caro! Daí as tosses.

Eu também estou desanimado com o Teatro. Prefiro ler as peças e escolher o meu elenco entre atores nacionais e internacioniais.

Fica bem melhor e mais barato!
4:27 PM  

Blogger Orfeu Lima
Não gosto de lugares fechados, abafados e com cheiro esquisito.

Mas me parece que hoje em dia existem alguns artistas renomados que estão levando uma pá de gente nas costas.

Acho que está peça Irma Vapi deve ser muito boa, pois acho estes dois atores sensacionais.

De resto passaria mais uns 300 anos sem pisar em um teatro para ver uma peça teatral.
1:10 AM  

Anonymous osvaldo pavanelli
Concordo com seus comentários. Também vi a peça, e o q mais me afligiu foi a hipótese sempre presente de Autran cair no próximo passo devido á sua idade provecta. Ele parece uma folha ao sabor do vento. Creio q ele já deveria ter parado, mesmo sendo um ator maravilhoso.
8:17 AM  

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