Robert Musil em O Homem sem Qualidades
Assim não, Mônica Bergamo!
Na Folha de amanhã, domingo, Mônica Bergamo assina uma reportagem cujo título é “Êxito de Alckmin azeda plano do tucanato”. Vocês lerão. Segundo o texto, havia um acordo firmado entre PSDB e PT, e a possibilidade de Alckmin vencer a disputa atrapalha tudo. Em que consistia esse acordo? Simples: Lula venceria agora, em 2006, e, em 2010, Aécio Neves ou José Serra levaria a Presidência da República, com o provável apoio do PT. Para que a teoria conspiratória se sustente, uma primeira precondição se faz necessária:
- Alckmin foi feito candidato do PSDB, mas, na verdade, era só um bobalhão escolhido pela cúpula para perder. Já que seria impossível ganhar de Lula, então decidiram não queimar a ficha de Serra.
Ora, o juízo despreza o fato elementar de que Alckmin impôs a sua candidatura e ponto final. O preço para que não fosse candidato seria a derrota numa convenção. E os tucanos certamente marchariam rachados para a disputa. Imaginem um Serra deixando a Prefeitura de São Paulo para ser o candidato de um partido dividido. Mônica Bergamo despreza o fato óbvio de que não foi a cúpula do tucanato que bateu no ombro de Alckmin e disse: “Vá lá, você pode”. Foi ele quem disse: “Vou porque posso”.
Mas vamos dar seqüência à coisa. Como já estava tudo acertado para Lula ganhar agora — lembrem-se: Mônica fala de “um acordo informal que estava sendo firmado entre lideranças do PSDB e o presidente Lula” —, para celebrá-lo e lhe dar substância, os petistas fazem o quê? Ora, armam a trama do dossiê para destruir a candidatura Serra. Entenderam? Não faz todo sentido???
É impressionante. A teoria não pára de pé cinco minutos. Todos sabem que o dossiê nem buscava alvejar Alckmin. A idéia era transformar Serra no chefe dos sanguessugas, com a ajuda da revista IstoÉ. Participaram da tramóia todos os homens do presidente. Não sei se vocês notam a sutileza: SEGUNDO A VERSÃO DE MÔNICA BÉRGAMO, O PRESIDENTE LULA NÃO SABIA DE NADA, CERTO?
Sim, se soubesse, teria impedido. Tanto que ela reproduz supostas aspas de Lula, contra, aliás, o que recomenda o Manual da Folha: “As pessoas vêm me falar de Serra e de Aécio. Quem disse que um deles não pode estar no nosso palanque em 2010. Ou que eu não posso estar no palanque de um deles?” Lula disse isso à jornalista? Não! Há o nome de quem disse isso à jornalista? Também não. E como se justificam essas aspas abonadoras da veracidade da frase? Como é que Mônica junta o dossiê nesse sopão de suposições sem que a receita desande?
Eu já havia desancado aqui um historinha que Mônica Bergamo havia narrado em sua coluna social. Segundo ela, um deputado petista, muito bem votado, num jantar com empresários, relatou o tal pacto, que agora foi rompido. O autor do relato tem o mesmo nome do dono das aspas; nenhum. Ela requenta a informação, publica de novo. Quando Mônica Bergamo quer provar que está certa, recorre às matérias com fontes secretas de... Mônica Bergamo.
É claro que ela não vai querer elucidar o enigma neste espaço. Se quiser, está aberto. Mas não precisa dele. Tem seu jornal. Tem sua coluna social. Vamos ver:
1) Até explodir o caso do dossiê, Lula vencia a eleição no primeiro turno;
2) Se vencia a eleição no primeiro turno, então aquele suposto pacto entre PT e PSDB estava valendo;
3) Se estava valendo, por que o PT armou a história do dossiê?:
4) E por que o dossiê era contra Serra, não contra Alckmin?;
5) O PT fez algumas dessas perguntas, inicialmente, para tentar provar que não tinha motivos para se meter na sujeira. Mas tinha, claro: a idéia era liquidar aquele que era candidato a liderar a oposição: Serra;
6) Mas o combinado não era justamente fazer um pacto Serra-Lula e/ou Serra-Aécio?
Mônica se abraçou à sua tese conspiratória. Para quem entra nessa, tanto os indícios como a sua inexistência são provas cabais da conspiração. Ora, se Aécio e Serra não querem Alckmin eleito, o normal é que fizessem, agora, corpo mole, certo? Certo. Ah, mas a jornalista é muito mais esperta. Provando que a conspiração sempre existiu, ela escreve: “O mais irônico é que tanto Serra quanto Aécio , pressionados por Alckmin e sobretudo pelos eleitores tucanos que querem Lula fora do Planalto, devem se engajar agora na campanha”. Entenderam? Tanto uma coisa como o seu exato oposto provam a mesma teoria.
Sempre falo tudo
Você sabe, né, leitor? Sempre falo tudo. Sei bem como surgem certas matérias. Bati o olho nesta da Folha e estou vendo aí o trabalho, nada limpo, de certos assessores de Alckmin, que, a exemplo do “meninos” de Lula, querem prestar serviços ao chefe. Mais uma vez, um bando de idiotas, para se fazer passar por influente junto a jornalistas, exerce suas rivalidades ridículas contra a questão principal: tirar Lula do Planalto.
Mas não é só: a exemplo do tal “deputado petista de muitos votos”, há aí o PT trabalhando firmemente. A “reportagem” de Mônica Bergamo isenta Lula de qualquer responsabilidade pelo dossiê. Na verdade, ele teria existido contra os interesses estratégicos do próprio presidente. Mais: ainda agora, como Lula não quer Serra engajado na campanha de Alckmin, como aposta no seu corpo mole, faz o quê? Liga para Aécio e sugere que ele tire férias em Paris e desce o sarrafo, em Caruaru, no governador eleito de São Paulo.
Leiam direito jornais, blogs e colunas. Há um grupo de jornalistas que, com Mônica, repete as sandices que vão acima. É a mesma matéria e a mesma tese. Não porque se sustentem em fatos. Mas porque seus autores pertencem à mesma, como direi? grei. A melhor forma de impedir a eleição de Alckmin é deixar essa besteira prosperar. Não que os jornalistas tenham de torcer pela vitória do tucano (eu torço, mas conto isso; o problema está nos covardes que torcem pela de Lula e se fingem de neutros). Basta que torçam pela verdade.
Pois eu sustento e dou fé: a versão de Mônica Bergamo e amigos de que havia um pacto entre PSDB e PT é mentirosa. É uma versão petista, elaborada para livrar a cara de Lula no caso do dossiê. E, infelizmente, alimentada por alguns imbecis que se acreditam a serviço de Alckmin. E acabam se esforçando para eleger... Lula.
PSDB, a privatização da Petrobras, o terrorismo dos petistas, mussarela, presunto e carne de porco
Esse discurso faz parte da militância delinqüente do PT. Como já escrevi, o partido perdeu a vergonha de não ter vergonha. A onda começou por causa de uma entrevista concedida pelo economista Luiz Carlos Mendonça de Barros à revista Exame em junho de 2005. Indagado sobre privatizações, Mendonça fez uma reflexão, nada além disso, sobre o caso da Petrobras. Observou que foi uma decisão estrategicamente correta a empresa investir na extração de petróleo em alto mar, mesmo sendo uma operação antieconômica, porque isso possibilitou ao país chegar ao estágio atual. Não se trata exatamente de autonomia — essa conversa é um pouco mais complexa —, mas é claro que o país não está mais sujeito a choques de petróleo como antes.
Ora, à época, o capital privado não encararia a tarefa. Mundo afora, essas decisões são tomadas por empresas estatais. Hoje, dada a situação de mercado, desapareceram as razões para que a Petrobras seja uma estatal. Tanto a exploração do petróleo em terra como a em águas profundas tornaram-se economicamente viáveis. Assim, as razões que obrigavam a Petrobras a ser estatal desapareceram. Uma coisa é Mendonça achar que há condições técnicas para a Petrobras ser privatizada, outra é apontar as condições políticas. Uma coisa é ele se dizer favorável à privatização; outra, bem diferente, é isso ser um plano do PSDB. Podem espalhar: INFELIZMENTE, ISSO NÃO FAZ PARTE DO PROGRAMA DE NENHUM PARTIDO POLÍTICO. TAMPOUCO DO PSDB.
Mendonça é meu amigo pessoal. Trabalhei com ele durante quatro anos. Temos divergências. Uma delas é esta: eu quero vender a Petrobrás, o Banco do Brasil e qualquer escolinha de jardim da infância. Ele pode até ser favorável em tese, mas não identifica condições para tanto. Todos os que disseram que a revista Primeira Leitura ficou mais “conservadora” depois que ele deixou de ser dono (ou mais “direitista”, como dizem os petistas, na sua lógica perturbada) estão certos. Sempre estive à direita dos meus patrões — e, com freqüência, dos meus amigos, hehe. É uma sina.
Infelizmente, se Alckmin indagasse Luiz Carlos a respeito da privatização da Petrobras — não indaga porque isso não está na pauta de Alckmin ou do PSDB —, seria desaconselhado a tanto. Porque, obviamente, não existe debate suficiente na sociedade para isso. E nenhum partido político tem coragem de defender essa medida.
Os petistas são ruins de lógica. Confundem tudo. Se você disser a elas que um avião avariado cai por causa da Lei da Gravidade, eles logo dirão que você é um defensor da queda de aviões e que, entre vidas humanas e a Física, escolheu a física. Se você disser a um petista que a mussarela é feita de leite, e o presunto, de carne de porco, eles indagarão: “Queijo prato é mussarela?” Você responderá, obviamente, que não é. E eles concluirão: “Então é feito de carne de porco”.
Eu sei que é chato. Mas espalhem: É MENTIRA QUE O PSDB, ALCKMIN OU QUALQUER OUTRO TUCANO ESTEJAM PENSANDO EM PRIVATIZAR A PETROBRÁS SE CHEGAREM AO PODER. E podem repetir assim mesmo: “Infelizmente, é mentira”. Essas empresas continuarão estatais qualquer seja o governo. A meu juízo, continuarão privatizadas pelo PT, qualquer que seja o governo também. E a financiar filmes vagabundos, que garantem a boa vida dos cineastas, mesmo sem bilheteria.
Também nesse caso, quem paga a conta do estatismo é você, seu trouxa.
O rastro do dinheiro do dossiê fajuto
Veja 10 - Meu artigo desta semana: "Governante bom é governante chato"
Getúlio Vargas: na carta-testamento e da carta de despedida, a miséria da razãoVeja 9 - Diogo: "O lulismo está indo para a cadeia. Na Itália"
Veja 8 - Aécio: "Com sinceridade, não tenho planos de ser presidente da República"
"O SENHOR FOI REELEITO COM 77% DOS VOTOS EM MINAS GERAIS, MAS GERALDO ALCKMIN, SEU CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, TEVE SÓ 40% DOS VOTOS DOS MINEIROS. O SENHOR NÃO CONSEGUIU TRANSFERIR VOTOS?
O resultado de Geraldo em Minas foi excepcional. Há cinqüenta dias, a distância dele para Lula era de 50 pontos porcentuais. Com o trabalho intenso que fizemos na campanha, a diferença nas urnas caiu para 10 pontos porcentuais. (...)
A ELEIÇÃO DE ALCKMIN ATRAPALHARIA SEUS PLANOS PRESIDENCIAIS PARA 2010. POR ISSO, DIZ-SE QUE, PARA EMPENHAR-SE NA CAMPANHA, O SENHOR TERIA NEGOCIADO COM ELE O FIM DA REELEIÇÃO. É FATO?
Geraldo não precisa disso, e isso seria subestimar o meu compromisso. Como Geraldo, acho a reeleição ruim para o país. Pode ser que alguém que tenha compromisso com as instituições democráticas aja dentro de determinado limite, mas amanhã pode haver alguém que ultrapasse o limite. Sou defensor de mandato de cinco anos sem reeleição. (...)
O SENHOR É CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM 2010?
Temos de superar essa visão, dos políticos e dos jornalistas, de que quem está na política é obrigado a ter um projeto maior. Digo, com sinceridade, que não tenho. (...)"
Assinante lê íntegra aqui. Para assinar a revista, clique aqui
Veja 7 - A volta da turma do mal
Veja 6 - Que Congresso vem aí?
Veja 5 - O partido dos grotões
Veja 4 - Os tucanos e a economia
- Miséria
- Energia
- Macroeconomia
- Juros
- Impostos
- Inflação
- Emprego
- Reforma agrária
- Agricultura familiar
- Salário mínimo
Clique aqui para ler mais. Para assinar a revista, clique aqui
Veja 3 - As duas faces de Lula
Montagem sobre ilustrações de Orlando e fotos de Mônica Zarattini/AE e Marcello Casal Jr/ABRAs fotos do dinheiro
ANTES
DEPOIS
ANTES
DEPOIS
Veja 2 - Pânico no PT
Lula: com medo do futuro, volta a ser "paz e amor" (Paulo Whitaker/Reuters)Por Otávio Cabral: “A festa estava pronta. No comitê reeleitoral do presidente Lula em Brasília, os organizadores prepararam a comemoração da vitória – e não esqueceram de encomendar cinco caixas de champanhe. O presidente, depois de votar em São Bernardo do Campo, tomou o avião para Brasília e instalou-se no Palácio da Alvorada, onde recebeu aliados e ocupou-se até mesmo em estudar os principais pontos que deveria abordar no "discurso da vitória". Ainda que as pesquisas realizadas na véspera e no dia da eleição já não oferecessem segurança sobre o resultado final, Lula estava certo de que venceria a eleição no primeiro turno. Na noite de domingo, quando ficou claro que haveria mesmo uma segunda votação, o presidente recebeu o telefonema de um interlocutor e manifestou sua perplexidade. "Por essa eu não esperava. Tinha certeza de que liquidava tudo hoje", disse o presidente, conforme o relato do autor do telefonema. No dia seguinte, a primeira mudança provocada pelo segundo turno estava materializada: o presidente Lula, que quase ignorou sua agenda presidencial, fora engolido pelo candidato Lula – e o governo, com dezessete ministros arregaçando as mangas, fora engolido pela campanha. Em sua primeira aparição pública depois do resultado oficial, o presidente já dera lugar ao candidato. Concedeu sua segunda entrevista coletiva em 45 meses de governo. Na entrevista, mostrou-se gentil e afável, voltando subitamente a vestir o figurino do "Lulinha paz e amor", que lhe rendeu a vitória em 2002. Com um semblante amistoso e gestos de humildade, Lula elogiou o povo brasileiro pelo "comportamento exemplar" nas eleições e, sem traço da arrogância de dias antes, quando chegou a garantir para a platéia num comício que estava eleito no primeiro turno, disse que não venceu porque lhe faltaram votos”. Assinante da revista clica aqui. Para assinar a revista, clique aqui
Veja 1 - Como Alckmin chegou ao segundo turno

PFL ameaça Roseana com expulsão e perda da candidatura
Alckmin vai a Minas: em questão, a postura ambígua de Aécio Neves
FHC: Lula tem características de caudilho
Mais Datafolha
A PF vai chamar Berzoini para depor
Alckmin: desespero leva Lula a mentir
Cabral 19 pontos à frente de Frossard
No Paraná, empate entre Requião e Osmar Dias
Na Folha deste sábado: “Um empate em 45% das intenções de voto para cada candidato foi o que detectou a primeira pesquisa Datafolha na disputa de segundo turno ao governo do Paraná, entre o governador Roberto Requião (PMDB) e o senador Osmar Dias (PDT). Considerando-se os votos válidos, os dois também largam em igualdade numérica de condições: 50% para um e para outro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Levando-se em conta que na eleição de 1º de outubro Requião fez 42,81% dos votos e Osmar, 38,6%, é possível dizer que o pedetista atraiu o maior número de eleitores de outros candidatos até agora. A pesquisa foi respondida por 1.683 eleitores de 69 cidades, ontem e anteontem. Dos entrevistados, 7% disseram não saber em quem dos dois votar e 3% afirmaram que votarão em branco ou anularão o voto. O governador -que tenta a reeleição licenciado do cargo- chegou à eleição de domingo em queda nas pesquisas, depois de os índices lhe conferirem percentual suficiente para ganhar no primeiro turno. Ele mantém suspense sobre apoiar ou não um dos candidatos a presidente, mas namora com o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Osmar Dias já anunciou apoio a Alckmin.” Clique aqui para ler mais. Para sua informação: no Paraná, Alckmin obteve 53,01% dos votos, contra 37,9% de Lula.
Sexta-feira, Outubro 06, 2006
Sobre os números do Datafolha, possibilidades, dificuldades e áreas preferenciais
(...)
O Datafolha também apurou que entre os eleitores que declaram ter votado em Heloísa Helena (PSOL) no primeiro turno, 48% dizem que pretendem votar em Alckmin no próximo dia 29. Lula é o preferido de 32% dos eleitores da candidata do PSOL, que não vai apoiar nenhum candidato no 2º turno.
Isso demonstra que o eleitorado de Heloísa Helena, na grande maioria, não é de esquerda. Ou fecharia com Lula. Ela obteve o seu melhor resultado no Rio, 17,13%. E tinha o apoio explícito de Garotinho. Não sei se o Datafolha tem este cruzamento, mas seria interessante saber: destes 48% de eleitores da senadora que migraram para Alckmin, quanto são do Rio? Estou dizendo que, do ponto de vista puramente matemático, o apoio de Garotinho pode ser relevante, sim.
Já os eleitores de Cristovam Buarque (PDT), estão divididos: 39% dizem que vão votar no petista à reeleição e percentual idêntico afirma que vai votar no tucano.
Reparem que o eleitorado de Cristovam já é um pouco mais ideológico, um pouco mais à esquerda.
Entre os eleitores do Nordeste, Lula tem 67% das intenções de voto, 39 pontos à frente de Geraldo Alckmin, que obtém 28%. Nas regiões Norte e Centro-Oeste o resultado é similar. O candidato petista tem 50% e o tucano 44%.
Bem, é a região, junto com Minas e com o Rio, que está elegendo Lula. A diferença é brutal. E, sinceramente, não acho que haja muito a fazer, com algumas exceções. O único que chegou a empatar com Lula no Nordeste foi Serra — chegou até a ficar na frente. Há um bom trabalho a fazer na Bahia e no Ceará.
No Sul, Alckmin está 24 pontos à frente de Lula (57% a 33%). Já no Sudeste ocorre um empate dentro da margem de erro --47% para o peessedebista, 45% o petista.
Eu acho que Lula terá sempre um terço do eleitorado pelo menos. Assim, o Sul, para Alckmin, está perto do teto. Pode-se ganhar alguma coisa, mas pouco. O que conta é o empate técnico da Região Sudeste. São Paulo está majoritariamente com Alckmin (54,2% a 36,77% no primeiro turno), mas o desempenho no Rio (49,18% a 28,86% para Lula) é trágico e, em Minas, é ruim (50,8% a 40,62% para o Apedeuta).
A pesquisa foi encomendada pela Folha e pela TV Globo, e divulgada pelo "Jornal Nacional". A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 5.811 eleitores em 368 cidades entre ontem e hoje. A pesquisa foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Tendo como referência os 95.996.733 de votos válidos no primeiro turno, Lula, com 54%, teria 51.838.235, e Alckmin, 44.158.497. A se repetirem as abstenções e brancos, a diferença entre eles seria de 7.679.737. Vá lá: arredondemos para 8 milhões. Alckmin precisa pegar para si 4 milhões de votos que estão com Lula. As sobras de Bahia, São Paulo e Minas podem dar esperanças. E também é preciso ganhar votos no Rio. O que chamo de "sobras"? A diferença, nesses Estados, entre os votos dados a Lula e a adversários do PT para o governo do Estado. Rememorando:
Bahia
Lula – 4.293.200
Alckmin – 1.676.484
Paulo Souto – 2.638.215
Sobra: 961.731
São Paulo
Lula – 8.091.867
Alckmin – 11.927.802
Serra – 12.381.038
Sobra – 453.236
Minas
Lula – 5.192.439
Alckmin – 4.151.507
Aécio – 7.482.809
Sobra – 3.331.302
Cito os casos mais evidentes. Mas é claro que há outros Estados em que adversários do PT ao governo conseguiram somas bem mais expressivas do que Alckmin. Vejam o caso do Ceará:
Lula – 2.852.895
Alckmin – 912.726
Lúcio Alcântara (PSDB) – 1.309.277
Sobra – 396.551
Só nesses quatro Estados, temos uma “sobra”, como chamo, de 5.148.820. Se vocês fizerem essa conta no Brasil inteiro, verão que a tarefa de tirar 4 milhões de votos de Lula (na verdade, menos) é absolutamente factível. Lúcio Alcântara, no Ceará, e ACM, na Bahia, só têm a ganhar — uma vez que já perderam tudo mesmo. Aécio Neves, com a eleição assegurada, pode entrar fundo se quiser. E até em São Paulo é possível ganhar alguma coisa. É difícil? É claro que é. Mas a esperança, nesse caso, não tem nada de vã ou de estúpida.
Leitores
"O comment dependerá de sua humildade. O signatário não é "espanador da língua portuguesa", mas para evitar incorrer na ignorância de muitos, urge corrigir um erro interessante. Veja o seguinte: ...chefe inconteste de um partido... Está falho. Conteste, o que está de acordo, confimado. Inconteste (adjetivo de uso equivocado), é incrível, é o que pode ser contestado. Não é incontestável. Veja como a "Flor do Lácio" tem suas sutilezas. Para dizer que é incontestável (adjetivo), tem que usar conteste. Exemplos: Fulano tem conduta inconteste (é duvidosa). Fulano tem conduta conteste (é adjetivo; eis o acerto, significa que é incontestável). Entenda-se: incontestável é algo certo, induvidoso, incontroverso e diversamente, inconteste é algo discorde, que não pode ser abonado. Seja desculpado, mas esse vício pede eliminação, o seu texto está acima da mediocridade parcial. Que língua difícil! "
Agora o Houaiss:
Conteste
■ adjetivo de dois gêneros
1 cujo depoimento ou afirmação é igual a de outrem; concorde
Ex.:
2 que contém as mesmas afirmações ou dados de outro
Ex.:
Inconteste
Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
1 que não se contestou; que não se põe em dúvida ou em questão; incontestado
2 que não é conteste, que não está em harmonia ou de acordo com outras afirmações, testemunhos ou atestações
Amiguinho, um conselho: a, como vou dizer?, falta de humildade requer certas precondições. Esse tonzinho arrogante, com laivos de gracejos e ironia, não pode cair na esparrela em que você caiu. Deixe de ser abestado
CASO DOIS
Usei o verbo “implicar” (no sentido de “acarretar”, “originar”) como transitivo direto: “Cada escolha minha implica um imperativo moral”. E alguém me manda uma mensagem: “O verbo implicar é transitivo direto, Reinaldo”. Eu sei. E “um” é artigo indefinido, não preposição. Logo...
CASO TRÊS
Escrevi: “Só há dois grupos que têm tanto dinheiro vivo: o narcotráfico, o PCC, e a máfia”. Estão me sacaneando: "Falou dois e citou três". Usei PCC como sinônimo de “narcotráfico”, já que ele tomou conta do setor.
Lula: um discurso delinqüente
Bingo!
Corrijo a pergunta: oito pontos?
Educação moral, cívica e sentimental
“Uma pergunta objetiva: você é gay?”
Não é o máximo? Sou contra a pena de morte, por exemplo, pouco importa o crime que a pessoa tenha cometido. Uma pergunta objetiva: “Seria eu um assassino?” Sou contra a perseguição, muitas vezes de caráter moral, de que os fumantes estão sendo vítimas. Uma pergunta objetiva: “Seria eu um defensor do câncer?”. Acho que as pessoas não devem consumir muito bacon porque faz mal à saúde, mas sou contra a proibição do bacon. Uma pergunta objetiva: “Você defende o colesterol?” Acho que os presídios devem oferecer condições dignas de vida aos presos, sem perder seu caráter punitivo. Uma pergunta objetiva: “Você é favorável a bandido?”
Uma constatação objetiva: o obscurantismo não tem ideologia.
Não sou o Caetano Veloso...
- Drogas;
- Adoção de crianças por casais homossexuais;
- Dieta alimentar;
- Aborto;
- Pena de morte;
- Piscina, gasolina, margarina...
Não fujo de nada, não. Só acho que temos prioridades. Mas dou uma resposta geral. Sou kantiano. Cada escolha minha implica um imperativo moral — de moral individual com desdobramentos coletivos, éticos. Ninguém se torna gay. Nasce-se heterossexual ou gay, independentemente dos pais. Ou não haveria homossexuais entre humanos ou entre macacos. Num país com a quantidade de menores abandonados que temos, arbitrar sobre isso me parece quase uma estupidez. Quem está certo de que a adoção de filhos por um casal homossexual é um malefício à criança e à humanidade está moralmente obrigado a escolher o benefício para a criança e a humanidade: adotar uma criança abandonada. Ou basta dizer um não, feliz com seu princípio, e fechar a janela?
Foro de São Paulo continua a dar as cartas nas relações entre Brasil e Bolívia
E o Foro de São Paulo, aquela entidade fundada por Lula e por Marco Aurélio Garcia, novo presidente do PT, que reúne os esquerdistas da América Latina, continua gerenciando as relações entre Brasil e Bolívia. Vocês se lembram que o “meu querido Evo” (como Lula chama o índio de araque) havia expropriado as receitas da Petrobrás, com o apoio de Chávez. Quando a eleição do Apedeuta no primeiro turno começou a entrar na zona de risco, o boliviano suspendeu o efeito prático da medida. E se agendou uma reunião para esta próxima terca. Pois é. Foi adiada de novo. Agora, vão esperar o segundo turno. Se Lula vencer, com o seu consentimento, o governo da Bolívia toma a Petrobras do Brasil. Se Alckmin vencer, aí vamos ver: é provável que o Foro de São Paulo mantenha a agenda e queira o confronto. Sei o tamanho da atrapalhação que seria. Mas como “o meu querido Evo” não pode vender gás para mais ninguém a não ser ao Brasil — já que ele não pode abrir rombo no gasoduto para oferecer gás ao mundo, hehe —, quebrava a espinha desse maloqueiro. Alckmin pode ir para a televisão, explicar o que está em disputa e denunciar a farsa que estava em curso. Muito complicado. Mas muito simples. "Meu querido Evo" não resistiria três dias.
A farsa das expulsões
A queda mandraque de Berzoniev. E uma fala para Alckmin
Um decálogo do Reinaldão
1) O indivíduo, para mim, é “A” instância superior. Não aceito que ninguém, Estado ou comunidade, venha me dizer o que posso ou não pensar; o que posso ou não fazer;
2) Acima vai a questão geral. Mas a convivência social impõe, naturalmente, limites. O primado do indivíduo é o “habeas corpus”. No caso em particular, cada um faça na cama, entre quatro paredes, o que bem entender, desde que seja uma relação consensual que exclua crianças e, bem, animais... Por que temos de nos meter na vida do outro?
3) Sou católico. Prefiro seguir as regras que estão definidas naqueles códigos. Mas eu sigo Paulo — prefiro pregar aos gentios — e não Torquemada. Um liberal não se mete na vida alheia. Se dois homossexuais querem celebrar um contrato, por que não podem? O que temos com isso?
4) Se vivem em pecado — os que cremos nisso —, eles têm o direito de arcar com as conseqüências de seus atos e de ambicionar o perdão. Ou vamos fazer como certos radicais islâmicos que decidem proteger o pecador de si mesmo, apedrejando-o?
5) Quando digo que reconheço “algumas” Igrejas — estou, nesse caso, tratando do cristianismo —, estou reconhecendo a importância que o protestantismo teve e tem no mundo. Ou o catolicismo oriental. É claro que considero a Igreja de Roma teologicamente superior, ou escolheria outra religião. Mas acho, junto com Bento 16, que é preciso buscar o diálogo, não a imposição. E isso sem prejuízo de, nas fileiras internas, a Igreja Católica enquadrar alguns celerados que se dizem da Teologia (ou Escatologia) da Libertação. A Igreja Católica pode e deve impor a seus fiéis um código de conduta. Quem não aceitar pode escolher outra religião. Ou nenhuma.
6) É claro que a militância gay tenta impor um padrão de comportamento. Suas “paradas”, não raro, são espetáculos grotescos. Mas prefiro uma sociedade onde eles possam se manifestar, ainda que eu censure aquele “espetáculo”. Gays se agarrando e dando beijo de língua sobre carros alegóricos é antes manifestação de uma escravidão moral. Tentam se impor pelo choque. Mas também acho patético que heterossexuais se agarrem em público;
7) Acho bom todos nós nos livrarmos da tentação autoritária de dizer o que o outro pode ou não fazer. Com a mesma clareza com que advogo essa liberdade, tenho claro que ninguém é heterossexual ou homossexual porque quer. Essa conversa de “escolha” é uma besteira. É claro que qualquer homossexual “escolheria”, se pudesse, ser heterossexual. A larga maioria de nós sabe que é muito mais fácil;
8) E isso não quer dizer que ignore o fato de que os meios de comunicação de massa, televisão em especial, ou fazem caricatura de gays para consumo do espectador menos informado ou transformam o que chamam de “opção” (e não é ) sexual num valor. Ninguém é mais maltratado nas novelas do que um pobre pai heterossexual. Homer Simpson é um bom exemplo. Isso faz parte do poderoso lobby gay. Combatê-lo, criticá-lo, não pode se confundir com intolerância;
9) Já escrevi e sustento o que segue em palestras, para escândalo de alguns presentes: o verdadeiro “negro” do mundo hoje é o macho, branco, pobre, heterossexual e católico. Ele é um zero à esquerda, ninguém quer saber dele. Nenhuma ONG se ocupa de seus problemas;
10) Mas deixo claro: não me convoquem para uma cruzada contra comportamentos considerados de exceção, que eu não aceitarei. Ao contrário: vou combater quem o fizer. Se eu pudesse e fosse possível, recomendaria a todos os homens que tivessem uma família como a minha, uma mulher igual à minha, filhas como as que tenho. Sei bem o que me faz feliz e lutarei para preservar o que conquistei. Mas não me confundam: entre Oscar Wilde e os que o meteram em cana, defendo o direito que ele tinha de dar o que só a ele pertencia e escrever livros que engrandeceram o pensamento. Nem tudo o que não é petralha me serve.
Deixei passar alguns petralhas
Lula, Alckmin, os debates e o que pode fazer a diferença
Como é que Alckmin vai demonstrar que o modelo Lula consome qualquer chance de poupança interna e que os investimentos baixos condenam o Brasil ao stop and go, em ciclos cada vez mais curtos? Espero que Alckmin não caia na tentação de ser muito didático a respeito disso. Lula fala barbaridades sobre o emprego, usando números do Caged e, agora, da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais). Nenhum dos dois serve para monitorar o desemprego. Entrar numa tecnicalidade como essa é caminho da perdição. É melhor ser sintético. Ao público que assiste a debates, Alckmin pode afirmar sem erro que o desemprego e o subemprego são gigantescos no país: acima de 10% no Brasil como um todo; na casa dos 17% na Grande São Paulo. Mais: pode afirmar sem susto que a classe média está muito apertada, contando os caraminguás. O discurso de Lula se tornou tecnocrático. Quem tem de buscar a intimidade com o telespectador, a cumplicidade, é Alckmin. Vai conseguir? Vamos ver. E, claro, o debate ético está a favor do tucano desde que se saiba fazer a coisa.
Lula tem o Bolsa Família, o risco país, o discurso triunfalista, o fato de o Brasil não ter entrado em crise com a sua eleição etc, etc, etc. Bem pensado, para a grande maioria, as suas “conquistas” são, digamos, quase imateriais. Pelo menos num debate de TV. Mas ele é bom de discurso, tem intimidade com a câmera, é um bom ator. No melhor da forma de cada um, haverá empate. O país que chega rachado ao segundo turno também vai rachar na avaliação dos debates. Os eleitores de Lula dirão que ele foi melhor; os de Alckmin, o contrário. E sic transit...
O que pode fazer a diferença? Eu não tenho dúvida de que a diferença estará em Minas, na Bahia e até em São Paulo. Serra teve mais votos do que Alckmin: 12.381.038 contra 11.927.802: 453.236 a mais. Pode não parecer, mas é bastante. Não existe transferência automática. Existe predisposição. Em Minas, o espaço de trabalho é gigantesco. Aécio Neves obteve 7.482.809, contra apenas 4.151.507 dados ao presidenciável tucano. Estamos falando de um universo de 3.331.302 eleitores. Compareceram às urnas 104.820.145 pessoas. A diferença em Minas a favor de Aécio corresponde a 3,17% do eleitorado que votou no primeiro turno. Numa disputa de segundo, cada voto vale dois (o que se ganha e o que se tira do outro). Na Bahia, o desempenho de Alckmin foi pífio: 1.676.484 (26,03% apenas). O candidato pefelista ao governo, Paulo Souto, derrotado por Jaques Wagner, ficou com 2.638.215. Ou 961.731 de diferença: quase 1% do eleitorado.
Se os debates tendem a uma soma zero para ambos, os programas de televisão podem fazer a diferença. O interesse por eles cresce no segundo turno. A Bahia segue o padrão do Nordeste pró-Lula, mas há lá uma liderança hoje ferida, interessada em aplicar uma derrota ao petismo. O carlismo tem de botar a faca na boca e ir para a guerra. Alckmin precisa aumentar mais a vantagem que obteve no Sul — que votou majoritariamente com ele — e melhorar muito a performance no Sudeste populoso, especialmente em Minas. É isso que vai fazer a diferença. Para as populações dessas regiões, o discurso ético é, sim, fundamental. Foi ele que tirou de Lula a eleição no primeiro turno. A questão tem de ser radicalizada, extremada. É preciso chamar bandido pelo nome que tem: “bandido”.
À diferença da pregação oficial, em vez de unir os extremos do país, Lula rachou o Brasil. Metade dá de ombros para a corrupção e a incorpora como prática corriqueira do poder desde que “o governo faça”. O “rouba, mas faz”, antes uma marca desabonadora de certos políticos, corre o risco de se tornar uma ética, um norte coletivo. Outra metade não aceita o primado. É preciso trazer apenas uma pequena fatia do eleitorado que está do lado de lá do imperativo moral para o lado de cá. Minas, Bahia e São Paulo: eis o nome de uma muito possível derrota de Lula. Ainda que a primeira pesquisa possa ser favorável ao petista. Estamos só no começo. Vinte e três dias, dada a configuração do confronto, é uma eternidade.


