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Piazzolla revisitado e aprimorado

Elena Roger e o sexteto Escalandrum, que tem como líder Daniel Piazzolla, neto de Astor, recriam os temas compositor argentino em shows em São Paulo

Elena Roger e Escalandrum: um tributo sem mofo à obra de Astor Piazzolla (Divulgação/Divulgação)

 

Evita é uma espécie de monte Everest das atrizes de musicais. O personagem da obra criada pelo compositor Andrew Lloyd Webber e pelo letrista Tim Rice a partir da história da mulher do ditador argentino Juan Domingo Perón (1895-1974) exige uma alta qualidade vocal, que vai das notas mais altas às mais graves (muitas vezes na mesma canção) e uma grande força de interpretação para retratar a ascensão e a decadência de Maria Eva Duarte de Perón, morta de câncer no ovário em 1952. Por duas ocasiões, a cantora e atriz argentina Elena Roger aceitou o desafio de viver Evita nos palcos. Primeiro no West End, em Londres, em 2006, onde foi indicada para o Laurence Olivier Award. Seis anos depois, Elena baixou na Broadway, em Nova York, onde dividiu o palco com Michael Cerveris e Ricky Martin, que interpretaram respectivamente Perón e Che. São oito récitas semanais, nas quais seis são interpretadas por Elena e duas por uma substituta. Durante uma dessas folgas, a cantora foi ao Birdland, clube de jazz de Washington, onde assistiu a uma apresentação do sexteto argentino Escalandrum. No repertório, Astor Piazzolla, um velho sonho de consumo de Elena. “Mas nunca tinha conseguido a banda certa para esse projeto.” Quando a diva alemã Ute Lemper subiu ao palco para cantar Los Pajaros Perdidos, Elena ficou possessa. Não pela versão, muito menos pelo jeitão derramado de Ute, mas porque se sentiu desafiada. “Era para EU cantar essa música”, brinca. Elena e Escalandrum se reencontraram dois anos depois, na inauguração de um museu em Mar del Plata. O Escalandrum foi o grupo escolhido para acompanhá-la porque a banda da cantora não estava disponível. Desse encontro surgiu a ideia de 3001: Proyecto Piazzolla, espetáculo que será apresentado de hoje a domingo na Caixa Cultural São Paulo (praça da Sé, 111, centro), sempre às 19h15, com ingressos gratuitos. O espetáculo será apresentado também no dia 28 no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo (av. Paulista 1313, Jardins), dia 29 no Teatro Sesi de Sorocaba (Rua Duque de Caxias, 494, Mangal), e dia 30 no Teatro Sesi de Rio Claro (Avenida M29, 441, Jardim Floridiana).

 

3001: Proyecto Piazzolla é mais do que um tributo ao cancioneiro do compositor e bandeonista argentino, o maior nome da música de seu país no século XX. Piazzolla, aliás, os detestava: achava-os reverentes demais. “Meu avô sempre defendeu a ideia de que temos de fazer uma música diferente”, diz Daniel “Pipi” Piazzolla, baterista e líder do Escalandrum e neto de Astor. A maior mudança está na substituição do bandoneón por um naipe de três saxofonistas. Os arranjos, a cargo do pianista Nicolás Guerschberg (que é jazzista e estudioso da obra de Astor Piazzolla) trazem outras influências, como Tom Jobim (presente na recriação de Oblivion) e o intrincado trabalho de sopro em Los Paraguas de Buenos Aires, revela a força jazzística do Escalandrum. Em suma, o sexteto argentino não coveriza Astor Piazzolla, mas sim o transforma e o apresenta para as novas gerações de instrumentistas e cantores. Um feito semelhante ao de 2011, quando o álbum Piazzolla Plays Piazzolla recriou temas como Libertango, Adiós Nonino e Buenos Aires Hora Cero.

 

 

Astor Piazzolla foi um gênio que revolucionou o tango ao fundir o gênero com os improvisos do jazz e as notas dissonantes da música erudita do século XX. Mas Pipi prefere lembrar dele como o avô tresloucado que o perseguia pela casa com cassetetes e o assustava com uma dentadura de vampiro. “Ele também amava filmes de ação como Rambo”, diz Daniel. Mas a música, claro, sempre desempenhou um papel importante na formação do baterista. “Meu avô me pediu quatro coisas: estudar todos os dias, tocar jazz, trabalhar com os melhores maestros e sempre buscar algo novo”, comenta. O Escalandrum é uma excelente banda de jazz fusion, mas nada se compara às suas recriações de Piazzolla. O público do Bridgestone Jazz, em São Paulo, teve a oportunidade de presenciar esse efeito transformador durante a apresentação do grupo. Ao final do concerto, boa parte da plateia estava às lágrimas. “Não é possível que tenhamos tocado tão mal assim”, brinca Daniel. “Estávamos muito nervosos porque tocamos logo após o baixista Dave Holland, que era da banda de Miles Davis. Para nós, foi como substituir Pelé numa partida de futebol.”

Elena Roger não é menos importante. Intérprete versátil, que vai do mundo dos musicais ao rock de seu país, em 3001 ela se encontra num dos melhores momentos de sua carreira. A comparação não é fácil: as canções do projeto foram interpretadas por gente do naipe de Amelita Baltar e Roberto Goyneche. Elena, no entanto, imprime sua própria marca – vide Balada de un Loco, eternizada por Amelita. Ou então coloca em cena seus atributos de cantante de musicais. Balada para Mi Muerte, por exemplo, tem recursos vocais semelhantes ao que ela usou em Evita. “Para mim é mais fácil porque são canções escritas na minha língua pátria, consigo entender aquele sentimento.” A cantora diz que normalmente chora durante os espetáculos, tal a força da música de Piazzolla e dos poemas de Horacio Ferrer, parceiro do compositor. Mas não se trata de um “privilégio” da cantora: ridículo é não se emocionar com a presença explosiva dela no palco.

 

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