“Eu toco com mais paixão que eles”

Peter Hook, ex-baixista de Joy Division e New Order, inicia turnê brasileira. E diz por que os fãs do New Order devem preferir um show dele ao de seu antigo grupo

Peter Hook - The Light Rome Fabrizio Di BItonto Photographer 6

 

Peter Hook, fundador do Joy Division e do New Order, inicia hoje uma pequena turnê por três cidades brasileiras: Rio de Janeiro (01/12 no Teatro Rival), Porto Alegre (03/12 no Bar Opinião) e São Paulo (06/12 no Cine Joia). Acompanhado pelo grupo The Light – que tem entre seus integrantes o filho de Peter, Jack Bates, no baixo; David Potts, ex-Monaco, na guitarra; Andy Poole nos teclados e Paul “Leadfoot” Kehoe na bateria –, ele apresenta o repertório de Substance, nome dado às coletâneas de suas duas antigas bandas. O que não é pouca coisa, visto que elas trazem músicas como Transmission e She’s Lost Control (Joy Division) e Ceremony, Blue Monday e Perfect Kiss (New Order).

 

 

Nascido em Salford, na Inglaterra, Peter Hook tem como marca registrada o som de baixo de timbre agudo, ao qual sola como se fosse uma guitarra. Um estilo que ficou marcado nas composições do Joy Divison – expoente do pós punk inglês – e acima de tudo no New Order, que combinou essa sonoridade crua com música eletrônica. Hook saiu do grupo em 2006, após uma pesada discussão que foi levada inclusive à Justiça. Desde então, enquanto seus ex-parceiros de banda continuam com a bandeira do New Order, ele criou o The Light, grupo no qual toca os hits do antigo grupo e do Joy Division. Hook assume vocais, tarefa que demorou seis meses até ter coragem suficiente para ir ao microfone e emular o amigo Ian Curtis.

Em entrevista por email, ele dá maiores detalhes sobre as turnês brasileiras, conta sobre sua faceta de escritor (lançou três livros: um sobre o Hacienda, clube que definiu a cena dance inglesa do final dos anos 80; outro sobre o Joy Division e um sobre o New Order, lançado recentemente, ao qual fez questão de divulgar nessa conversa virtual). Hook também adiantou que o Monaco, dupla que criou ao lado do guitarrista David Potts deverá se reunir e lançar um disco novo em 2017. E acima de tudo, ele tentou mostrar ao público brasileiro por que eles devem gastar dinheiro com ingressos para o show do The Light ao invés do New Order, que toca em São Paulo no mesmo período. Com vocês, Peter Hook.

 

O senhor desembarca no Brasil no mesmo período em que sua antiga banda, a New Order, faz uma única apresentação em São Paulo. Vamos supor então que eu tenho dinheiro para gastar num único show: por que deveria ir ao de Peter Hook & the Light?

Bem, essa é uma situação bem específica, não? A meu favor, posso dizer que eu e The Light iremos apresentar uma versão apaixonada, honesta e fiel do repertório do Joy Division e do New Order. A principal questão de The Light é não fingir ser qualquer dessas bandas (o que nos deixaria com uma cara de atração cover), mas mostrar o quanto eu adoro esse repertório que faz parte da minha vida há mais de três décadas. Outra questão importante é que, como tocaremos os dois discos na íntegra – inclusive as faixas menos conhecidas – você poderá observar como a nossa música progrediu com o passar do tempo. Espero ter te convencido!

 

Como foi assumir o microfone para cantar músicas do Joy Division e do New Order, visto que o senhor nunca foi o vocalista dessas bandas?

Foi muito difícil, em especial as canções do Joy Division. Sabe como é, Ian Curtis (cantor original do grupo, que cometeu suicídio em 1980) tinha um canto muito peculiar. Demorei seis meses para relaxar e ter a confiança suficiente para assumir as partes vocais de Ian. Creio que ele deve estar no alto da lua apreciando as homenagens que estamos fazendo à essa obra.

 

O som do baixo do senhor tem um som característico, se tornou uma marca registrada tanto do Joy Division quanto do New Order. Como achou sua personalidade no instrumento?

Não sei bem explicar em termos musicais, prefiro dizer que eu toco baixo como se minha vida dependesse disso. Ian Curtis me encorajou a adotar esse estilo e sou eternamente grato a isso.

Movement (1981), um dos meus discos prediletos do New Order, é marcado por uma atmosfera sombria. Seria um reflexo imediato da morte de Ian Curtis?

Há várias explicações do porquê desse disco ser tão sombrio. Primeiro, claro, a morte de Ian Curtis. Depois, Martin Hannet, o produtor ajudou a moldar a sonoridade característica do Joy Divison, não se conformou em perder Ian e decidiu descontar sua dor na gente. Ele sabia que se tratava de um cantor e letrista sensacional e deixou claro que eu, Bernard Sumner (guitarra e vocais) e Stephen Morris (bateria) nunca chegaríamos ao mesmo patamar de qualidade que tínhamos no Joy Division. A atitude dele abalou a nossa confiança justamente no momento em que estávamos tentando criar o nosso próprio estilo. É claro que a gente entrou no estúdio para compensar a morte de Ian – o que acabou sendo fundamental para que desenvolvêssemos nosso estilo. Mas se você me permite fazer um comercial, eu conto esse momento com maiores detalhes em Substance: Inside New Order, Coming Up and Coming Down, que chegou às livrarias no dia 06 de outubro.

 

Já que estamos falando de livros, então… O senhor lançou obras que falam não apenas sobre a sua carreira, mas dá vários detalhes de sua vida pessoal. Quando decidiu abraçar essa nova carreira? Qual a sensação de lembrar de detalhes – muitos deles dolorosos – da sua biografia?

Embora eu seja um novato no ramo literário, achei fácil colocar minha trajetória musical e pessoal em livro. Mesmo para que ache que eu tenha trabalhado demais para contar tantas histórias – o livro do New Order, por exemplo, tem mais de 800 páginas! E não creio ter sido um processo tão doloroso relembrar do meu passado. Foi algo que aprendi a lidar.

Bernard Sumner declarou certa vez que o New Order terminou após a turnê sulamericana de 2006, em especial após uma briga num show em São Paulo. O que aconteceu naquela ocasião?

Posso fazer outro comercial do meu livro? Eu conto a história com detalhes em Substance: Inside New Order, Coming Up and Coming Down!

 

O senhor está processando os outros três integrantes do New Order (Sumner, Morris e a tecladista Gillian Gilbert) para receber royalties não pagos sobre canções do grupo. A quantas anda esse processo?

Olha, está sendo um processo longo, complicado e muito, muito caro. O comediante americano Robin Williams dizia que “a cocaína é uma maneira de Deus te dizer que você ganhou dinheiro demais.” Sinto dizer que ele estava errado. O certo é: “Os processos judiciais são uma maneira de Deus te dizer que você ganhou dinheiro demais…” Eu comparo essa situação a uma luta de boxe na qual estou sozinho contra outros três boxeadores. Às vezes você ganha um round, às vezes são eles que ganham… A boa notícia é que atualmente estou vencendo a luta por pontos.

The Light vai ficar apenas na recriação do repertório de Joy Division ou o senhor pretende lançar um material de canções inéditas?

Na verdade, o Monaco é quem vai voltar. Deixa eu te explicar melhor: The Light foi criado inicialmente para trabalhar o repertório de Joy Division e New Order. Só que Pottsy (o cantor e guitarrista David Potts) entrou na banda e passamos a conversar sobre um possível retorno do Monaco, que deverá acontecer em 2017! Então o que ficou combinado foi: The Light vai lançar um disco ao vivo com o repertório dessas apresentações e o Monaco retorna com um disco de material inédito.

 

O que o senhor poderia dizer de Hacienda Classical, projeto no qual as canções que faziam sucesso no clube – que deu origem ao cenário acid house inglês no final dos anos 80 – com uma orquestra?

Como dono da marca e produtor executivo, posso te dizer que é um projeto sensacional, mas muito caro. Eu adoraria trazê-lo ao Brasil, mas preciso de um promotor de shows que consiga bancar a experiência. Se você conhecer algum, por favor, me avise.

 

 

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