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Daniel Hernandez

13/06/2010

às 23:50

Pincéis de ouro: o domingo de Daniel Hernandez

Em quase duas décadas de carreira (ele tem 37 de vida), muitos rostos poderosos já passaram pelos pincéis do maquiador Daniel Hernandez: de Ivete Sangalo a Kate Moss, de Britney Spears a Madonna e seu Jesus. Neste domingo, ele cuida do rosto e do cabelo de todos que pisarão na passarela da Colcci. Sim, Gisele Bündchen, em seu retorno pós Benjamin, incluída. Mas Daniel não se intimida: trabalha com a modelo mais bem paga do mundo desde que ela tinha 13 anos – ou seja, muito antes do título de übermodel. A carreira de maquiador e cabeleireiro deslanchou quando ele, saído de Porto Alegre, veio para São Paulo, há 18 anos. Hoje, Daniel coordena uma equipe de 13 profissionais, todos a postos para embelezar ainda mais as beldades da Colcci:

7:30: Fim de uma noite muito bem dormida, depois de cuidar de Gisele durante a sessão de fotos para a campanha da Colcci.O café-da-manhã é reforçado, mas cuidadoso: pão integral, requeijão light, shake, suco de laranja e café com leite.

8:00: Ele pesquisa na internet inspiração para um trabalho em Nova York (para onde embarca na segunda-feira): um editorial para a revista Vogue russa.

11:00: Domingo está longe de ser um dia de folga para Daniel. Além de acordar cedo e trabalhar à noite, ele ainda arranja fôlego para malhar na academia – durante duas horas!

13:10: No caminho de casa, onde passará para tomar um banho, liga para dois amigos. Tem comida pronta na geladeira, mas cogita comer fora.

17:10: Chegada à Bienal com o assistente Marco.

17:15: Confere a estrutura dos dois camarins — das modelos e da übermodelo.

17:20: A primeira coisa tirada da mala é o ipod com uma caixinha. Liga, na última da Rihanna. Alguém reclama para abaixar. Ele desiste da animação e desliga o equipamento. Concentra-se na arrumação da bancada.

17:25: Sentado no chão com a equipe, começa a escolher a cor que será usada no olho de cada modelo. Para Gisele, turquesa.

17:39: Chega o primeira modelo e ele aproveita para ensinar a equipe como a maquiagem deve ser feita em todos. Neles, um borrão de tinta (meticulosamente jogado) entre o olho e o nariz. Nelas, visual bem apagado, com um risco colorido nos olhos.

18:02: Já são quatro os modelos prontos.

18:05: Agora, ensinar a fazer o penteado. Daniel aproveita e dá um alerta: depois de usadas, as tintas devem ser devolvidas à sua maleta.

18:09: Daniel termina a primeira modelo.

18:32: Ele anda de lá para cá, conferindo o trabalho da equipe, e fazendo, ele mesmo, algumas das beldades.

18:49: Ele vai até o iPod e, pela terceira vez, coloca Russian Roulette, da Rihanna, para tocar. Nessa brecha, duas jornalistas abordam o maquiador para uma entrevista rápida.

19:02: Meticuloso, ele pede que o assistente engrosse “um pouquinho” o traço colorido nos olhos de uma modelo.

19:07: Começa uma agitação no camarim. Não restam dúvidas: ela chegou. Daniel some, enquanto Marco, seu assistente, recolhe parte da parafernália dentro de uma mala e segue por uma porta fechada.

19:25: Daniel enfim reaparece, sorrindo ao lado da outra estrela do desfile: Reynado Gianecchini. O ator faz passagem relâmpago pela sala, em direção ao seu camarim. Daniel retoma os cabelos (a fase de maquiagem já acabou, agora só retoques)

19:36: Essa mania de passar fome é com as modelos. Daniel ataca um pratinho de salada.

19:46: O maquiador saca uma máquina fotográfica e registra o look de algumas modelos, para analisar. Mostra as imagens para Mônica, sua agente.

19:50: Exigência é palavra de ordem. Daniel manda refazer o cabelo de uma das modelos. O penteado é um preso molhado, quase encharcado.

19:56: Não foi dessa vez. Insatisfeito com o resultado, Daniel resolve assumir a escova. Recomeça e repassa a tarefa a um assistente.

20:05: Mais uma entrevista.

20:09: Um breve ataque de tosse. “É o ar condicionado!”

20:10: O assistente acaba o penteado refeito e chama Daniel. Ufa, aprovado!

20:15: A salada não foi o bastante. Mas Daniel troca o macarrão e o cachorro quente do bufê por um saquinho de cookies integrais que traz na mochila.

20:22: Um dos looks que Daniel assina esta noite é o da top Shirley Malmann, que veio de Nova York especialmente para a Fashion Week.

20:38: Uma assessora chega perto dele e, discretamente, avisa: “Preciso de você. Agora.” É a senha.

20:39: Antes de se encaminhar para o camarim de Gisele, ele reúne a equipe e dá as últimas instruções: “Preciso que vocês peguem o gel (de cabelo), passem nas duas mãos e esfreguem no corpo delas. Depois, algumas batidinhas no rosto. Mas precisa aplicar primeiro o blush rosa.” Esse é o truque do efeito molhado no corpo e no rosto das modelos.

20:54: Fernanda Tavares também entra o camarim de Gisele. Receberá lá os últimos retoques.

21:10: Pede que busquem Reynaldo Gianecchini, em um camarim especial ao lado do da top, para que possa coordenar a produção do cabelo e da maquiagem dele.

21:35: De volta ao camarim comum, começa o toque final em cada modelo: spray de água no cabelo, no rosto e no pescoço. Gel nos braços e pernas.

21:51: A pressão aumenta. O desfile será transmitido ao vivo para a televisão e faltam poucos minutos para arrumar todo mundo. Ele grita: “Não tem nenhum maquiador parado, né, gente?!” Ele com certeza não está.

21:55: Vai para a boca de cena, onde as modelos estão dispostas em roda.

21:56: Um assistente volta ao camarim aos berros: “Quem está com a boca?” É Daniel pedindo o batom para ser reaplicado.

21:57: Volta outro pedindo uma toalha. Uma das modelos ficou molhada demais e o cabelo está pingando na roupa.

21:58: Daniel passa para o camarim de Gisele, onde dará os últimos toques antes do desfile começar.

22:07: Modelos na passarela, pausa para uma água.

22:08: Enquanto a fila final é formada, ele corre para a top.

22:19: Confere o desfile pelo vídeo usado pelo câmera de um canal de televisão.

22:22: Entrevista para o tal canal.

22:25: De volta ao camarim da Gisele, para se despedir.

22:45: Acaba de recolher os últimos produtos para ir embora da Bienal. De lá, para casa. De casa, para a festa da Colcci na Daslu. “Eu conheço todo mundo, tenho que ir”, justifica-se.

Um pouco mais
Arte final

O gaúcho Daniel Hernandez tem uma daquelas profissões que, à distância, parecem fáceis: deixar ainda mais bonitas as beldades que se sentam à sua cadeira. Mas, se ele é hoje uma celebridade no meio da moda, é porque batalha por isso há vinte anos, fazendo penteados e cuidando da maquiagem dos protagonistas de desfiles, editorias e campanhas. Só em Nova York, parada das mais badaladas no circuito da moda, ele trabalhou por quatro anos. Mesmo no ambiente tenso de um camarim momentos antes de um desfile, é capaz de distribuir abraços e arriscar uns passinhos de dança – música alta é indispensável. Mas que ninguém confunda descontração – até no figurino, que pode ser calça camuflada, tênis e camiseta preta – com imprecisão. Daniel é exigente e firme na hora de liderar sua equipe. Não distribui broncas aos gritos, mas, se não gosta do resultado, exige que seja refeito. Uma, duas, três vezes. Ainda que a tensão seja reinante – como no desfile de retorno de Gisele Bündchen às passarelas – ele mantém a pose. Para que elas saiam bem na foto.

(Cristiane Sinatura e Bel Moherdaui)


 

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