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Brazil

07/06/2011

às 22:58

Ronaldo: ‘Até breve, mas dessa vez fora dos campos’

(Foto: Cesar Greco/Fotoarena/Folhapress)

Fenômeno se cobriu com bandeira jogada por torcedor (Foto: Cesar Greco/Fotoarena/Folhapress)

A única coisa que Ronaldo sabia ao acordar neste dia 7 de junho de 2011 era que iria entrar em campo vestindo pela última vez – pelo menos oficialmente – a camisa da seleção brasileira. Ele também sabia que o amistoso contra a Romênia seria interrompido aos 30 minutos do primeiro tempo para ceder lugar, ainda com a bola rolando – como ele gosta, para “meus 15 minutos finais”, como ele mesmo definiu. De resto, a noite reservava apenas surpresas e emoções ao craque que se despedia da profissão à qual se doou nos últimos 18 anos – 17 deles eternizando a camisa 9 do Brasil. No dia anterior, ele confessou não saber o que estavam lhe preparando. Ao chegar com toda a delegação no Pacaembu, em São Paulo, o técnico Mano Menezes também percebeu que esse não seria um jogo normal. “Daí que vi que essa era uma noite diferente: ele chegou antes de todo mundo”, brincou o treinador.

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Duas horas e meia antes do horário programado para pisar no gramado, o Fenômeno chegou ao estádio acompanhado dos filhos Ronald e Alex – a mesma dupla de semelhança inegável que o pai levou consigo para suportar a difícil tarefa de anunciar sua aposentadoria, em fevereiro passado. O eterno craque manteve os rebentos sempre perto de si, inclusive durante o aquecimento no vestiário, onde aguardou até ser chamado para substituir Fred, que reverenciou o ídolo antes de sair. Para os demais jogadores, esse era o último teste antes da convocação oficial para a Copa América. Para Ronaldo – e toda a torcida brasileira, que se vestiu de amarelo em sua maioria, gritou bastante e levou faixas com mensagens de carinho -, era uma festa de despedida. E foi nesse clima que ele entrou em campo, vestindo o uniforme que não usava desde o Mundial de 2006, exatamente às 22h25 de terça-feira. À base de uma injeção de anti-inflamatório para suportar os minutos em que todos os olhos estariam grudados nele, não tinha qualquer preocupação em mente.

E os torcedores do Pacaembu tiveram de dividir mesmo sua atenção com o ídolo que estavam prestes a perder e cuja imagem nos bastidores era exibida no telão do estádio enquanto o restante do time tentava colocar a bola na rede da Romênia – o que aconteceu aos 21 minutos do primeiro tempo. Ronaldo ouviu os gritos da torcida no primeiro gol e não conseguia parar de se mexer e andar de um lado para o outro, em claro sinal de nervosismo – soltou, inclusive, um dos palavrões típicos de desabafo e que dispensa ser reproduzido aqui. “Ole-le, ola-la, Ronaldo vem aí e o bicho vai pegar”, gritava a torcida, empolgada. E ele veio, ovacionado desde o vestiário. Quando apareceu, delírio geral e ritmo lento em campo – nem os jogadores pareciam querer perder esse momento. O maior artilheiro na história das Copas do Mundo sabia que não tinha mais nada a provar em seu jogo de número 105 pela seleção. “Acho que não tenho que demonstrar nesse jogo o quão bom eu fui”, falou, na véspera.

Aos 30 minutos, o quarto árbitro levanta a placa de substituição e, ao ver o tão aguardado número 9 em verde, os torcedores enlouquecem de novo. Ronaldo levou míseros três minutos para tocar na bola a primeira vez, tempo que pareceu maior para quem clamava para que a redonda fosse dada a um dos que melhor soube tratar dela. E apenas cinco minutos depois de entrar, o Fenômeno estava no lugar certo, onde sempre se sentiu à vontade: a área adversária. Mas o goleiro romeno, no lugar errado – pelo menos para os brasileiros – e recebeu, meio sem jeito, o chute dele a partir de um passe de Neymar. Aliás, todos queriam dar o passe para o que seria o último gol da carreira de um dos maiores nomes da seleção brasileira. Aos 39, foi a vez de Robinho, mas Ronaldo chutou para fora. E enquanto suspirava por mais uma boa chance perdida, o colega e fã o abraçou e beijou seu rosto. E a disputa não parou por aí: só dois minutos depois, Neymar avança para o ataque mais uma vez e, descaradamente, espera a chegada do Fenômeno – como um obediente garçom, pronto para servi-lo. Mas o goleiro romeno atrapalha mais uma vez.

Aos 43, preocupação: o homem do jogo parece começar a sentir as dores e manca. O ritmo diminui, e o juiz encerra, aos 46. E mesmo tendo perdido três chances que a torcida já cansou de ver convertidas em gol, Ronaldo tem mais uma vez seu nome gritado por todo o estádio. Fim de jogo, e todos os jogadores fazem fila e se mostram honrados em receber o cumprimento de um mito. Em seguida, é a vez dos fãs serem homenageados pelo craque, em uma troca de papéis que só um humilde ídolo é capaz de prestar. Em volta olímpica, ele acena para os torcedores, que começam a se aglomerar na parte de mais baixa da arquibancada, na tentativa de vê-lo mais de perto. Alguém joga uma bandeira do Brasil, que lhe serve de manto. Ronald filma cada reação do pai e dos fãs, enquanto Alex segue ao lado do pai, acenando junto.

Enquanto passa, a fila atrás de Ronaldo cresce: jovens com o uniforme da seleção carregam estandartes que lembram cada um dos 15 gols marcados em Mundiais pelo recordista único – e que seguirá assim pelo menos nos próximos três anos. “Vocês são demais”, disse, finalmente, desculpando-se pelas chances de gol perdidas. “Desculpem, não consegui fazer. Seria uma pequena retribuição de tudo o que vocês fizeram por mim. Muito obrigado por tudo. Por me aceitarem do jeito que eu sou, por terem chorado quando chorei, e sorrido quando eu sorri. Até breve, mas dessa vez fora dos campos.” E sem deixar nenhum herdeiro à altura para vestir sua tão honrada camisa 9 na seleção, o Fenômeno se retira sob muitos aplausos de um dos muitos gramados onde deixou sua marca na história do futebol.

(Por Pollyane Lima e Silva)

 

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