Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria O povo da moda

15/06/2010

às 22:32

VEJA.com na moda

A São Paulo Fashion Week terminou nesta segunda, após seis dias de correria, glamour e desfiles. Nesse período, 39 marcas mostraram sua coleção de verão. A cada dia, VEJA.com seguiu ao lado de um profissional diferente, para contar como é participar da principal semana de moda do país. Confira o diário exclusivo desta SPFW clicando nos links abaixo:

O poderoso chefão: a quarta-feira de Paulo Borges

História de uma gata: a quinta de Luana Teifke

A ‘tia’ das modelos: a sexta-feira de Meire Maron

O sábado de Zee, um maestro dos bastidores

Pincéis de ouro: o domingo de Daniel Hernandez

Para terminar com festa: a segunda de André Lima

14/06/2010

às 23:59

Para terminar com festa: a segunda de André Lima

André Lima já exibe seus vestidos exageradamente exuberantes na São Paulo Fashion Week desde 2001. “O carro chefe sempre foram as estampas. Hoje, elas são uma ferramenta, e o meu foco está na estrutura”, explica ele, no ateliê, enquanto observa a produção das 21 peças que serão mostradas hoje à noite. A torcida, não muito contida, é para que o desfile, o último da temporada, seja transmitido ao vivo. Não é puramente vaidade, mas praticidade: se assim for, ele ganha uma hora a mais para deixar seus longos e curtos impecáveis – ou prontos.

7:00: A prova de roupa, ontem, foi até a madrugada. “Temos que fazer a barra do forro da anágua, depois das seis camadas de tule e do vestido. Depois que os três são colocados juntos, o forro cede e aparece, é preciso marcar de novo”, ele explica. Mas não dava para dormir muito mais.

8:10: Depois do café (dois sanduíches de pão integral, peito de peru e queijo branco e um chá), André começou a instruir a arrumação da casa. Após o desfile, já é tradição, ele recebe entre 20 e 30 amigos em casa para uma caranguejada. “Mas não aqueles caranguejos para quebrar, viu?!”

9:30: Prestes a sair de casa, é interrompido. “O senhor não conversou comigo. O caranguejo é com farofa? A carne é com cuscuz?”, pergunta sua fiel escudeira. “Ela sabe tudo, não sei qual a dúvida”, diz ele, que ainda deixa dinheiro para comprar orquídeas para o banheiro.

10:30: A irmã, vinda do Pará especialmente para o desfile, pede ajuda para escolher a roupa que usará. Ele decide: um vestido com a estampa “onça fera”, da coleção alto verão 2009/2010.

11:15: Chegam flores no show room.

11:30: André chega ao showroom, onde as costureiras e modelistas (são quase 50 pessoas na equipe pré-desfile) acabam as peças desde as 8 horas da manhã.

12:28: Escolha do esmalte que seria usado pelas modelos. “Hoje em dia, o esmalte é o novo batom”, sentencia André.

12:40: Descida à sala de costura. Dos 21 vestidos, só uns dois estão 100% prontos. Alguns só precisam de reparos (como a barra), outros ainda estão sendo cortados. “Algumas modelos precisam de peito — aquele suporte de silicone, sabe? — outras, precisam de peito e bojo. Ontem veio uma aqui que tinha, de busto, o mesmo que de cintura. É todo um exercício para as modelistas, que estão acostumadas a fazer roupa para mulheres com peito, com bunda. Quando vão fazer as roupas do desfile, muda tudo”, ele conta.

13:13: Com ajuda do Carlos, seu superassistente, André começa a organizar quais modelos usarão qual detalhe na cabeça.

13:15: Rápida decisão de que roupa as celebridades (e amigas) usarão para assistir ao desfile. Patrícia Casé, relações públicas e irmã de Regina, vai de vestido branco e preto de bolas.

13:18: Pausa para tuítar. “Logística é com J?”

13:25: Esmalte resolvido: sexy nude com reflexos de violeta

13:26: Manda subir o primo, Pedro, advogado, que vai ficar tuitando em seu lugar – supervisionado bem de perto por André. Para o estilista, twitter é coisa séria. Seu endereço estampa a camiseta das modelistas.

13:30: Chega uma modelo, Carmelita. O vestido não está pronto para a prova ainda. André pede que ela espere, e leva uns livros de moda para ela se distrair.

13:31: Ele mostra os brindes que recebeu em sua rápida passagem pela Bienal, na sexta: uma carteira — “Essa vai para a minha tia”, ele diz –, um relógio, um tênis… “Cheguei lá e me senti no shopping”, ri.

13:35: Chegam os cintos. Ele passa o celular ao primo e pede que tuíte. “Bota acento! Ideia não tem mais acento, viu?!”, diverte-se.

Enquanto Carlos (à esquerda) e André analisam o cinto, Pedro tuíta

14:30: A sala de produção pega fogo. Não literalmente.

14:37: André corta a barra do vestido de paetês que será usado por Samira.

14:52: Só vieram três cintos. Faltou um, a pedra quebrou. Carlos liga para cobrar substituição.

14:54: A aba lateral de outro vestido não para em pé como deveria. “Vai abrir?”, pergunta uma costureira. Sim, vai precisar descosturar para colocar uma tela no meio. Faltam seis horas para o desfile. Ou sete.

15:01: O vestido (outro) não cabe na caixa em que seria transportado para a Bienal. “Embrulha. Com papel mesmo”, André pede.

15:02: Suspende a colocação de etiquetas internas nas roupas. “Tem muita barra para fazer”, ele avisa.

15:27: Finalmente, chegou o vestido para Carmelita provar.

15:43: “Será que dá para ligar o ar condicionado?”, pede a modelo, pouco antes de fraquejar e quase desmaiar. Correria: tira o vestido, abana, traz uma cadeira, sal, água.

16:44: Pausa para o almoço (que precisou ser requentado).

16:46: Liga a assistente de uma editora de moda: quer ver os vestidos. “Só se for para colocar na capa”, André diz para a assessora, meio brincando, meio sério. É.

17:17: Saída para a Bienal, com mais de uma hora de atraso. Faltam quatro horas para o desfile. No som, a trilha do desfile (vai ter Shakira). “Eu arrisco, né?! Será que vão gostar?”, ele pergunta.

André e Andrea, sua assessora, entram no carro


17:33:
Chegada à Bienal. Equipe de maquiagem e cabelo a postos. Nenhuma modelo ainda. Nenhum vestido chegou. Faltam três horas e meia.

17:50: Começam a chegar as primeiras caixas com as roupas. Os arranjos de cabelo também desembarcam na sala.

18:05: Um canal de televisão vai acompanhar a preparação. André ganha um microfone e passa a ser perseguido no camarim por câmera e luz.

18:19: A modelo Barbara Berger chega para uma última prova do vestido. Tudo certo com a barra, ufa.

18:28: André aproveita e prova em Barbara o vestido que outra modelo usará (Drielle). “Só espero que ela não seja mais alta que você”, torce.

18:29: Uma das seguranças do camarim suspira: “Se a gente usar um vestido nesse em um casamento, vai chamar bastante atenção.” Bem mais do que a noiva, aliás.

18:34: Paulo Borges passa para uma rápida checagem . Não parece ter ficado muito feliz com aquela barra ainda não feita. Faltam duas horas e meia.

18:40: Chega outra modelo, Sofia, para mais um ajuste.

18:41: Enquanto isso, na sala ao lado, começam a ser feitos os primeiros penteados.

18:44: Paulo Borges volta ao camarim. Faltam pouco mais de duas horas para o desfile, e há muito a ser feito.

18:50: A empresária Patricia Casé, irmã da apresentadora Regina, é convidada do desfile e vai ao camarim cumprimentar André Lima. Traja um vestido seu de bolinhas nas cores preta e branca. “Eu visto a Patrícia. Ela é minha amiga e eu faço questão de que venha ao desfile com uma roupa minha”, conta André.

18:58: Nova visita. Desta vez, do colega e amigo Ronaldo Fraga, que lhe dá um abraço apertado e confirma o horário do desfile, que deverá acompanhar. “Nove horas”, diz André Lima, embora já se espere um atraso pela frente.

19:09: Chegam mais seis caixas de vestidos. Mas ainda há peças a caminho.

19:21: André Lima pergunta pelo cenário do desfile a Ana, de sua equipe comercial. Ela diz que a montagem está sendo iniciada.

19:24: André Lima dá nova entrevista (já forneceu várias), a um canal de TV pago.

19:26: Nova prova de roupa. O estilista brinca com a modelo durante a prova. Apesar da proximidade do desfile, o clima ainda é de descontração.

19:47: Pausa para uma comidinha. “Se eu não como, eu mato um”, brinca Lima, que mastiga com velocidade. Comer não é problema. Deixar de ir à academia é que é. “Hoje, eu não fui, fico louco da vida quando deixo de ir.”

20:11: Chegam as últimas caixas de roupa, enquanto o estilista faz a prova de outro vestido. Falta menos de uma hora para o desfile final da 29ª edição da São Paulo Fashion Week.

20:24: O clima do camarim começa a mudar. Lima já não parece tão calmo.

20:27: Na primeira sala do camarim, o cabeleireiro Mauro Freire faz o cabelo e coloca o arranjo de cabeça nas modelos. Tudo dançando — ele não fica um segundo parado.

20:38: Chega Cristina Lima, irmã do estilista, com o tal vestido “onça-fera” escolhido por ele de manhã.

20:43: Um funcionária do backstage avisa: “Dez modelos estão totalmente prontas para o desfile.” Restam apenas 17 minutos para o horário oficial.

21:01: Camila Pitanga entra no camarim para cumprimentar o amigo André Lima. “Eu sou fã desse artista, desse criador. Visto as roupas dele desde antes de sermos amigos”, conta, sorrindo muito. A atriz é só alegria.

Cristina Lima, irmã do estilista

21:02: O desfile já está atrasado — não só por culpa de André, é verdade. Como a transmissão será ao vivo, é preciso seguir o horário da televisão — mais tarde, para sorte de toda a equipe. Mas ainda há vestidos sendo costurados, como o amarelo da Drielle e o estampado da Tana (o que precisou ser descosturado para arrumar a aba lateral).

21:03: Alguém grita: “Tem que pregar o detalhe no vestido da Carmelita (a modelo que quase desmaiou na prova).”

21:04: Não vai dar tempo de ensaiar. O diretor leva algumas modelos (as que não estão vestidas) até a passarela e mostra como será o entra e sai.

21:04: Carlos, o superassistente, ensina a costureira a pregar um dos vestidos que faltam.

21:08: Camila Pitanga chega à sala onde as modelos estão se trocando. “Olha, que lindo”, suspira para um amigo.

21:11: Um assistente pergunta: “Dá tempo de ela ir ao banheiro?” É uma modelo. Como o vestido dela não está pronto, é autorizada.

21:12: André grita: “Quem vai colocar peito?” No caso, um sutiã de silicone comprado na 25 de março.

21:18: Três vestidos estão sendo passados. E não são os últimos.

21:22: O vestido amarelo continua sendo costurado.

21:23: André ajuda as camareiras a colocar as roupas nas modelos.

21:27: Algumas modelos já estão prontas. Maquiadores fazem os retoques na sala de troca. E o vestido amarelo continua no manequim.

21:28: Quem pode, ensaia alguns passos no meio da multidão que corre contra o relógio. Quem não pode posa para a foto. Já são 28 minutos de atraso.

21:31: Começa a organização da fila das modelos. É preciso gritar o nome de cada uma, porque ninguém se houve na confusão.

21:32: Finalmente o vestido amarelo ficou pronto. Drielle já pode ser vestida. Mas ainda falta arrumar um cor de rosa.

21:33: Chega para troca a última modelo a acabar a maquiagem. Já são 33 minutos de atraso.

21:36: São seis pessoas para ajudar a colocar o vestido na modelo Bruna Sottili.

21:37: Pânico. Tana não consegue andar com o seu. A barra está grande e o salto enrosca no tule. “Quem tem uma tesoura?”

21:38: André surge trocado. Enquanto é maquiado, repassa com a diretora a ordem de entrada das modelos na passarela.

21:39: Todas vestidas, ufa. Nem todas prontas.

21:40: Alguém avisa: “Faltam cinco minutos!”

21:42: Aos berros, a diretora explica como as modelos devem proceder na passarela.

21:43: André grita para as modelos: “Quando chegar lá, quero aquela pose demônia!”

21:45: Começa a transmissão ao vivo, de dentro da sala.

21:46: Entra a primeira modelo.

21:49: Tana continua se enroscando com o tule da barra. Carlos pega uma tesoura e tira mais um pedaço.

21:53: Mais um ajustezinho no vestido da Barbara.

21:56: Entrou a última modelo.

21:58: Montagem e entrada da fila final. André é o próximo. O público o aplaude de pé. No camarim, palmas e assobios. Acabou.

Um pouco mais
O arquiteto dos vestidos

A justificativa é até plausível: “Meus vestidos são todos sob medida, feitos no corpo de cada modelo. Só que elas não moram no Brasil e, enquanto não chegam para a temporada, mal consigo começar”, diz o estilista André Lima. E toda temporada é assim: correria até o último minuto antes de entrar na passarela, com roupas sendo passadas, outras sendo costuradas. Quem assiste a tudo da fila A nem imagina o sufoco que a equipe passa no camarim. Até a entrada da última modelo. André consegue manter a calma na maior parte do tempo, parando para falar uma gracinha aqui, escrever outra no twitter acolá. Para isso, conta com uma equipe de costureiras e modelistas dedicadas (mas nem sempre dispostas a virar a noite com a agulha na mão) e um assistente que é seu braço direito e esquerdo juntos, capaz de toda organização que a André às vezes falta. André, que estudou dois anos de arquitetura, não costura – “Sempre que me sento à máquina, fica uma porcaria”, diz – mas corta, cria e constrói com capricho e minúcia vestidos que têm tudo de superlativo (coloridíssimos, trabalhadíssimos, bordadíssimos e volumosíssimos). E isso implica mais e mais trabalho, mais e mais atrasos.

(Bel Moherdaui e Maria Carolina Maia)

13/06/2010

às 23:50

Pincéis de ouro: o domingo de Daniel Hernandez

Em quase duas décadas de carreira (ele tem 37 de vida), muitos rostos poderosos já passaram pelos pincéis do maquiador Daniel Hernandez: de Ivete Sangalo a Kate Moss, de Britney Spears a Madonna e seu Jesus. Neste domingo, ele cuida do rosto e do cabelo de todos que pisarão na passarela da Colcci. Sim, Gisele Bündchen, em seu retorno pós Benjamin, incluída. Mas Daniel não se intimida: trabalha com a modelo mais bem paga do mundo desde que ela tinha 13 anos – ou seja, muito antes do título de übermodel. A carreira de maquiador e cabeleireiro deslanchou quando ele, saído de Porto Alegre, veio para São Paulo, há 18 anos. Hoje, Daniel coordena uma equipe de 13 profissionais, todos a postos para embelezar ainda mais as beldades da Colcci:

7:30: Fim de uma noite muito bem dormida, depois de cuidar de Gisele durante a sessão de fotos para a campanha da Colcci.O café-da-manhã é reforçado, mas cuidadoso: pão integral, requeijão light, shake, suco de laranja e café com leite.

8:00: Ele pesquisa na internet inspiração para um trabalho em Nova York (para onde embarca na segunda-feira): um editorial para a revista Vogue russa.

11:00: Domingo está longe de ser um dia de folga para Daniel. Além de acordar cedo e trabalhar à noite, ele ainda arranja fôlego para malhar na academia – durante duas horas!

13:10: No caminho de casa, onde passará para tomar um banho, liga para dois amigos. Tem comida pronta na geladeira, mas cogita comer fora.

17:10: Chegada à Bienal com o assistente Marco.

17:15: Confere a estrutura dos dois camarins — das modelos e da übermodelo.

17:20: A primeira coisa tirada da mala é o ipod com uma caixinha. Liga, na última da Rihanna. Alguém reclama para abaixar. Ele desiste da animação e desliga o equipamento. Concentra-se na arrumação da bancada.

17:25: Sentado no chão com a equipe, começa a escolher a cor que será usada no olho de cada modelo. Para Gisele, turquesa.

17:39: Chega o primeira modelo e ele aproveita para ensinar a equipe como a maquiagem deve ser feita em todos. Neles, um borrão de tinta (meticulosamente jogado) entre o olho e o nariz. Nelas, visual bem apagado, com um risco colorido nos olhos.

18:02: Já são quatro os modelos prontos.

18:05: Agora, ensinar a fazer o penteado. Daniel aproveita e dá um alerta: depois de usadas, as tintas devem ser devolvidas à sua maleta.

18:09: Daniel termina a primeira modelo.

18:32: Ele anda de lá para cá, conferindo o trabalho da equipe, e fazendo, ele mesmo, algumas das beldades.

18:49: Ele vai até o iPod e, pela terceira vez, coloca Russian Roulette, da Rihanna, para tocar. Nessa brecha, duas jornalistas abordam o maquiador para uma entrevista rápida.

19:02: Meticuloso, ele pede que o assistente engrosse “um pouquinho” o traço colorido nos olhos de uma modelo.

19:07: Começa uma agitação no camarim. Não restam dúvidas: ela chegou. Daniel some, enquanto Marco, seu assistente, recolhe parte da parafernália dentro de uma mala e segue por uma porta fechada.

19:25: Daniel enfim reaparece, sorrindo ao lado da outra estrela do desfile: Reynado Gianecchini. O ator faz passagem relâmpago pela sala, em direção ao seu camarim. Daniel retoma os cabelos (a fase de maquiagem já acabou, agora só retoques)

19:36: Essa mania de passar fome é com as modelos. Daniel ataca um pratinho de salada.

19:46: O maquiador saca uma máquina fotográfica e registra o look de algumas modelos, para analisar. Mostra as imagens para Mônica, sua agente.

19:50: Exigência é palavra de ordem. Daniel manda refazer o cabelo de uma das modelos. O penteado é um preso molhado, quase encharcado.

19:56: Não foi dessa vez. Insatisfeito com o resultado, Daniel resolve assumir a escova. Recomeça e repassa a tarefa a um assistente.

20:05: Mais uma entrevista.

20:09: Um breve ataque de tosse. “É o ar condicionado!”

20:10: O assistente acaba o penteado refeito e chama Daniel. Ufa, aprovado!

20:15: A salada não foi o bastante. Mas Daniel troca o macarrão e o cachorro quente do bufê por um saquinho de cookies integrais que traz na mochila.

20:22: Um dos looks que Daniel assina esta noite é o da top Shirley Malmann, que veio de Nova York especialmente para a Fashion Week.

20:38: Uma assessora chega perto dele e, discretamente, avisa: “Preciso de você. Agora.” É a senha.

20:39: Antes de se encaminhar para o camarim de Gisele, ele reúne a equipe e dá as últimas instruções: “Preciso que vocês peguem o gel (de cabelo), passem nas duas mãos e esfreguem no corpo delas. Depois, algumas batidinhas no rosto. Mas precisa aplicar primeiro o blush rosa.” Esse é o truque do efeito molhado no corpo e no rosto das modelos.

20:54: Fernanda Tavares também entra o camarim de Gisele. Receberá lá os últimos retoques.

21:10: Pede que busquem Reynaldo Gianecchini, em um camarim especial ao lado do da top, para que possa coordenar a produção do cabelo e da maquiagem dele.

21:35: De volta ao camarim comum, começa o toque final em cada modelo: spray de água no cabelo, no rosto e no pescoço. Gel nos braços e pernas.

21:51: A pressão aumenta. O desfile será transmitido ao vivo para a televisão e faltam poucos minutos para arrumar todo mundo. Ele grita: “Não tem nenhum maquiador parado, né, gente?!” Ele com certeza não está.

21:55: Vai para a boca de cena, onde as modelos estão dispostas em roda.

21:56: Um assistente volta ao camarim aos berros: “Quem está com a boca?” É Daniel pedindo o batom para ser reaplicado.

21:57: Volta outro pedindo uma toalha. Uma das modelos ficou molhada demais e o cabelo está pingando na roupa.

21:58: Daniel passa para o camarim de Gisele, onde dará os últimos toques antes do desfile começar.

22:07: Modelos na passarela, pausa para uma água.

22:08: Enquanto a fila final é formada, ele corre para a top.

22:19: Confere o desfile pelo vídeo usado pelo câmera de um canal de televisão.

22:22: Entrevista para o tal canal.

22:25: De volta ao camarim da Gisele, para se despedir.

22:45: Acaba de recolher os últimos produtos para ir embora da Bienal. De lá, para casa. De casa, para a festa da Colcci na Daslu. “Eu conheço todo mundo, tenho que ir”, justifica-se.

Um pouco mais
Arte final

O gaúcho Daniel Hernandez tem uma daquelas profissões que, à distância, parecem fáceis: deixar ainda mais bonitas as beldades que se sentam à sua cadeira. Mas, se ele é hoje uma celebridade no meio da moda, é porque batalha por isso há vinte anos, fazendo penteados e cuidando da maquiagem dos protagonistas de desfiles, editorias e campanhas. Só em Nova York, parada das mais badaladas no circuito da moda, ele trabalhou por quatro anos. Mesmo no ambiente tenso de um camarim momentos antes de um desfile, é capaz de distribuir abraços e arriscar uns passinhos de dança – música alta é indispensável. Mas que ninguém confunda descontração – até no figurino, que pode ser calça camuflada, tênis e camiseta preta – com imprecisão. Daniel é exigente e firme na hora de liderar sua equipe. Não distribui broncas aos gritos, mas, se não gosta do resultado, exige que seja refeito. Uma, duas, três vezes. Ainda que a tensão seja reinante – como no desfile de retorno de Gisele Bündchen às passarelas – ele mantém a pose. Para que elas saiam bem na foto.

(Cristiane Sinatura e Bel Moherdaui)

12/06/2010

às 23:56

O sábado de Zee, um maestro dos bastidores

Diretor de desfile é o responsável por quase tudo, menos a confecção das roupas. A passarela (desenho, montagem, pintura), a iluminação, a música (e o DJ), e até o momento em que cada modelo aparece para o público, é tudo responsabilidade dele. No caso, Zee Nunes, nascido Antonio e apelidado de Zinho ainda em Moçambique, de onde saiu aos 16 anos para morar e surfar na Bahia. Depois da carreira de modelo – com direito a temporadas em Milão –, já são mais de dez anos cuidando de todos os detalhes que permitem uma caminhada tranquila das meninas até a pose para o fotógrafo. Nesta São Paulo Fashion Week, Zee contabiliza quase 20 desfiles. Hoje, serão dois: Adriana Degreas e Ana Salazar.

9:00: Fim das seis horas de sono a que teve direito.

10:00: Bill Macintyre, seu assistente, passa para buscá-lo em casa.

10:05: Parada na padaria para um pão na chapa com requeijão, suco de laranja e café com leite.

10h20: Já no táxi para a Bienal, Bill avisa: “Hoje é dia dos namorados.” Zee lamenta o tratamento dispensado ao dele, o programador de softwares amerciano Gleen Marcus. “Ontem cheguei em casa mal-humorado, coitado. Hoje, nem falei nada. Em época de desfile, não sei nem se é sábado ou segunda.”

10:22: Ligação e pedido de desculpas.

10:40: Chegada à Bienal, começa o trabalho.

11:00: Zee confere a chegada das peças ainda embaladas do cenário da estilista Adriana Degreas, que faz sua estreia na principal semana de moda do país.

11:10: Começa a montagem do desfile da portuguesa Ana Salazar, também se apresentando em São Paulo pela primeira vez.

14:00: A caminho do restaurante, onde planejava almoçar rapidinho, toca o telefone: Giovanni Frasson, stylist da Adriana Degreas, precisa de Zee na prova de roupa, que acontece no hotel Fasano. O almoço terá que esperar.

14:15: No carro, outra ligação e outro problema à vista: Bill acaba de saber que o catering para o camarim da Ana Salazar não fora encomendado. E agora? Zee segue para a prova de roupa, Bill e a outra assistente, Carla Estrela, correm para comprar todo lanchinho possível.

14:25: Chegada ao Fasano. Antes de subir para a sala onde está a modelo Eva Herzigova, estrela do desfile de Adriana, pausa para o quinto cigarro do dia. “Tento aproveitar todo momento fora da Bienal para fumar”, justifica-se.

14:28: Com Giovanni Frasson, na dura missão de escolher quem desfila quando, com qual roupa.

15:00: Sexto cigarro do dia.

16:00: Na volta para a Bienal, parada para buscar Bill, Carla e o lanche das modelos e equipe.

16:10: Até que deu para comprar bastante comida — sanduíches de peito de peru, salame e rosbife. E manter o bom humor.

16:20: Chegada de Zee, equipe e pãezinhos à Bienal. Hora de conferir a montagem das salas.

16:25: Todos sobem a rampa. Menos Zee. Pausa para o sétimo cigarro do dia.

16:40: Tensão na passarela Adriana Degreas: a pintura, feita com tinta automotiva, está arranhada. Vai ser difícil retocar — mas não impossível.

17:07: Ainda bem que as salas dos dois desfiles de hoje são lado a lado, fica mais fácil se dividir entre elas. Zee vai e vem pela terceira vez, checando a montagem dos cenários.

17:20: Conferindo a trilha do desfile Ana Salazar com o DJ Max Blum, na sala 3. Na 2, outras emoções o aguardam.

17:53: Falta uma hora para o desfile da grife Ana Salazar, Zee está desaparecido. A produção toda procura por ele. Cadê?

18:14: Nem sinal de Zee.

18:27: Apareceu! No camarim de Ana Salazar, na hora certa — Paulo Borges acaba de chegar para conferir a organização.

18:36: Não há tempo para um ensaio geral. Zee conversa com as modelos, já vestidas para o desfile, na boca da passarela, e explica o que quer: “É para andar numa boa, uma caminhada maneira, sem parar.”

18:49: Zee dará as orientações à distância, em uma salinha elevada ao lado da mesa de luz e som, em frente à passarela, munido de um fone semelhante ao usado pelas atendentes de telemarketing.

18:52: Um imprevisto. Um atraso. Ele esbraveja lá de cima.

18:59: Anuncia: “Faltam 30 segundos, galera, atenção.” E pede para o operador ao seu lado: “Vai tirando a luz aos pouquinhos, tira o som devagar.”

19:00: Começa o desfile.

19:07: Pelo fone, Zee indica ao assistente Bill, que ficou no camarim, quando cada menina deve pisar na passarela: “Entrou… Entrou… Entrou.” Ele se irrita quando algo dá errado: “Quem é essa que entrou agora?? Se der um tempo diferente entre cada uma, Bill, você acaba comigo.”

19:09: Uma modelo entra com uma blusa transparente, seios mais que insinuados. Ouve-se um assobio na platéia.

19:11: “Está entrando a última agora”, Zee avisa ao operador, que escurece a sala.

19:12: Quando tudo parecia terminado, tensão. A estilista Ana Salazar não consegue entrar com as modelos para saudar a plateia. “Cadê a menina? Cadê Ana Salazar? Cadê ela?”, Zee se exalta. A estilista entra segundos atrasada.

19:13: Palmas.

19:14: Terminado o desfile de Ana Salazar, Zee corre para o camarim de Adriana Degreas, onde estão, de passagem, Paulo Borges e a top Caroline Ribeiro.

19:52: Problemas no cenário de Degreas: um volume alto de confirmações por parte dos convidados, que não era esperado, obriga a produção a colocar mais cadeiras na sala do desfile. Zee vai pessoalmente cuidar do espaço.

19:55: A modelo Shirley Mallmann, que irá ressurgir na passarela de Degreas, quer champanhe Bill, assistente de Zee, tem de se virar para descolar uma taça.

20:06: De volta ao camarim, Zee é abraçado por modelo que carrega uma garrafa de mini champanhe na mão. “Ahahah, estou bêbada.” Ela vai desfilar. Que algum santo fashion a proteja.

20:12: O DJ Zé Pedro, que fará a trilha do desfile, brinca com o figurino de Zee, que veste uma camisa de botão e calças jeans. “Parece um escriturário.” Zee o chama de “Veia”.

20:22: Lembra a camareira Meire que não pode haver atraso. O desfile será exibido ao vivo por um canal pago.

20:31:”Meninas, silêncio!” Zee tenta botar ordem para que Bill, chamando uma a uma pelo nome, forme a fila de entrada para a passarela.

20:37: De volta ao posto de iluminação, é alvo de nova brincadeira do DJ Zé Pedro, que o imita em toda a sua calma (ou falta dela). Ele não se segura. Quando vê uma modelo feia, começa a gritar no fone, “Que bucho é esse?”.

20:39: Zee avisa ao DJ Zé Pedro que falta um minuto para o início do desfile, e pede silêncio aos técnicos de som e de luz, que conversam animadamente.

20:54: Novo estresse com a entrada da estilista.

20:57: Fim do desfile. Zee comemora, cumprimentando a todos. Vai jantar com amigos e “dormir muito”. Não trabalha mais nesta Fashion Week. Agora, só quer saber de Copa do Mundo.

Um pouco mais
Perfil: De guerra em guerra

Na plateia, pouquíssimos o conhecem. Nos camarins, são raros os que não o temem. Mas, por trás da rispidez dos comandos e da cara amarrada, Zee Nunes esconde um homem gentil, com uma responsabilidade enorme. Afinal, poucas coisas, durante um desfile, não dependem dele. Seu papel, aliás, é ser o mais invisível possível – sinal de que teve sucesso. E obstáculos multiplicam-se: um arranhado na pintura da passarela, o atraso de uma modelo, a falta do lanchinho. Zee corre de um lado para o outro, some de um camarim, reaparece no outro, mas sempre tem controle sobre o que faz. Já são mais de dez anos nessa lida. A profissão surgiu meio por acaso, depois de uns anos afastado da moda. Nascido em Maputo, Zee fugiu da guerra civil em direção à Bahia, onde seu estilo (alto, forte e bronzeado) chamou a atenção do estilista Ney Galvão. Convidado, aceitou fazer desfiles esporádicos até estourar na Europa. Só saiu de lá em 1990, expulso pelo novo estereótipo de beleza vigente (o heroin chic), totalmente dissonante do seu. “Estava cheio de contratos, mas foram cancelando um a um. Daí percebi que precisava fazer outra coisa”, lembra. “Voltei ao Brasil, deixei a barba crescer, fiz mais tatuagens. Foi uma ruptura com a vida que tinha, pouco me lembro de quando subia nas passarelas”, conta. A separação com o mundo da moda foi interrompido com o convite da extinta marca Company. “Fui chamado para organizar tudo. Eu não sabia fazer nada, mas aceitei e deu certo”, lembra. Hoje compara sua profissão corrida, onde cada telefonema pode ser o mundo desabando, com um trabalho qualquer. “Para mim já virou trabalho de bancário. Entro em tal horário, saio em tal horário e no meio tempo resolvo uns problemas”, brinca ele, que reserva os olhinhos brilhantes de apaixonado pelo que faz para sua nova empreitada: cinema e fotografia, a que se dedica no pouco, bem pouco, tempo livre.”

(Suzana Villaverde e Maria Carolina Maia)

11/06/2010

às 23:58

A ‘tia’ das modelos: a sexta-feira de Meire Maron

Com 30 anos de moda e 15 de São Paulo Fashion Week – está lá desde os seus primórdios, quando o evento ainda se chamava Morumbi Fashion -, Meire Maron, 50, tem hoje uma extensa rede de contatos, entre diretores de grifes, stylists e modelos, que nunca lhe deixa sem trabalho. Na quinta-feira, por exemplo, ela coordenou o camarim de todos os sete desfiles do evento. Nesta sexta, está ligada a três, Cavalera, Movimento e Fause Haten, e ainda à prova de roupa da Adriana Degreas, que sobe à passarela no sábado. VEJA.com está na rua, acompanhando de perto a correria dessa que pode ser considerada uma “tia” das modelos, que lhe confiam o corpo e os gostos – Gisele Bündchen, por exemplo, deve ganhar dela um pacote de pipoca no domingo. “Ela gosta de milho de canjica”, lembra Meire.

Meire arruma arara no camarim da Cavalera

5:30: Meire acorda para seu terceiro dia de São Paulo Fashion Week Verão 2010. Dormiu menos de três horas. Depois de comandar e arrumar sete camarins, na quinta, chegou em casa às 2h30.

6:00: Meia hora depois, toma um café preto coado e come um pão integral. Tudo ligeirinho. “Época de Fashion Week é assim. Você não faz xixi, não come…”, explica, rindo.

7:00: Meire chega à Casa Panamericana, que será palco, por volta do meio-dia, do desfile da grife Cavalera. Por uma hora e e-meia, prepara o camarim, montando araras, organizando a sequência de roupas – que segue a ordem do desfile, definida pelo stylist da marca – e recepcionando as modelos. O camarim se mostra pequeno para as meninas (são 28, contra 11 garotos) e é transferido para o terraço da casa. As 12 camareiras da equipe de Meire se dividem entre os dois grupos de modelos.

8:30: Parada para um rápido café com bolo, fornecido pela organização do evento.

9:00: Meire termina de arrumar o camarim e faz o que chama de “giro de camareiras: recruta algumas de sua agenda para completar o time que trabalhará no camarim da Movimento, desfile marcado para as 17h30.

Meire ajuda modelo a se vestir para o desfile da Cavalera

11:00: Este é o horário para o qual estavam marcados o início do desfile da Cavalera e o começo da prova de roupas da grife Adriana Degreas, da estilista de mesmo nome. Mas a essa hora Meire e suas assistentes ainda estão vestindo as modelos, já devidamente maquiadas, penteadas e de unhas feitas. No mundo da moda, tudo atrasa – menos o que é tendência.

11:18: Ensaio geral na passarela. Os modelos voltam reclamando da superfície, que é lisa e pode escorregar.Meire providencia adesivos antiderrapantes para as solas dos sapatos.

11:34: Há, em média, uma camareira para quatro modelos, que também recebem os reparos finais de maquiagem. Um chuvisco cai pelo teto vazado do terraço da Casa Panamericana, deixando o cabeleireiro histérico. “Quem resolveu fazer isso aqui fora? Vai c… todo o cabelo!”

11:37: Meire improvisa tapetes para o chão do terraço, que está gelado. Apesar das intempéries, as modelos não perdem o bom humor. Duas se abraçam, dividindo um casaquinho, para se proteger do frio. Outras duas comentam a situação. “Depois dizem que vida de modelo é fácil”, diz uma. A outra, também rindo: “Que modelo não sofre, né?”.

11:43: Os modelos começam a formar a fila para a entrada no desfile. São alvos de fotos e retoques. Hora de colocar os brincos, meninas.

11:57: Tem início, enfim, a apresentação da coleção verão da Cavalera. O som é alto, e é tudo o que Meire consome do desfile. Enquanto os modelos tomam a passarela, ela adianta assuntos dos outros trabalhos por telefone com a filha, Carolina, que é sua assistente, e começa a arrumar o camarim.

12:12: Os modelos voltam, se trocam com a ajuda das camareiras e seguem para outros compromissos. “Época de Fashion Week é assim.”

13:07: Meire chega à prova de roupa da grife Adriana Degreas, no hotel Fasano. A prova havia começado cerca de quarenta minutos antes, mas ainda dá para Meire entrar e dar uma mão às modelos.

Meire na prova de roupa de Adriana Degreas

14:20: Meire deixa o hotel Fasano a caminho da Fundação Bienal, palco da São Paulo Fashion Week. Vai sempre de táxi. O trânsito é intenso e o plano de almoço é abortado.

14:52: Chega à Bienal, onde poderá se deliciar com um menu enxutíssimo no camarim da Movimento: 1 palitinho de queijo e um brownie “delicioso”. Pelo menos, isso. Almoçar, talvez só quando a Fashion Week acabar.

15:02: Arrumação do camarim. É quando se organizam as araras e o mapa (foto abaixo), mural com as fotos dos modelos e os respectivos figurinos que vestirão – ordenadas conforme a lista do desfile.

16:15: No camarim da grife Movimento, Meire cola as fotos das modelos, entregues a ela pelo stylist Pedro Salles, nos figurinos há pouco pendurados nas araras.

16:58: Hora de trocar os cursores dos sapatos cujo zíper, na prova de roupa realizada na quarta-feira, fizeram jogo duro para subir. Nos últimos dois dias, deu tempo de o fornecedor enviar novos cursores do Rio para as meninas desfilarem com segurança e, é claro, com elegância.

17:22: Modelos começam a se vestir para o desfile, com ajuda das camareiras de Meiroca, como alguns chamam a regente do camarim.

Meire fecha colar de modelo para o desfile da Movimento

17:48: Meiroca faz papel de tia e fotografa modelo a pedido da própria.

18:07: Chegam, pelo ar, as derradeiras coordenadas do desfile. “Atenção, meninas, vocês vão entrar pela passarela à direita, dar uma parada e sair pela esquerda”, avisa a voz empostada de Bill, assistente de Pedro Salles. Tranquila, Meire conversa com duas modelos que, da fila, contam a ela as últimas novidades em bronzeamento artificial.

18:09: Calmo e discreto, o empresário Paulo Borges, organizador da semana de moda, passa pelo camarim para checar se está tudo nos conformes e desejar boa sorte.

18:11: Começa o desfile.

18:14: A modelo que puxava a fila retorna ao camarim. Entra correndo para a troca de roupa e Meire, que já a esperava com uma espécie de canga na mão, a cerca com o pano, fazendo “cabaninha”.

18:23: O camarim vai aos poucos voltando a ficar cheio de modelos. Elas entram ligeiras sobre os saltos. Trocam de roupa, recebem nova dose de laquê e uma nova camada de hidratante – para brilhar na passarela. É uma espécie de pit-stop da Fashion Week.

18:24: Nova fila formada. Nova entrada.

19:03: Meire deixa a Bienal. Vai para casa, descansar um pouco, para depois voltar à prova de roupa de Adriana Degreas, no hotel Fasano.

Perfil: Moda virou profissão de família

Meire Maron tem 50 anos, 30 deles dedicados à moda. Nesse tempo, formou diversas camareiras e a própria filha, hoje sua assistente e braço direito. O filho também passeia pelo mundo fashion: transporta roupas de grifes nas semanas de moda, faturando um extra.

Nesses 30 anos, Meire formou também uma comprida agenda comprida, por onde dá um “giro” quando precisa montar uma equipe para um desfile ou quando precisa falar com algum cliente. A agenda é uma vasta arara de contatos, que lhe fornecessem um vasto número de serviços. uando não está na São Paulo ou na Rio Fashion Week, está em algum desfile fora de época, que as lojas e grifes organizam por conta própria.

Os anos de imersão no universo da moda também lhe renderam amizades e intimidade com nomes como Gisele Bündchen, que considera “um amor”.

Ágil, realiza uma série de coisas num só tempo, e comanda uma equipe de dezenas de pessoas (foto abaixo), sem perder a calma. É por isso que é querida no meio, onde muitos a chamam de “Meiroca”.

(Maria Carolina Maia)

10/06/2010

às 23:42

História de uma gata: a quinta de Luana Teifke

Nascida em Sertão Santana, no Rio Grande do Sul, Luana Teifke é modelo há três anos e agora mora entre São Paulo e Nova York. Nesta temporada, deve fazer cerca de 20 desfiles. Só na quinta, estararia em todas as passarelas – mais algumas provas de roupa e ensaios. Agitado, o dia começou cedo:


6:00:
O despertador do iPod, alto – ela agora mora sozinha – disparou de Beyoncé. Foram cinco horas de sono, mas pareceu que tinha sido até mais

6:45: Após um iogurte com cereal e café, Luana saiu de casa. Em São Paulo, 11 graus.

7:08: Chegada à Bienal, para o ensaio da Ellus

8:00: Até todo mundo chegar, demora. O ensaio começou com meia hora de atraso.

9:43: Chegada ao Iguatemi. Preparar para Iodice.

10:00: Maquiagem pronta, agora é o cabelo — bem preso, em um rabo de cavalo.

10:58: Terceiro café do dia.

11:10: Teste do sapato. O dela serviu direito, que bom! Se sobra um pouco, aumentam as chances de tombo na passarela. Se falta, a dor é certa.

11:40: Ensaio. Dessa vez, não tem muito segredo. E só seguir o percurso da sala.

13:00: Na fila para o desfile, pose para os fotógrafos.

13:11: Começou Iódice. São duas trocas de roupa.

Assista aqui a Luana pronta para entrar na passarela da Iódice.

13:26: Acabou. Palmas para a equipe. (Veja aqui.)

13:27: Agora é trocar de roupa rápido e correr para a van. Não dá nem tempo de esperar o elevador, modelos em fila, todo mundo descendo as escadas e atravessando as lojas para chegar logo na rua.

13h41: Na rua, com as colegas de agência, esperando a van para ir para a Bienal.

13h55: Almoço? E manter a forma como? Direto para o próximo desfile. Com o trânsito, o jeito é aproveitar para tirar uma sonequinha.

14h48: No camarim, uma sopinha para tapear a fome. Só cuidado para não estragar o batom.

14:50: Bate papo com as amigas. Não dava tempo daquele almoço, mesmo?

14h55: Unhas feitas. De novo.

15h15: Hora de vestir. Ou despir. O primeiro look da Ellus era lingerie. No camarim, o nervosismo é grande: o desfile começa com as modelos já na passarela.

15:45: Começou Ellus.

15:53: Volta ao camarim para a troca de roupa — cinco camareiras para ajudar. Coloca o shorts, a bata, o colar e vai.

15:56: Volta para outra troca de roupa — seis camareiras. De novo o primeiro vestido.

15:59: Última troca, 28 segundos, recorde!

16:06: Correr para Água de Coco. A maquiagem ela tira no caminho, enquanto dispara pela rampa externa da Bienal (o atalho das modelos).

16:18: Sorvete com maquiagem (isso é que é dieta equilibrada).

16:40: Mais um ensaio. A passarela da Água de Coco tem espelhos d’água, cuidado para não cair!

Assista aqui a Luana no ensaio da Água de Coco.

17:30: Não vai ser dessa vez que Luana vai mostrar o bronzeado adquirido em Nova York (em câmaras de bronzeamento artificial, daquelas bem cancerígenas), o look é um longo caftan colorido.

Assista aqui a Luana no desfile da Água de Coco.

18:33: Já no camarim do Alexandre, terceira troca de esmalte do dia — este é verde, mesma cor da tinta no cabelo.

19:05: Últimos retoques (desfile atrasado).

19:14: Na passarela do Herchcovitch.

19:20: Fim do desfile, sprint até a próxima sala.

19:24: Essa tinta verde e esse laquê, só lavando o cabelo.

19:36: O vigésimo café do dia, no camarim da Cori.

20:36: No caminho entre Cori e Osklen, algodãozinho com demaquilante a postos, a primeira cantada do dia: “Não tira que eu gosto assim.”

20:37: Pausa para um meio sorriso.

20:40: Nova camada de base, outra de sombra, um tanto de máscara e os olhos já estão ardendo. Fome? O chiclete engana.

21:20: Ainda sobra um resto de energia para fazer caras e bocas para os fotógrafos no backstage, enquanto o desfile não começa.

21:28: Chegou a vez de Luana mostrar a água da Osklen.

21:39: Fim do desfile, disparada para a Triton.

21:41: Meia volta. O roupão que ela ganhou de presente (no camarim da Água de Coco) ficou. Único brinde do dia, não dá para dispensar.

22:05: Na Triton, batom bem vermelho e olho cheio de delineador. Paris Hilton, colega de passarela, tem direito a camarim exclusivo, não se mistura, mas passa para dar um “Hey, beutiful!” e deixa Luana feliz. “Se ela tem camarim próprio, é mérito dela. Um dia quero ter chegar lá também”, diz.

22:50: Fim do desfile. Mas, para ela, o fim ainda está longe. Mais duas provas de roupa entre Luana e a cama. Na saída, correndo, escorrega na rampa molhada de chuva e quase cai. “É pra fechar bem o dia”, brinca.

23:10: Início da prova de roupa da estilista Ana Salazar. “O segredo é chegar cedo para ser uma das primeiras e conseguir ir logo para a próxima”, diz Luana.

00:00: As amigas entoam o “Parabéns a você”, sem bolo, mas com alguma animação. Luana completa 19 anos em plena correria.

1:10: Segunda prova de roupa (Animale), último compromisso do dia.

2:40: A caminho de casa, ufa!

3:00: Banho.

3:05: Cama.

Um pouco mais
Perfil: A passos largos

Último desfile do dia (crédito: Tricia Vieira/AE)

Modelo que tem planos de ir longe (leia-se para Nova York e Paris) tem que estar pronta para enfrentar as intempéries (variadas recusas, longas esperas, muitas bolhas nos pés), e ainda sorrir para a foto. Luana Teifke tem caprichado na pose. A carreira só decolou na segunda tentativa, e dependeu do impulso de uma tia que embarcou com ela para São Paulo para falar com uma agência. Desde então, já foi para o Japão (espécie de supletivo na carreira de uma modelo, quando aprendem muito em pouco tempo) e Estados Unidos. Em São Paulo, participa da sua sexta temporada de moda, o que já lhe garantiu um cachê bem acima da média, na categoria especial (cerca de 3 000 reais por desfile). Isso ameniza, mas não muda o efeito de um dia sem comer, de uma noite sem dormir, do excesso de maquiagem no rosto e de produtos no cabelo. Ou mesmo de um aniversário sem bolo e sem a família por perto. “Gosto muito do que eu faço e hoje já aprendi como é bom estar correndo de lá para cá, sempre vendo gente. Cada desfile é diferente do outro e estou sempre aprendendo”, diz ela. “Só não gosto quando não nos tratam bem: deixam esperando muito tempo na prova de roupa, esquecem que tirar e colocar tanta maquiagem machuca o rosto, nos deixam de roupa curta no frio. Tem que manter o respeito”, avisa, sorriso ainda na cara, apesar do cansaço. O dinheiro arrecadado com a maratona (vale lembrar que a agência fica com uma parte, e descontos são recorrentes), ela pretende usar para comprar seu primeiro apartamento, além de ajudar os pais (ele, eletricista aposentado, ela, responsável pela loja de móveis da família). De presente de aniversário, um desejo: “Queria ir comer em um restaurante. Mas não vai dar tempo. Quem sabe quando acabar a semana.”

(Bel Moherdaui e Cristiane Sinatura)

09/06/2010

às 23:47

O poderoso chefão: a quarta-feira de Paulo Borges

Paulo Borges, espécie de generalíssimo da São Paulo Fashion Week, é o personagem que inaugura a seção “O Povo da Moda”, com registros da sua rotina durante todo o dia de abertura do evento.

6:50: Hora de levantar para levar o filho, Henrique, de 4 anos, para a escola. Compromisso de que Paulo não abre mão, mesmo na correria.

8:00: “Bom dia, followers!! Hoje começa o meu descanso!! Sorte e sucesso para todos!” Primeiro post do dia no Twitter, no qual ele tem mais de 3 000 seguidores.

8:20: Um assessor o espera em casa, com uma pilha de jornais e as principais notícias sobre a SPFW.

8:50: Café da manhã leve (suco, frutas, pão e entrevista), em casa.

9:30: Segundo café da manhã – não tão leve assim – , oferecido por uma marca parceira a jornalistas e convidados, em um show room nos jardins.

10:32: Ligação da embaixatriz da Itália, Antonella La Francesca: ela quer assistir ao desfile da Iódice.

11:00: Reunião no escritório da Luminosidade, empresa de Paulo Borges, com o executivo francês Armand Hadida, que organiza feiras internacionais de moda.

12:40: Chega um recado de que a entrevista com o candidato a presidente José Serra será antecipada em meia hora, para as 14h. Serra assistirá ao desfile de abertura, Tufi Duek.

12:50: Chegada à Bienal.

12:53: Teste do escorregador. Aprovado.

13:00: Parada para almoço, no restaurante do MAM.

14:00: José Serra cancela a entrevista a Borges e a visita à Bienal. Rapidamente, o assessor encaixa uma entrevista do empresário, a segunda do dia, a primeira para a televisão.

14:20: Visita ao camarim da marca Tufi Duek, onde inspecionou os preparativos, posou para fotos e tuitou.

15:00: É avisado de que a primeira dama do Estado de São Paulo, Deuzeni Goldman, está atrasada e só chegará para o segundo desfile.

15:27: Recebe no Twitter uma mensagem da candidata Marina Silva, entrevistada por ele na terça-feira.

15:50: Começa o primeiro desfile.

16:00: Segunda reunião com o francês Armand Hadida.

17:51: Já na sala do desfile Priscilla Darolt, a décima entrevista do dia.

18h06: Paulo liga para o filho, que está em casa assistindo ao filme O Máscara. Hoje, não vai dar para vir à Bienal.

18h09: Começa o desfile da estilista Priscilla Darolt. Mais uma vez, ele assiste em pé.

18h22: Início do debate sobre arte e moda entre Paulo Borges, o hoje artista plástico e estilista bissexto Jum Nakao, e o professor de história da moda João Braga. Mediação do jornalista Alcino Leite Neto.

19:35: Encontro com a irmã Graça Cabral no camarim da Rosa Chá.

19:50: Reunião com a equipe da Osklen. Eles querem mais espaço para os fotógrafos na sala.

20:42: Na sala da Reserva, pronto para mais uma entrevista.

21:30: Depois de muito tuitar, pausa para um passeio na roda-gigante da SPFW.

23:32: Em casa, já descansando, depois de um dia puxado.

Um pouco mais
Depois de “Anima”, Paulo Borges prepara “Alma”


A constante presença de retratos em branco e preto não diminui o colorido do apartamento do empresário Paulo Borges, um amplo imóvel que ocupa todo um andar de um antigo prédio da Bela Vista, em São Paulo. Antes, faz realçar suas cores, distribuídas entre bonecos populares de barro, a Betty Boop recém-adquirida em uma loja de brinquedos e uma roda gigante que, talvez inconscientemente, tenha servido de base à 29ª edição da São Paulo Fashion Week. O principal evento brasileiro da moda, de que Borges é realizador, desta vez tem por tema “Anima”, que, para os psicólogos, é a parte humana em contato com o inconsciente. E uma roda-gigante no cenário.

“Eu adoro roda-gigante, e ter uma no São Paulo Fashion Week era um desejo antigo, mas acabou sendo uma coincidência, porque a cenografia foi assinado foi assinada pela Daniela Thomas, e ela nunca esteve na minha sala”, conta o empresário.

São apenas oito e vinte da manhã, e o assessor de imprensa da SPFW já está na sala colorida de Borges, à sua espera, com uma pilha de jornais do dia e matérias selecionadas sobre o evento, que começa dentro de algumas horas. “Essa coluna destaca a presença de uma modelo que é atiradora do Exército de Israel”, diz Roberto Ethel, apontando o jornal a seu cliente, que volta para casa depois de levar o filho Henrique – um xodó adotado na Bahia, “para ter certeza de que era afro-brasileiro” – à escola.

Pouco depois, chega o assistente, Gabriel, com a agenda de Borges. É hora de partir para o do café-da-manhã de uma grife parceira da SPFW, de onde o empresário sairá voando para uma reunião com o francês Armand Hadida, futuro parceiro da semana de moda. O encontro acontece na sede – outro belo imóvel antigo – da Luminosidade, a empresa de Borges. De lá, os planos são almoçar e aportar na Fundação Bienal, onde, antes do desfile de abertura do evento, Borges entrevistará o presidenciável tucano José Serra – parte de um projeto seu de entrevistar, para o site da Luminosidade, os três principais nomes da corrida presidencial.

No caminho para a empresa, enquanto Seu Maciel, o motorista, conduz o carro, Borges tuíta – é um vício, embora ele negue –, talvez para aplacar a ansiedade – que ele também nega – e aproveita para mostrar fotos do pequeno Henrique, 4. O menino é marca da sua ligação com a Bahia, onde possui um apartamento (em Salvador, há dois anos) e uma casa (em Arembepe, “que Janis Joplin conheceu”, há quase dez anos). E frequenta o estrelado terreiro do Gantois, onde muitas personalidades já tiveram lugar cativo. “Sou filho de Oxum e de Ogum”, diz ele, espremido no banco de trás do carro entre o assistente e a repórter. “Isso é de Logunedé, o Ogum feminino”, afirma, mostrando um colar de contas azul e dourado.

Do banco do passageiro, Ethel faz uso de sua voz grossa para repassar as últimas novidades chegadas pelo celular. “A primeira dama do estado confirmou presença no desfile de abertura.” A mesma voz forte anunciaria depois, na saída da Luminosidade, que Serra teria de adiantar a entrevista em meia-hora. Gabriel consulta a agenda de Borges e logo se decide: o almoço, que aconteceria fora do parque Ibirapuera, vai ter de ser por lá mesmo, para que Borges não corra o risco de perder o novo horário.

É quase uma hora da tarde quando o empresário chega à Bienal. O cenário não lhe é novidade, mas, a pedido de fotógrafos, brinca na piscina de bolinhas do saguão principal. E parte para o almoço com o assessor e o assistente. E a repórter, é claro, que está sempre na sua cola. Come rápido e à toa: Serra cancela sua visita à SPFW. O candidato do PSDB ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, outro esperado, também cancela. Se desfaz a primeira fila tucana que estava sendo montada para o desfile de abertura, da Tufi Duek.

O resto da tarde é reunião-desfile-reunião-backstage – poderia se dizer apenas camarim, mas o povo da moda adora nomes em inglês. Uma das coleções que mais parece lhe agradar é a da Rosa Chá, assumida recentemente pelo estilista Alexandre Herchcovitch. “Deixou de ser moda praia”, avalia, no camarim, enquanto as modelos se vestem para a passarela, os maquiadores as cercam com cintos carregados de cosméticos e os cabeleireiros disparam fumacentas doses de laquê sobre suas cabeças. “Virou beach couture”, diz, mesclando dois idiomas: o inglês de praia (“beach”) e o francês de costura (“couture”, nesse caso, uma palavra emprestada da expressão “haute couture”, alta costura). “Está lindo.”

A França, aliás, é um país sempre presente entre o povo da moda. “Meu sonho é ver um desfile”, diz Gabriel. “Mas você já viu um monte”, responde Borges. “Mas meu sonho é ver em Paris.” O empresário ri e lembra que o sonho de Gabriel era trabalhar com ele, Borges. “Mas o ser humano é assim, nunca está satisfeito”, conclui.

Nove e meia da noite, a poucos minutos para o último desfile do dia, Borges atende à vontade da reportagem e sobe na roda-gigante, para fotografias. “É a anima”, diz Borges, que depois desta edição da SPFW deve se jogar num projeto chamado “Alma”: um livro, acompanhado de documentário e exposição, sobre a africanidade na Bahia, em Cuba e, é claro, na África. O projeto, “em múltiplas plataformas”, deve ficar pronto até o primeiro semestre de 2011. “Quero mostrar como a cultura africana se disseminou e influenciou outros povos”, conta Borges, o poderoso chefão do povo da moda.

(Maria Carolina Maia)

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados