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12/07/2010

às 14:51 \ Vida literária

Para escrever uma boa resenha

Pensando em como ajudar os leitores que quiserem participar do concurso de resenhas promovido aqui no vizinho “Veja Meus Livros” (saiba mais), lembro-me das cinco regras para uma boa crítica jornalística formuladas há décadas pelo escritor americano John Updike, que morreu ano passado.

Uma resenha no fundo é um gênero fundamentalmente livre. Ressalvada a obrigação de trazer informações básicas sobre o livro em questão, vai ser tão boa quanto a leitura de quem a escreve. Isso quer dizer que não se trata de uma receita a ser seguida passo a passo, mas vale pelo menos refletir sobre os toques do autor do recém-relançado (pela Companhia de Bolso) “As bruxas de Eastwick”:

1. Tente entender o que o autor quis fazer, e não o culpe por não conseguir fazer aquilo que não tentou.

2. Transcreva trechos da prosa do livro em extensão suficiente – pelo menos uma passagem mais longa – para que o leitor da resenha possa formar sua própria impressão.

3. Confirme sua descrição do livro com uma citação do próprio, mesmo que só uma frase, em vez de fazer apenas um resumo vago.

4. Vá devagar com o resumo da trama, e não entregue o fim.

5. Se o livro for considerado deficiente, cite um exemplo bem-sucedido de outro que vá na mesma linha, seja ele tirado da obra do mesmo autor ou de outro. Tente compreender o fracasso. Tem certeza de que o fracasso é do autor e não seu?

A simplicidade das regras de Updike chega a ser desconcertante, mas é enganadora também. Há muito mal-entendido sobre o papel da crítica jornalística, do discurso sobre a literatura que busca atingir um público tão amplo quanto o dos leitores potenciais de livros, em vez de se fechar no jargão rarefeito da crítica acadêmica. Sobre o assunto, vale lembrar o artigo publicado recentemente no jornal “O Globo” pela professora Flora Sussekind e a minha resposta no mesmo jornal.

A verdade óbvia que Updike ajuda a demonstrar é que sem boas resenhas jornalísticas – ou seja, apreciações breves porém honestas, sóbrias, inteligíveis, generosas com autores e leitores – a Grande Conversa Literária não vai a lugar nenhum, não circula pela sociedade, não permeia a cultura. Vira cochicho entre sábios.

Escritor que passou a vida se alternando com a mesma elegância entre as funções de pedra e vidraça, entre seus próprios livros e resenhas publicadas na imprensa, Updike sabia algo que no Brasil – país cordial em que poucos escritores estão dispostos a arriscar o pescoço como resenhistas – às vezes esquecemos: que a literatura vem em primeiro lugar, sempre. A crítica segue atrás.

É aí que entra a melhor contribuição de Updike a esse papo: sua sexta regra, acrescentada na última hora como uma espécie de P.S., é uma bela declaração de amor à literatura e um antídoto contra a tentação da crítica prescritiva e arrogante que, com boa ou má-fé, todos nós corremos o risco de escrever quando nos julgamos, como ele diz, “guerreiros de uma batalha ideológica” em vez de simplesmente, humildemente, miseravelmente… leitores:

A essas cinco regras concretas eu poderia acrescentar uma sexta, mais vaga, que tem a ver com manter a pureza química da reação entre produto e avaliador. Não aceite para resenhar um livro do qual esteja predisposto a não gostar, ou comprometido por amizade a gostar. Não se imagine como o guardião de alguma tradição, um capataz dos padrões de conduta de um partido, o guerreiro de uma batalha ideológica, um agente penitenciário de qualquer tipo. Nunca, nunca (…) tente pôr o autor “no seu devido lugar”, transformando-o em peão de uma disputa com outros resenhistas. Critique o livro, não a reputação. Submeta-se a qualquer feitiço, fraco ou forte, que esteja sendo lançado. Melhor elogiar e compartilhar do que acusar e banir. A comunhão entre o resenhista e seu público se baseia na presunção de certos prazeres possíveis da leitura, e todos os nossos juízos devem se curvar a esse fim.

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» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

7 Comentários

  1. John Kloh

    -

    13/03/2013 às 20:53

    Achei muito bom. Estava Precisando de uma ideia e a VEJA me ajudou bastante.

  2. José Carneiro Nascimento

    -

    02/03/2012 às 22:16

    Uma boa reportagem para a VEJA, seria comentar a falta de promotores de Justiça no Brasil. Pequenas cidades como a minha querida Itapecerica, Minas Gerais, sofre pela falta de um representante do Ministério público.Já reclamamos com as autoridades, promovemos uma audiência pública, porém as autoridades que controlaram a audiência, não deixando as pessoas manifestarem verbalmente. Reunimos os maçons e rotarianos e falamos com uma corregedora de justiça pedindo um representante do ministério público,não tivemos nem resposta. Estamos com um abaixo assinado com quase 5.000 asssinaturas pronto para entregar para as autoridades estaduais, solicitando um promotor de justiça para ficar estabelecido em nosso município.Vivemos o caos, drogas correm solta, assassinatos,roubo a residências, sítios e fazendas. A população está apavorada com a impunidade. Polícia prende o Juiz solta.Hoje passamos pela vergonha de ouvir bandidos dizerem que o Juiz é o titio deles. Nunca pensei que uma cidade pacata de 20 mil habitantes pudesse um dia chegar ao nível elevado de drogas e criminalidade como encontra-se atualmente.As pessoas com poder aquisitivo elevado transformam suas residencias em verdadeiras fortalezas, com vários sistemas de segurança, pois os bandidos vivem soltos e dão rizadas e abusam pela falta de rigor do Juiz e falta de um promotor que é o defensor da população. Por outro lado também não há interesse das autoridades em ter um promotor de justiça estabelecido na cidade, pois ele não será subordinado a eles, e assim, poderá além de fiscalizar, denunciar os desmandos e para não dizer até denunciar o abuso de autoridade. Os consumidores de craque estão invadindo residencias para roubarem, os que mais sofrem são os idosos e pessoas que moram sozinhas e são vítimas fáceis. Durante o período de carnaval invadiram a casa de um idoso e o assassinaram com extrema crueldade, alguns dias depois bandidos fortemente armados invadiram uma residencia, alguns mascarados(acredito que da cidade) outros não. Invadem sítios, como fizeram com um amigo meu, bateram nele e na filha. Todos esses bandidos estão soltos e convivendo no nosso meio e nada podemos fazer. Coloco-me à disposição, sou maçom e rotariano e acredito que outras pequenas cidades vivem o mesmo drama inclusive sem promotor de justiça para defender a população. Caso interessem pela matéria Itapecerica-Minas Gerais seria um bom ponto de partida. E$stamos localizados no centro oeste mineiro, 60 km de Divinópolis, 40 Km do município de Claudio, terra da esposa de Tancredo Neves,onde o AÉCIO NEVES tem fazenda. DEUS SALVE ITAPECERICA.

  3. Edilma,

    -

    18/12/2011 às 17:14

    Obrigada Sérgio Rodrigues!
    Suas dicas me ajudaram bastante para fazer um ótimo trabalho.

  4. Rafael

    -

    12/08/2011 às 16:02

    Diego,

    Tenho certeza que fará uma ótima resenha escrevendo ‘conserteza’.

  5. Maria Lúcia Ramos

    -

    18/07/2010 às 17:38

    Valeu Sérgio Rodrigues!
    Das dicas que vc. passou, depreende-se que, como prá quase tudo na vida, não existem ” receitas”… e isso já é um bom começo. Vamos lá. Obrigada.

  6. Diego Alberto da Rosa

    -

    14/07/2010 às 7:37

    Obrigado Sérgio Rodrigues!

    Quero participar deste concurso de resenhas, e estas dicas que você publicou em vosso blog sobre John Updike conserteza irá nos ajudar a vazer um bom trabalho, uma boa resenha.

    Obrigado e um abraço.

 

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