08/08/2010
às 18:46 \ Vida literáriaLiteratura brasileira como (fraco) produto de exportação
O alemão Berthold Zilly, tradutor de Euclides da Cunha e Machado de Assis, e o americano Benjamin Moser, de recente sucesso com sua biografia de Clarice Lispector, chamada “Clarice,”, discutiram por que a literatura brasileira tem presença relativamente discreta no cenário internacional. O penúltimo encontro da Flip, numa Tenda dos Autores esvaziada pela debandada de domingo, foi simpático, com os dois falando um português mais que decente. E levou a uma conclusão de ululante obviedade: o Brasil investe muito pouco, em termos institucionais, na divulgação de sua literatura no exterior. Até chegar a esse lugar comum, entretanto, a conversa trilhou caminhos interessantes, que incluíram uma “defesa” de Paulo Coelho feita por Moser (o que lhe valeu um incompreensível princípio de vaia) e a informação, dada por Zilly, de que foi convidado – mas ainda não aceitou – a fazer uma nova tradução de “Grande sertão: veredas”. Abaixo, alguns trechos do debate:
BERTHOLD ZILLY
“Uma importante editora de Munique me pediu para fazer uma nova tradução do ‘Grande sertão: veredas’, mas ainda estou pensando se quero me enfurnar por dois ou três anos. É um tempo em que eu não poderia aceitar um convite como este da Flip, por exemplo.”
“A literatura brasileira está presente desde o século 19 na Alemanha, principalmente com José de Alencar, Gonçalves Dias, mas isso foi traduzido sob a ótica do exótico e se esqueceu. Depois, a partir dos anos 1950, começou outra recepção, principalmene com Machado, aí já sob uma ótica mais moderna. “
“Muitos países têm institutos culturais fortes, o Brasil não. A Catalunha, que é uma província da Espanha, gasta dez vezes ou mais do que o Brasil na difusão de sua cultura na Alemanha, e nem é um país. A Argentina tem três vezes mais autores traduzidos para o alemão.”
“Há muitos estereótipos na imagem que se tem do Brasil, como um país exótico, erótico, de cultura popular forte e natureza exuberante, que são um pouco a imagem projetada pelo Brasil em sua propaganda turística. Foi Machado quem ajudou a ensinar aos alemães que o Brasil é também um país profundamente urbano.”
BENJAMIN MOSER
“Os brasileiros têm vergonha do Paulo Coelho, e não deveriam ter. Se os Estados Unidos fossem ficar com vergonha de toda m… cultural que a gente exporta… O mundo é grande, os interesses são variados, nem todo mundo precisa gostar da mesma coisa.”
“Não fiz esse livro [“Clarice,”] com a ideia de divulgar o Brasil, não sou tão ambicioso, mas o Brasil é muito fácll de vender, tem muita coisa atraente. Eu tenho uma ideia muito simples para promoção do Brasil: trazer as pessoas. Lá fora existe uma ideia muito limitada do país, e não estou falando de pessoas mal preparadas ou idiotas. Ficam com medo, acham longe, caro, que vai ter pivete na rua. Já trouxe umas cinquenta pessoas aqui, amigos e gente de mídia, e todos saem encantados. Acabam virando embaixadores do Brasil.”
“Existe a ideia da literatura brasileira como uma coisa só. Não é assim. Clarice pode ser vendida como brasileira, mas também como literatura feminina, para dar um exemplo. A ideia brasileira é uma classificação possível, mas não é a única. Não é assim que o leitor lá fora percebe as coisas. Na Holanda, onde moro, ninguém vai procurar uma obra de literatura brasileira, vai procurar a obra de fulano de tal. É bom ir pela qualidade dos autores e não pelo passaporte.”
Tags: Benjamin Moser, Berthold Zilly, Clarice Lispector, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Paulo Coelho


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2 Comentários
Eric Poète
-30/10/2010 às 19:28
Sérgio,
Quanto ao Berthold Zilly, você tem algum contato dele ou de alguém próximo dele; alguma forma de conseguir contatá-lo, direta ou indiretamente?
Estou trabalhando na divulgação de um documentário sobre os Sertões, da premiada documentarista Cristina Fonseca; que da última vez que falou do tema, foi convidada pelo Berthold para o festival de cinema de Berlinae.
Me responda por e-mail, por favor; ericdrummk@yahoo.com.br
Aguardo atenciosamente,
Eric Poète.
J.Paulo
-08/08/2010 às 19:34
Quem se interessa por esse assunto de pessoas que fazem uma “ponte” entre literatura brasileira e o mundo anglo-saxão, sugiro pesquisar sobre um alemão chamado “Thomas Sträeter” – participou do Simpósio sobre Machado de Assis, quando da comemoração do centenário. Fala um português fluentíssimo (melhor que eu), e a participação dele no simpósio foi assaz interessente. Quem se interessar pode assitir ao vídeo: http://www.tbr.com.br/webtv/cedoc/machado_de_assis/. Teve também outras participações interessantes dentro da crítica estrangeira, como o francês, senhor Massa.
Continua nos informando a respeito da Flip 2010, Sérgio. Um abraço!