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11/07/2011

às 11:37 \ Vida literária

Balanço: a palavra errada (nazista) e o homem certo (Mãe)

Fotos de Walter Craveiro/Divulgação

Se o curador da Flip 2011, o crítico literário Manuel da Costa Pinto, tivesse optado por outra palavra negativa para qualificar a participação constrangedora do cineasta francês Claude Lanzmann (foto), responsável pelo pior momento da festa, teria prestado um bom serviço à história do evento. Pode-se argumentar que esse não era seu papel como curador, mas o fato é que Lanzmann merecia uns cascudos. E o vocabulário da crítica é suficientemente vasto para que alguma palavra justa fosse encontrada.

Ao optar por chamar de “nazista” um judeu que foi combatente da Resistência Francesa e realizou o referencial documentário “Shoah”, sobre o Holocausto, Costa Pinto viu-se obrigado a pedir desculpas e levou para uma penosa prorrogação o constrangimento inaugurado pela truculência com que Lanzmann humilhou repetidamente seu entrevistador, Márcio Seligmann-Silva, e desrespeitou o público na mesa de sexta-feira chamada “A ética da representação”.

Não faltariam adjetivos mais adequados para seu desempenho: deselegante, arrogante, prepotente, desagradável, descortês, indelicado, grosseiro, ofensivo, rude, desrespeitoso, mal-educado, intratável, truculento, tirânico. Com um pouco de ironia, quem sabe até funcionasse uma fórmula politicamente incorreta como “profundamente francês”.

Não é de hoje que se vem banalizando entre nós o uso das palavras nazista e fascista, equiparadas, em discursos levianos e perigosamente esvaziados de história, a ofensas infantis como bobo e feio. Neste caso, Lanzmann foi um alvo especialmente inadequado – e isso também tem a ver com a “ética da representação”.

O deslize vocabular foi repudiado pela organização do evento e despertou uma reação enérgica do editor de Lanzmann, Luiz Schwarcz (assim “fica difícil colaborar com a Flip”), expondo fraturas e tensões que, no mínimo, tornam incerta a permanência de Costa Pinto no cargo.

*

Walter Craveiro/DivulgaçãoSe nazista foi a palavra errada, o escritor português de origem angolana Valter Hugo Mãe foi o homem certo no lugar certo e na hora certa, deixando a Flip como o autor que melhor proveito soube tirar dessa plataforma de lançamento em toda a sua história.

(Sim, em 2004 houve o caso de José Eduardo Agualusa – curiosamente, também de Angola – que viu sua popularidade explodir na Flip. Mas aquele episódio, se por um lado pareceu mais fortuito, por outro deveu-se à chancela entusiástica de Caetano Veloso, que entrevistou o escritor e o cobriu de elogios no palco. “Assim, até eu”, comentou na época um escritor brasileiro sem nome e sem padrinho.)

Os 500 exemplares do romance mais recente de Mãe, “a máquina de fazer espanhóis”, levados para Paraty pela editora Cosac Naify, esgotaram-se ainda no sábado. Mulheres de todas as idades, mas sobretudo mais velhas, suspiravam pelas ruelas da cidade pelo quase quarentão careca de fisionomia severa. “Fofo” foi o adjetivo mais ouvido.

O que poucos sabem é o quanto o fenômeno Mãe teve de planejado. Valter Hugo veio à Flip para conquistar o Brasil. Trouxe um cinegrafista a tiracolo, para registrar cada um de seus passos. A declaração de amor ao país que escreveu para ler no palco, e que o levou – e a parte da plateia – às lágrimas, parecia profundamente sentida, como provavelmente era, mas também informada pela consciência de que os brasileiros não costumam deixar passar uma boa oportunidade de se vestir de verde e amarelo e, contemplando o pavilhão, chorar de trêmulo orgulho.

O carisma do escritor fez o resto, bem como sua disposição para entrar nas brincadeiras: sábado à noite, no coquetel oferecido por sua editora a bordo de uma escuna no porto de Paraty, cantou a capella um fado de Amália Rodrigues; domingo, participou (foto) da bagunça comandada por Zé Celso.

O resultado de todo esse marketing seria fugaz se a literatura de Valter Hugo Mãe não fosse realmente interessante. Mas é.

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10 Comentários

  1. Gildo Araújo

    -

    18/07/2011 às 16:20

    As entrevistas de Manuel da Costa Pinto no Entrelinhas são bem interessantes.

  2. Gildo Araújo

    -

    18/07/2011 às 16:16

    Putz! Nem me avisaram que vc estaria na FLIP.

  3. Doride Pinheiro

    -

    14/07/2011 às 9:14

    Sergio, lamento mesmo o uso equivocado do adjetivo “nazista”, porque “ninguém merece” ser xingado por associação a esta atrocidade histórica. Por outro lado, mesmo tendo sido extremamente infeliz a escolha da palavra, não dá para o escritor sair agora de vítima, se ele foi um tremendo mal educado. Seu post ajuda a colocar um pouco mais em perspectiva que tudo tem dois lados.

  4. Afonso

    -

    13/07/2011 às 14:39

    Sérgio, acompanhei a Flip somente pelos seus “posts” aqui – talvez seja pouco para uma análise mais abrangente, todavia acredito que encontrei o essencial – e fica o elogio pelo bom trabalho. Em relação ao “fenômeno Mãe”, não parece condenável tal planejamento para conquistar o público brasileiro, ainda mais se sua literatura se sustenta. Deixo uma provocação/pergunta: o que falta aos escritores “brazucas” para conquistarem outras praças? Será o tal planejamento ou nem os editores acreditam em seus autores e livros?

  5. El Torero

    -

    12/07/2011 às 14:08

    Sérgio, Agualusa esteve no Roda Viva, não sei se assististe, falou sobre a importancia de Guimarães Rosa em Angola, também sobre o realismo mágico, sua influencia em seus livros, e da fecundidade de temas fantásticos na vida de Angola, assim como em nossa América Latina. Caracteristicas evidentes no livro ‘o remorso…’ de Mãe, como tu mesmo disseste naquele outro post.

  6. Paulo Almeida

    -

    11/07/2011 às 14:15

    sim, sim, Sergio. mui preciso.

  7. Maria José Silveira

    -

    11/07/2011 às 13:37

    Excelente esse seu post.

  8. sergiorodrigues

    -

    11/07/2011 às 12:59

    Obrigado, Tati. Bj

  9. ana caroline

    -

    11/07/2011 às 12:49

    Adorei (:

  10. Tatiana Levy

    -

    11/07/2011 às 12:18

    bom, bom, muito bom.

 

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