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Roberto Bolaño

08/04/2011

às 14:42 \ Vida literária

Literatura brasileira e o complexo de vira-lata

Num artigo do escritor gaúcho Antonio Xerxenesky, encontro esta citação – que não conhecia – retirada de uma entrevista do chileno Roberto Bolaño, um dos grandes renovadores da prosa de ficção nos últimos vinte anos, morto em 2003. Bolaño esboçou uma instigante tese de fumaças marxistas sobre a quase total ausência de uma ficção de gênero no cenário da literatura latino-americana: o subdesenvolvimento não deixa. O que ele diz sobre o fantástico pode ser transposto sem dificuldade para a ficção científica, o policial, o terror e qualquer dessas províncias onde moram as obras “menores” que, embora passem nos últimos anos por uma efervescência inédita no Brasil, a chamada grande crítica costuma desprezar:

Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito poucos, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.

Parece um paradoxo e talvez seja mesmo, mas, se for, é um paradoxo que nos constitui culturalmente e que pode ser identificado em campos variados. O campo de futebol, por exemplo. O subdesenvolvimento cultural levou a crônica esportiva brasileira a cultivar, entre os anos 40 e o fim dos 50 do século passado, aquilo que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”. Cobrava-se da seleção brasileira que fosse simplesmente a melhor do mundo, que humilhasse todas aquelas potências diante das quais nos sentíamos naturalmente humilhados. Como a seleção (até a Copa da Suécia, em 1958) mostrava-se incapaz de fazer isso, tínhamos a cada fracasso uma desilusão devastadora que parecia provar essa dura verdade: pobres, feios, analfabetos, desdentados, com a barriga cheia de vermes, nunca prestaríamos para nada.

Agora peço ao leitor que tenha alguma paciência e, pondo de lado o fato de Lula ter dilapidado a credibilidade das metáforas futebolísticas pelos próximos cinquenta anos, pense no modo como nosso ambiente literário – e não só a crítica acadêmica, embora ela se esmere nesse aspecto – tende a valorizar quase exclusivamente o Grande Livro, isto é, aquele que pode aspirar ao título mundial. E, como não o encontra, decreta à boca pequena ou ao megafone, dependendo do estilo de cada um, que não prestamos mesmo para nada. Isso faz um tremendo sentido bipolar: quem não se garante considera um fracasso vexaminoso tudo o que não seja a redenção incontestável.

Ampliando um pouco a tese de Bolaño – que é também a de Xerxenesky, autor de um livro pop, “Areia nos dentes”, que ousa enfiar zumbis num projeto literário mais ambicioso – eu arrisco dizer que essa mentalidade de vira-lata, ou de adolescente inseguro, não cria um ambiente hostil apenas para a literatura de gênero. A maior parte do campo da dita literatura séria também sofre, pois dominar a velha arte narrativa, ainda que com sofisticação, ainda que propondo novidades sutis de tema ou arquitetura, nunca bastará. Quem precisa de bons artesãos, de bons jogadores? Só o gênio interessa. Daí a presença ridiculamente inflada de ideias como ruptura e revolução na conversa literária. É preciso romper com tudo, isto é, reinventar o jogo, humilhar os adversários. É preciso que um neguinho de 17 anos faça gol dando lençol dentro da área na final.

Claro que, na vida real, quanto mais desprezamos as divisões de base, os torneios de várzea, os clássicos regionais, mais difícil se torna o surgimento de um Pelé. Como diz Bolaño, a mesma realidade que inspira a expectativa elevadíssima se encarrega de frustrá-la. Não admira que os leitores andem escassos nas arquibancadas.

28/03/2011

às 10:45 \ Pelo mundo

Livros roubados, livros bandidos e outros links

“Os livros de que me lembro melhor são os que roubei na Cidade do México entre as idades de dezesseis e dezenove…” Roberto Bolaño discorre (em inglês) sobre os prazeres de ser um ladrão de livros.

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Roubando ou não, você é um acumulador de livros, do tipo que se julga incapaz de se desfazer de um único volume, por pior que ele seja? Então saiba que sua doença tem nome: bibliomania. Conheça alguns truques que, sem prometer cura, podem aliviar os sintomas.

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Mas se você acha que é novo esse sentimento de estar soterrado por livros, veja esta: “Temos razões para temer que a Multidão de Livros que aumenta a cada dia (…) faça cair os séculos seguintes num estado tão lamentável quanto aquele em que a barbárie lançou os anteriores a partir da decadência do Império Romano.” A frase é do erudito francês Adrien Baillet, biógrafo de René Descartes, que a escreveu no início do século 18.

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“Diante da ciência, nós escritores somos como crianças com a cara colada no vidro de uma janela, tentando descobrir o que lá dentro.” Ian McEwan, um escritor que sempre levou a ciência a sério, num debate em Barcelona, semana passada, segundo reportagem do “El País”.

02/02/2011

às 14:15 \ Pelo mundo

Escrever é… (segundo Nabokov, Bolaño, Duras etc.)

O site This Recording vem juntando uma excelente coleção (em inglês, acesso gratuito) de “conselhos” de grandes autores sobre o ofício literário, sob o título “Como e por que escrever”. Coletados em fontes diversas, entre ensaios, artigos, entrevistas e até obras de ficção, os trechos são heterogêneos no conteúdo e no tom, mas compõem um painel instigante. Abaixo, uma pequena amostra em tradução caseira (via The Book Bench):

Susan Sontag: Todo mundo gosta de acreditar hoje em dia que escrever é apenas uma forma de amor-próprio. Também conhecida como auto-expressão. E não se supõe que sejamos mais capazes de sentimentos autenticamente altruísticos, ou capazes de escrever sobre qualquer coisa que não nós mesmos. Mas isso não é verdade.

Kurt Vonnegut Jr.: Garanto que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de trama, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas fora de moda seja contrabandeada para dentro em algum momento. Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava oficinas de criação literária, dizia aos meus alunos para fazer com que seus personagens quisessem alguma coisa imediatamente – ainda que fosse só um copo d’água. Mesmo personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna precisam beber água de vez em quando.

Roberto Bolaño: Nunca escreva um conto de cada vez. Quando se escreve um conto de cada vez, pode-se acabar escrevendo o mesmo conto até morrer. É melhor escrever três ou cinco contos ao mesmo tempo. Se você tiver energia para tanto, escreva nove ou quinze de uma vez.

Margaret Atwood: Leve um lápis para escrever em aviões. Canetas vazam. Mas se a ponta do lápis quebrar, você não conseguirá apontá-lo no avião, porque não pode carregar facas. Portanto: leve dois lápis.

Marguerite Duras: É desconfortável sentar a uma mesa redonda: seus cotovelos não têm onde se apoiar e você não pode contar com eles para descansar da escrita, e enquanto você escreve eles ficam boiando no vazio, e se você não percebe isso imediatamente pensa, “Não sei qual é o problema comigo, estou cansado”, mas isso é porque seus cotovelos não estão apoiados na mesa.

Vladimir Nabokov: O poder e a originalidade envolvidos no espasmo primário da inspiração são diretamente proporcionais ao valor do livro que o autor escreverá. No ponto mais baixo da escala, uma espécie branda de excitação pode ser experimentada por um escritor menor ao notar, digamos, a conexão íntima entre uma chaminé de fábrica, uma moita mirrada de lilases no jardim e uma criança de rosto pálido; mas a combinação é tão simples, a tríade simbólica tão óbvia, a ponte entre as imagens tão batida pelos pés de peregrinos literários e suas carroças cheias de ideias padronizadas, e o mundo que daí se deduz tão parecido com o mundo comum, que a obra de ficção posta então em movimento será necessariamente de pouco valor.

27/08/2010

às 17:57 \ Vida literária

Franzen, Bolaño e o hype literário

Faz muitas décadas que a literatura propriamente dita, artisticamente ambiciosa, não é terreno fértil para comoções de massa. É cem vezes mais fácil construir uma atmosfera de hype, o que um dia se chamou de badalação, no âmbito do cinema ou da música pop. Isso torna ainda mais interessantes os casos recentes de dois livros cercados de histeria: Freedom, do americano Jonathan Franzen, que antes mesmo de sair (será lançado terça-feira nos EUA) já vem sendo chamado de “romance do século”, e “2666”, o tijolão do chileno Roberto Bolaño, que foi unanimemente saudado como sua obra-prima e que, chegando ao Brasil com atraso há poucos meses, virou também por aqui aquele tipo raro de livro que todo mundo lê predisposto a elogiar.

Hype, palavra que os moderninhos brasileiros adotaram com um sentido intensamente positivo que está ausente do original, quer dizer em inglês publicidade excessiva e a comoção que ela provoca, exagero marqueteiro em torno de um produto e até mesmo, em casos extremos, fraude. Pode ser que falar em hype seja impróprio quando se trata de escritores tão talentosos quanto Franzen e Bolaño. Por outro lado, os dois casos de sucesso parecem ter, pelo menos em certa medida, algo daquele efeito manada que o marketing está sempre tentando disparar.

Como não li Freedom, convém deixar aberta a possibilidade de o livro ser mesmo o maior monumento da literatura desde “Ulisses” ou coisa parecida. O romance anterior de Franzen, The corrections, é sem dúvida um dos mais brilhantes que me passaram pelas mãos nos últimos anos. Mas é inevitável pensar que podemos estar diante de uma bolha inflacionária de superlativos quando se lê no “Guardian” que Freedom é “o livro do século”, um juízo bobinho que os próximos 90 anos se empenharão em desmentir, ou quando se vê a foto de Franzen na capa da revista “Time” ao lado de um título solene como “Grande romancista americano”. Diante disso, “obra-prima da ficção americana”, o elogio do “New York Times”, soa até tímido.

A consagração de “2666” não chegou tão longe, mesmo porque Bolaño não escreve em inglês, mas também foi acachapante. Neste caso, li o livro e fiquei matutando sobre os curiosos mecanismos da glória literária. “2666” consolidou internacionalmente o nome de Bolaño como o maior escritor latino-americano desde a geração do boom, mas é um romance que alterna momentos sublimes com outros francamente mal acabados, escritos a galope, como se a maior preocupação do autor fosse morrer antes de conseguir terminá-lo – o que por pouco não ocorreu. Na verdade, fiquei com a impressão de que Bolaño deixou mesmo inconcluso o trabalho: faltou revisá-lo para atingir a excelência de “Os detetives selvagens”, um romance menos ambicioso no projeto mas muito superior na execução. E que mereceu uma acolhida relativamente sóbria no Brasil, tanto da crítica quanto dos leitores – na época, seu autor ainda não tinha virado um mito.

Acho bem-vindo o hype em torno de Freedom e “2666”, nem que seja por sugerir que a literatura séria pode não ser tão culturalmente irrelevante no terceiro milênio quanto tentam nos fazer crer. Os dois casos parecem indicar que, à parte elementos imponderáveis, atingir o céu da comoção mercadológica é um feito reservado em nosso tempo a livros que tenham a ambição estratosférica – materializada de preferência em muitas centenas de páginas – de, mais que contar uma história, dar conta de um vasto painel social. É como se isso os tornasse “importantes”, dignos da atenção de um público que tem deixado a literatura séria cada vez mais fora do alcance de seu radar.


 

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