13/10/2010
às 20:42 \ Vida literáriaQuem não gosta de sexo na literatura gosta de sexo?
Lendo o artigo de Jojo Moyes no “Telegraph” sobre a dificuldade – ou a impossibilidade, segundo Martin Amis – de escrever boas cenas literárias de sexo, me dou conta de que o tema virou uma pequena obsessão dos ingleses. Sim, o Bad Sex Award, coberto com alguma atenção aqui no blog, tem sua graça. Mas aí veio o post de Sarah Duncan, e agora esse artigo. Será que a pauta é mesmo tão boa assim?
Vamos admitir logo que a dificuldade existe e é interessante. Como escrever – ou optar por não escrever – o que acontece quando dois personagens, fazendo avançar a narrativa, resolvem transar sempre foi uma questão relevante e talvez seja especialmente escorregadia para o escritor de hoje. As fórmulas que um dia funcionaram tendem a nos soar canhestras, tudo resvala perigosamente no clichê. As decisões a tomar por linha são mais numerosas do que o habitual e cada uma contém seus riscos. Nomear, por exemplo, os órgãos sexuais, as ações? Usar termos técnicos ou chulos? Ou quem sabe poéticos, derivativos e metafóricos, em busca de um certo clima?
Com a irresponsabilidade dos chutadores, mas sem muita dúvida de acertar o gol, eu diria que a literatura que se escreve hoje anda menos rica em sexo gráfico do que a que se escreveu entre os anos 60 e 80. Será que, como disse Katie Roiphe sobre a geração de David Foster Wallace, ficamos cool demais para o sexo? Ou seria antes um amadurecimento natural, uma vez que se esvaziaram de sentido de transgressão e poder de choque os escritos “crus” dos que vieram imediatamente antes?
Convém confessar que sou culpado de minha cota de cenas de sexo (de violência também, aliás gratuita, como disse um crítico de renome sobre meu primeiro livro, mas esse é outro capítulo). Já fiquei preocupado relendo algumas dessas coisas, mas acredito que outras funcionem bastante bem. Acho que não trocaria nada no episódio do fellatio que a mulata brasileira aplica no chefão americano under the table num restaurante de Miami, na novela “O retiro dos macacos artistas”, por exemplo.
A verdade é que boas cenas de sexo são menos raras do que Martin Amis quer nos fazer crer. Basta pensar no jeitão pós-picaresco que o sexo ganha em “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes; nas transas cheias de tesão e tensão de Marçal Aquino em “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”; no registro lírico-brutal de Carola Saavedra ao narrar a violação que dá o clímax de “Flores azuis”, aquilo que na terra de Jojo Moyes chamam de fist fucking: não há nada de impossível em escrever uma cena que inclua referências a um ato sexual e na qual o leitor acredite, sem ser distraído de sua suspensão de incredulidade, como o artigo do “Telegraph” diz ser inevitável, pelo risinho de mofa ou pela vergonha alheia. Se os ingleses vêm sendo levados a acreditar em dificuldades intransponíveis nesse campo, isso talvez seja um sintoma de que têm (sempre tiveram?) problemas na cama.
Como o próprio sexo, o sexo na literatura é contexto. Se vai funcionar ou não, pergunte à narrativa, abandone-se à força que levou o leitor até ali e teste o grau de coerência da cena com o resto. Isso determina tudo, define como as palavras serão lidas. Pinçar de romances imagens e frases soltas – o “pau mole que parecia um cagalhão”, by Norman Mailer, sempre aparece – é trapaça. Uma trapaça do bem, que divulga a literatura, certo. Só não faz sentido derivar daí leis gerais sobre o que pode e o que não pode ser escrito quando dois personagens resolvem transar.
Outra complicação é que, na questão do sexo escrito, o sexo do autor também é determinante. A mesmíssima cena de “Flores azuis” mencionada acima, se fosse assinada por um homem, seria outra. O sexo do autor nos põe, como leitores, em um de dois lugares absolutamente distintos. De um deles vemos um homem, sabendo e sabendo que ele sabe que o discurso erótico da literatura sempre foi dominado por homens, com as notórias exceções femininas sendo tão notórias quanto exceções. Do outro lado vemos uma mulher, sabendo e sabendo que ela sabe a mesma coisa. Como é natural – e o leitor também sabe disso – os dois reagem ao que sabem de formas diferentes.
Ele, o autor, anda mudando: o desassombro visceral da “machista” geração de Philip Roth e Rubem Fonseca perde terreno para um certo pudor ou pé-atrás, um maior distanciamento físico-emocional. Ela, a autora, também anda mudando: herdou da geração de Hilda Hilst e Adelaide Carraro a missão de encher a literatura de sexualidade feminina, não falocêntrica, para compensar milênios de papo de homem, mas já não parece satisfeita com aquelas estratégias convencionais – e opostas – de saída pela exaltação lírica ou de contraposição ponto a ponto ao “discurso masculino”.
Por essas e outras, vai ser interessante ler o que o sexo literário nos dará nos próximos tempos. Como apreciador do gênero, espero ele dê muito e que o faça sem se preocupar com a patrulha do Bad Sex Award, que de boa piada parece estar querendo se transformar em estraga-prazeres.
Tags: Adelaide Carraro, Carola Saavedra, David Foster Wallace, Hilda Hilst, Jojo Moyes, Marçal Aquino, Martin Amis, Norman Mailer, Philip Roth, Reinaldo Moraes, Rubem Fonseca, Sarah Duncan





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