Blogs e Colunistas

Nelson Rodrigues

22/08/2012

às 14:17 \ Vida literária

Nelson: cem anos de um mestre do diálogo brasileiro

Aproveito o centenário de Nelson Rodrigues, que se comemora amanhã, para reconhecer publicamente uma dívida pessoal e dar uma dica: talvez não haja lição mais importante que os escritores brasileiros do século 21 possam tirar da obra de um dos maiores escritores brasileiros do século 20 do que o difícil aprendizado do diálogo.

Falo de uma questão de forma. Isso não significa minimizar o famoso conteúdo rodriguiano, esse impressionante universo de tipos caricaturais da baixa classe média carioca às voltas com tramas folhetinescas de amor e morte, infidelidade e incesto, numa atmosfera farsesca em que pulsões primitivas estão sempre prontas a furar o verniz da civilização e vir à tona com uma ferocidade equilibrada entre o trágico e o cômico. Evidentemente, é o alcance cultural desse universo que torna Nelson um monstro, um daqueles raros autores sem os quais o país não seria o que é. Mas disso não falta quem esteja falando.

Quando me refiro ao diálogo, falo de uma técnica que permite a dois ou mais personagens trocarem blocos de discurso direto no meio de uma narrativa sem que soem como bonecos de ventríloquo do autor ou como oradores na tribuna da Câmara dos Deputados. Alguns escritores se saem bem da tarefa, a maioria não – e pode até ser que estes, sendo bons em outros fundamentos, contem com nossa complacência de leitores dispostos a fazer vista grossa para o diálogo manco. (Cada vez me convenço mais de que a boa ou má vontade prévia do leitor é meio caminho andado – ou desandado.)

A complacência eventual não muda o fato de que o fundamento do diálogo pode ser dominado ou não. Minha formação de escritor se deu num tempo em que ainda se atribuía grande valor a isso. Ultimamente, o assunto anda meio esquecido, o que suponho ter a ver com a queda em desgraça da “prosa realista” nas universidades (como se o diálogo, que tem nela um papel fundamental, fosse irrelevante para outros registros). Poucos anos antes de morrer, em momento pouco feliz, o escritor gaúcho Moacyr Scliar chegou a declarar que folheava livros para medir no olhômetro a quantidade de diálogos: “Se forem muitos, não acredito que sejam bons livros”.

Durante muito tempo escrevi, sem publicar, diálogos que, mal tocavam a página, passavam a me repugnar intensamente. Eram mais falsos que propaganda eleitoral, às vezes coloquiais demais (“Tu tá de brincadeira, mermão?”), às vezes coloquiais de menos (“Lamento informar, contudo, que pegarei o trem das onze com a firme intenção de nunca mais regressar”), quase sempre de uma dolorosa irrelevância (“Bom dia!” “Bom dia, como vai?” “Eu vou bem, e a senhora?” “Ah, vai-se indo”.)

Trata-se de uma técnica complexa, claro, que jamais poderá ser reduzida a dois ou três truques. Mas com Nelson Rodrigues, em 1992, aprendi que dois ou três truques podiam, sim, ser a base de todo o resto – se não suficientes, fundamentais. Como as melhores lições, esta veio sem que eu a estivesse procurando. Foi como preparação para entrevistar Ruy Castro sobre sua magnífica biografia de Nelson, “O anjo pornográfico”, que, além de ler o livro em questão, mergulhei na leitura (em uns poucos casos, releitura) intensiva de todo o teatro rodriguiano, naquele volume único da Nova Aguilar.

Passei dois dias inteiros ali dentro, respirando aquilo. Quando saí, minha capacidade de escrever diálogos tinha melhorado mil por cento. (Alguns dirão que isso não foi suficiente, e dependendo do dia eu posso até concordar, mas uma melhora de mil por cento será sempre significativa, qualquer que seja o valor absoluto.)

Pensando agora naquele salto de qualidade, no que aprendi com Nelson sobre o diálogo, chego a três linhas de força que talvez resumam uma aula magna que nada teve de organizada, que dirá organizada em tópicos:

1. O coloquial na literatura é uma estilização – Não adianta ligar um gravador no trem lotado para captar a “verdadeira fala das ruas”. Na literatura, cada palavra tem um peso maior, um valor mais concentrado. Em Nelson, o português é profundamente brasileiro, mas formalmente limpo. Expressões coloquiais e até gírias (não muitas) surgem transfiguradas em fórmulas de limpidez epigramática: “O que estraga o adultério é a clandestinidade. Não, senhor, não admito. Vamos oficializar o troço”, diz o Dr. Lambreta de “Viúva, porém honesta”.

2. Pingue-pongue é melhor que xadrez – Um dos maiores inimigos da verossimilhança de um diálogo é a tendência ao discurso: o personagem tem um pensamento a expressar e o expressa do início ao fim, sem interrupção. Em seguida, outro personagem reflete sobre aquilo e emite seu parecer. O efeito é frequentemente solene e, a menos que seja essa a intenção, falso. Diálogos costumam ter velocidade mais próxima do pingue-pongue que do xadrez. A agilidade da intercalação de blocos curtos tem a vantagem adicional de realçar dramaticamente as falas mais longas nos momentos em que elas forem cabíveis. O exemplo é tirado de uma conversa de Elias e Virgínia em “Anjo negro”: “A senhora é bonita?” “Me chame de você.” “É?” “Você acha que sou?” “Me disseram que sim.” “Pois sou.”

3. Atenção aos “arrancos de cachorro atropelado” – A ordenação sintática muito certinha pode ser outra inimiga. Ao conversar, os personagens estão improvisando, formulando pensamentos que lhes ocorrem naquele instante – e que muitas vezes são incompletos, contraditórios, redundantes, quando não profundos ou perigosos demais para se deixarem expressar. Da mesma forma, ninguém é obrigado a responder claramente à interrogação do outro, as perguntas podem se acumular, o assunto ser desviado. Um efeito de tumulto controlado faz maravilhas pelo fio de um diálogo. Como o de Arandir e Selminha em “O beijo no asfalto”: “Escuta. Vi o rapaz morrer, sim. Da minha idade, mais ou menos. Selminha, ele estava em cima do meio-fio. Esperando que o sinal abrisse. Em cima do meio-fio. De repente, não sei como foi: ele perdeu o equilíbrio. Caiu para a frente e… Vinha um lotação a toda velocidade. Bateu no rapaz, atirou numa distância como daqui ali.” “Gritou?” “O rapaz?” “Meu bem…” “O atropelado não grita. Ou grita? Esse não gritou.” “Era bonito?” “O lotação passou por cima.”

Um pouco de tudo isso pode ser visto nos vertiginosos diálogos telefônicos cruzados de “Vestido de noiva”:

PIMENTA – É o Diário?
REDATOR – É.
PIMENTA – Aqui é o Pimenta.
CARIOCA-REPÓRTER – É A Noite?
PIMENTA – Um automóvel acaba de pegar uma mulher.
REDATOR D’A NOITE – O que é que há?
PIMENTA – Aqui na Glória, perto do relógio.
CARIOCA-REPÓRTER – Uma senhora foi atropelada.
REDATOR DO DIÁRIO – Na Glória, perto do relógio?
REDATOR D’A NOITE – Onde?
CARIOCA-REPÓRTER – Na Glória.
PIMENTA – A Assistência já levou.
CARIOCA-REPÓRTER – Mais ou menos no relógio. Atravessou na frente do bonde.
REDATOR D’A NOITE – Relógio.
PIMENTA – O chofer fugiu.
REDATOR DO DIÁRIO – OK.
CARIOCA-REPÓRTER – O chofer meteu o pé.
PIMENTA – Bonita, bem vestida.
REDATOR D’A NOITE – Morreu?
CARIOCA-REPÓRTER – Ainda não. Mas vai.

28/05/2012

às 13:09 \ Mercado, Pelo mundo

Máquinas de escrever eróticas, o chefão da Record etc.

Como sabe quem costuma aparecer por aqui, elas são um fetiche assumido do Todoprosa: aí vai uma inusitada coleção de fotos eróticas de priscas eras (mais inocentes que a novela das nove, mas vale o alerta) que juntam mulheres e… máquinas de escrever!

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É um belo trabalho jornalístico esta entrevista de Rinaldo Gama, Ubiratan Brasil e Maria Fernanda Rodrigues com o editor Sérgio Machado, da Record, que saiu no último Sabático. O chefão da megaempresa aparece de corpo inteiro, mais interessado no “negócio livro” do que no conteúdo dos livros, o claro junto com o escuro, o que explica muita coisa. Só acho injusto que se demonize o homem por contar o episódio – de resto já sabido – da falsa tradução de Nelson Rodrigues para Harold Robbins. Deixa-se de levar em conta que tal tipo de trapaça com o leitor era visto como benigno e foi característico de certo estágio condescendente da indústria cultural do século 20 – veja-se o horóscopo falso, por exemplo, inventado do início ao fim por leigos absolutos, que muitas publicações de respeito cultivaram. É evidente que não cabe mais esse tipo de coisa, o mundo mudou, a ética ficou menos elástica. Mas convém manter alguma perspectiva histórica.

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A Receita Federal está no seu encalço? Faça boa arte. Seu gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet acha que o que você faz é estúpido, ou maligno, ou já foi feito antes? Faça boa arte.

O paraninfo Neil Gaiman dá bons conselhos (vídeo e sumário no ótimo blog de Maria Popova) a uma turma de formandos da Filadélfia.

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Não é uma questão de quantos o leem, mas de quem o lê. Há certos romancistas que nos fazem pensar naquela velha história sobre o Velvet Underground: quase ninguém os viu tocar ao vivo, mas todos os que viram formaram uma banda. Nos anos 30 e 40, Fitzgerald vivia na obscuridade crítica, mas assombrava as margens, aparecendo depois como um fantasma ‘samizdat’ nas obras daqueles que importavam, do ‘Doctor Sax’ de Kerouac ao ‘Apanhador no campo de centeio’ e a ‘O longo adeus’ de Raymond Chandler. O que mantém vivo um livro é os livros do futuro falarem dele…”

No blog de livros da “New Yorker”, Tom Valderbilt desfia reflexões interessantes sobre o mais nebuloso dos temas, o das engrenagens secretas da glória literária e sua mania de transformar sucesso presente em obscuridade futura e vice-versa – mas não necessariamente, claro, senão seria fácil.

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Uma vez escrevi aqui, a propósito da triste história de uma escritora inglesa que se lançou no fogo da internet e saiu carbonizada: “Quando sentir o impulso de responder a uma resenha negativa – e você vai sentir, pode apostar um milhão nisso – acorrente-se ao pé da mesa e atire bem longe a chave do cadeado”. Agora, o ponto de vista oposto é defendido enfaticamente pela escritora Elle Lothlorien (em inglês, aqui): “Por que os escritores devem SEMPRE responder às resenhas negativas”. Não me convenceu, não. Em todo caso, viva o atrito.
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Post atualizado às 17h40. Os créditos da entrevista com Sérgio Machado estavam errados.

30/03/2012

às 10:42 \ Vida literária

Entre Narciso e o suicídio, a literatura balança

O Narciso de Caravaggio (1598-1599)

A literatura é hoje um campo que se questiona de modo histérico, com resultados entre o suicida e o narcísico.

O discurso literário parece sentir, de alguma forma, que perdeu o direito à existência. O que quer que o justificasse perante si mesmo não o justifica mais.

Entre as atitudes que o discurso literário toma diante disso, destaco duas que me parecem especialmente significativas: deitar no caixão e declarar-se morto, como um personagem de Nelson Rodrigues, procedendo então à auto-autópsia; ou, feito uma drag queen de quermesse, se montar inteiro com maquiagem, bijuterias, próteses, piscando muito para o espelho e dizendo: “Eu existo, ói eu ali”.

(Seria interessante – mas foge aos propósitos deste artigo, para não falar da minha competência – investigar o que haverá de analogia estrutural e especularidade simbólica entre duas crises culturais contemporâneas, a “do macho” e a da literatura de ficção.)

A verdade é que, além daqueles que a fazem e da pequena seita que a consome sistematicamente, ninguém no mundo de 2012 está prestando lá uma terrível atenção à ficcão literária, como diriam em inglês – literatura artisticamente ambiciosa, digo eu. A ficção comercial vai bem, mas o público da ficção dita séria míngua ao mesmo tempo que se concentra na metade feminina da população.

Quando morrer a geração de Coetzee, McEwan, Marías, e considerando-se que Bolaño e Wallace apressaram essa parte do processo, é evidente que outros nomes ocuparão seus lugares, mas tudo indica que o campo terá encolhido mais um pouco.

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A teoria literária que cresceu e envelheceu com o século 20 desempenhou em sua juventude o papel cultural de aliada dessa literatura – uma aliada implicante e reticente, mas ainda não abertamente hostil. A mesma teoria literária chegou ao terceiro milênio convencida do fim da ex-amiga. O fim se daria, ou já teria se dado, pelo esgotamento de seu ciclo histórico. Simples assim.

Tal diagnóstico costuma vir amparado em raciocínios de diversos teores, da filosofia da linguagem (preferência dos mais propriamente teóricos) à sociologia e à política (área do pessoal ligado em estudos culturais), mas tem sempre no subsolo uma espécie de pré-ideia, uma sensação visceral e pouco trabalhada: a de que o presente simplesmente já não cabe nesse discurso. Passou. A pós-modernidade eletrônica planetária está forjando novos vocabulários, novas gramáticas, novas dinâmicas em que a imaginação dos seres humanos futuros vai se espalhar com mais conforto do que na extensão cinza de um Saara de palavras chamado livro. Quando se quer dar um lustro intelectual um pouco maior a esse instinto apocalíptico, afirma-se que a coisa é bem pior até, pois a própria ideia de representação está sendo minada, o que em última análise torna fútil falar sobre categorias como arte ou mesmo sociedade. De uma forma ou de outra, deve-se concordar que a literatura já não serve para nada.

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Paulinho da Viola canta: tá legal, e tal, mas faça como o velho marinheiro. Aceito o conselho e fico pensando: para que servia mesmo a literatura, antes dessa crise? Não foi a crise desde sempre seu habitat? E não seria a inutilidade fundamental – ou antes a inutilidade de tentar fazer suas utilidades serem utilizadas de modo realmente útil, isto é, a sublime gratuidade do gesto estético – uma de suas características principais, talvez a mais profunda delas?

Porque se a inutilidade for um traço fundamental da melhor literatura, resulta daí que é uma crença ingênua na linearidade da história supor que a obsolescência e o descompasso radical com o espírito do tempo marcarão seu fim – e não um período de excelência e maturidade, cheio de riquezas inéditas.

08/04/2011

às 14:42 \ Vida literária

Literatura brasileira e o complexo de vira-lata

Num artigo do escritor gaúcho Antonio Xerxenesky, encontro esta citação – que não conhecia – retirada de uma entrevista do chileno Roberto Bolaño, um dos grandes renovadores da prosa de ficção nos últimos vinte anos, morto em 2003. Bolaño esboçou uma instigante tese de fumaças marxistas sobre a quase total ausência de uma ficção de gênero no cenário da literatura latino-americana: o subdesenvolvimento não deixa. O que ele diz sobre o fantástico pode ser transposto sem dificuldade para a ficção científica, o policial, o terror e qualquer dessas províncias onde moram as obras “menores” que, embora passem nos últimos anos por uma efervescência inédita no Brasil, a chamada grande crítica costuma desprezar:

Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito poucos, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.

Parece um paradoxo e talvez seja mesmo, mas, se for, é um paradoxo que nos constitui culturalmente e que pode ser identificado em campos variados. O campo de futebol, por exemplo. O subdesenvolvimento cultural levou a crônica esportiva brasileira a cultivar, entre os anos 40 e o fim dos 50 do século passado, aquilo que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”. Cobrava-se da seleção brasileira que fosse simplesmente a melhor do mundo, que humilhasse todas aquelas potências diante das quais nos sentíamos naturalmente humilhados. Como a seleção (até a Copa da Suécia, em 1958) mostrava-se incapaz de fazer isso, tínhamos a cada fracasso uma desilusão devastadora que parecia provar essa dura verdade: pobres, feios, analfabetos, desdentados, com a barriga cheia de vermes, nunca prestaríamos para nada.

Agora peço ao leitor que tenha alguma paciência e, pondo de lado o fato de Lula ter dilapidado a credibilidade das metáforas futebolísticas pelos próximos cinquenta anos, pense no modo como nosso ambiente literário – e não só a crítica acadêmica, embora ela se esmere nesse aspecto – tende a valorizar quase exclusivamente o Grande Livro, isto é, aquele que pode aspirar ao título mundial. E, como não o encontra, decreta à boca pequena ou ao megafone, dependendo do estilo de cada um, que não prestamos mesmo para nada. Isso faz um tremendo sentido bipolar: quem não se garante considera um fracasso vexaminoso tudo o que não seja a redenção incontestável.

Ampliando um pouco a tese de Bolaño – que é também a de Xerxenesky, autor de um livro pop, “Areia nos dentes”, que ousa enfiar zumbis num projeto literário mais ambicioso – eu arrisco dizer que essa mentalidade de vira-lata, ou de adolescente inseguro, não cria um ambiente hostil apenas para a literatura de gênero. A maior parte do campo da dita literatura séria também sofre, pois dominar a velha arte narrativa, ainda que com sofisticação, ainda que propondo novidades sutis de tema ou arquitetura, nunca bastará. Quem precisa de bons artesãos, de bons jogadores? Só o gênio interessa. Daí a presença ridiculamente inflada de ideias como ruptura e revolução na conversa literária. É preciso romper com tudo, isto é, reinventar o jogo, humilhar os adversários. É preciso que um neguinho de 17 anos faça gol dando lençol dentro da área na final.

Claro que, na vida real, quanto mais desprezamos as divisões de base, os torneios de várzea, os clássicos regionais, mais difícil se torna o surgimento de um Pelé. Como diz Bolaño, a mesma realidade que inspira a expectativa elevadíssima se encarrega de frustrá-la. Não admira que os leitores andem escassos nas arquibancadas.

02/07/2010

às 7:44 \ Vida literária

Bom-mocismo nas letras

O post de hoje é um texto longo – longuíssimo, para os padrões da internet. Foi publicado em maio na revista “Veja Especial Mulher”, que retomou o fio de uma edição de 1967 – apreendida por ordem do Juizado de Menores – da extinta “Realidade” para investigar quatro décadas de mudanças na situação da mulher na sociedade brasileira. No caso das letras, a parte que me coube, a pauta acabou virando uma reflexão sobre o tratamento do sexo na literatura, tanto a feminina quanto a masculina. Assunto de Todoprosa, portanto. Então lá vai.

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“Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos.” O grito de guerra de uma personagem de Lygia Fagundes Telles no romance “As meninas”, de 1973, ecoou em milhares de “quartos só delas” – aquilo que a escritora inglesa Virginia Woolf, em um célebre ensaio de 1929, declarou ser fundamental para que as mulheres pudessem escrever, isolando-se dos outros papéis sociais que a sociedade lhes impunha. Por trás de suas portas fechadas, enquanto soprava na janela a ventania do feminismo, as escritoras brasileiras lançaram-se nas últimas quatro décadas à tarefa de contrapor sua própria voz a uma tradição literária maciçamente masculina. De um modo que não surpreenderia Sigmund Freud, a maior revolta se deu onde era maior a repressão: do erotismo sutil às abordagens gráficas que flertam com a pornografia, o tema do sexo foi o grande campo de batalha dessa revolução.

Mas terá sido mesmo uma revolução? Embora esteja desgastada, a palavra se aplica. Desde o momento em que a revista “Realidade” fez sua enquete de 1967, uma revolução de tinta e papel – mais veloz e vertiginosa do que o avanço flagrado pelas pesquisas em áreas como comportamento e mercado de trabalho – expandiu dramaticamente as fronteiras daquilo que as escritoras podiam expressar sem correr o risco de um apedrejamento real ou metafórico. Por injunções que não eram apenas literárias, mas refletiam mudanças mais profundas na cultura e nas relações sociais, o erotismo místico e caseiro da poeta mineira Adélia Prado (“é em sexo, morte e Deus,/ que eu penso invariavelmente, todo dia”) foi recebido sem escândalo em 1976, quando saiu seu livro de estreia, “Bagagem”. Isso a poupou do ostracismo social – e até certo ponto literário – a que fora condenada em 1915, também por seu primeiro livro, uma pioneira como a carioca Gilka Machado (“Eis-me, lânguida e nua,/ para a volúpia tua”).

Para encontrar, nos últimos anos do século 20, uma medida de choque comparável ao deflagrado por Gilka Machado, seria preciso recorrer às narrativas assumidamente “obscenas” que a poeta e prosadora paulista Hilda Hilst publicou em sua fase madura, como “O caderno rosa de Lori Lamby”, de 1990. Goste-se ou não desse livro estranho, em que uma menina de oito anos prostituída pelos pais descreve com candura suas experiências sexuais, é possível argumentar que ele assinala uma espécie de auge da libertação literária feminina, ao qual se seguiu um inevitável declínio. Hoje, poemas carregados de gritos orgásticos e fluidos genitais tornaram-se, para as jovens aspirantes às letras, um gênero tão banal e recheado de clichês quanto foi o amor impossível para os poetas românticos do século 19 ou a ode ao povo para os bardos engajados dos anos 1960.

Tudo isso é bom, pelo simples motivo de que liberdade é melhor que prisão. No entanto, antes de comemorar o sucesso de uma certa revolução feminista nas letras, deve-se levar em conta que – como qualquer revolução – esta não cumpriu todas as suas promessas nem escapou de certas armadilhas típicas dos processos emancipatórios. No ambiente pós-feminista do terceiro milênio, enquanto a literatura vive das migalhas de seu antigo prestígio social e a oferta erótica se multiplica em sites e programas de TV, os desafios diante dos escritores de ambos os sexos parecem ser outros. Depois que uma garota de programa chamada Bruna Surfistinha tomou de assalto com seu livro de memórias, “O doce veneno do escorpião”, as listas dos mais vendidos de 2005, talvez tenha chegado para a literatura a hora de refletir sobre uma frase do romancista americano Gore Vidal: “O sexo não constrói nenhuma estrada, não escreve nenhum romance, e certamente não dá sentido a nada na vida além de si mesmo.”

Desde aquele mesmo 1967, e de forma mais impressionante que a própria produção das escritoras, os estudos literários centrados em questões de gênero viveram uma explosão. Parte da onda de “estudos culturais” que varreu os departamentos universitários de ciências humanas no período, eles abraçaram a estratégia de botar sob suspeita toda a história da literatura como uma conspiração de “machos brancos heterossexuais mortos”, substituindo o enfoque estético pelo político e as obras consagradas pelos testemunhos de minorias – sobretudo mulheres, gays e negros. O leitor comum não tomou conhecimento disso, mas a influência de tal pensamento politicamente correto nos círculos intelectuais, inclusive entre os próprios escritores, é considerável. O problema é que agendas políticas não costumam conviver bem com a criação artística.

Um exemplo: quando a professora Cristina Ferreira-Pinto, brasileira que leciona na Washington and Lee University, nos EUA, diz em seu livro “Gender, discourse and desire in twentieth-century Brazilian women’s literature” (Gênero, discurso e desejo na literatura feminina brasileira do século 20) que “o melhor exemplo da perspectiva masculinista do corpo feminino é “Gabriela, cravo e canela”, de Jorge Amado”, livro cuja protagonista seria retratada pelo autor “de um ponto de vista patriarcal”, é inevitável pensar que todos os exemplos de reação literária feminina que ela cita em seguida parecem condenados à irrelevância. Gabriela é um ícone cultural de massa. Quem é a anti-Gabriela da literatura feminina? Não há, nem poderia haver: para começo de conversa, as letras simplesmente já não têm a importância que tinham há meio século, quando saiu o romance de Amado. Ainda que tivessem, porém, jogar nos ombros de obras de arte o peso de uma missão política é injusto. As dificuldades propriamente artísticas em seu caminho são mais que suficientes.

Dessa promessa impossível deriva a armadilha mais traiçoeira da literatura feminina “de combate”, a mesma que, em nome de uma virada de mesa, encurralou parte do pensamento feminista na imitação pouco criativa do que havia de pior no mundo masculino: no caso do erotismo na literatura, o desejo autocentrado, a transformação do outro em mero objeto de prazer. É o que se vê por exemplo nas histórias da contista paulistana Márcia Denser, que fizeram sucesso de crítica nos anos 1980. Sua personagem-símbolo, Diana Marini, é uma predadora de homens – “Diana Caçadora” é o título de um de seus livros, lançado em 1986. Erigida em paladina do erotismo feminino, Denser apresentou outras autoras em antologias de oportunidade intituladas “Muito prazer” e “O prazer é todo meu”, que, como seus próprios livros, guardam hoje um travo de época.

De forma curiosa, a maioria dos escritores homens da nova geração vem adotando, dentro e fora do Brasil, uma postura nitidamente mais encucada e menos agressiva que a da geração de seus pais no tratamento do erotismo. O que pode muito bem ser mais um resultado da onda feminista. Se o brasileiro Rubem Fonseca e o americano Philip Roth sempre tiveram um fraco por personagens priápicos que colecionam mulheres, hoje isso tende a ser visto como um sinal de mau gosto e cafonice. Em 1997, em artigo polêmico, o influente escritor americano David Foster Wallace, nascido em 1962 (e que se enforcou em 2008), atacou Roth como membro – ao lado de seus contemporâneos John Updike e Norman Mailer – do time dos “Grandes Machos Narcisistas”. Tal tipo de bom-mocismo levou a acadêmica americana Katie Roiphe, em artigo publicado em dezembro de 2009 no “New York Times”, a alfinetar a geração de Wallace como “cool demais para o sexo”.

Talvez Roiphe cometa uma injustiça ao ver apenas pose e acanhamento existencial na postura de Wallace e seus contemporâneos. Parece natural e até saudável que, após uma época obcecada com a liberdade sexual como foram os anos 1960-70, a literatura se dedique no século 21 a uma investigação mais tateante de um tema que, no fim das contas, permanece um grande mistério cravado no coração do humano. “A grande tragédia da carne começou quando o homem separou o sexo do amor”, disse Nelson Rodrigues, que já foi chamado de pornográfico. A frase pode ser considerada conservadora, mas não desprezível. Quando tudo pode ser dito, resta a tarefa gigantesca de decidir o que, em termos propriamente artísticos, merece ser dito.

28/06/2010

às 11:26 \ Três perguntas para...

Ronaldo Helal: ‘Brasil se crê o mais entendido em futebol’

Se a ficção brasileira, como a de qualquer país, parece tímida ao retratar nossa maior paixão esportiva (veja nota abaixo), não se pode dizer o mesmo da literatura em sentido mais amplo. A produção cultural em torno do futebol, que tem na crônica esportiva seu gênero mais tradicional, vem ganhando nos últimos anos a contribuição da universidade, especialmente na área de sociologia. Em entrevista por e-mail, um dos representantes dessa tendência, Ronaldo Helal – doutor em sociologia pela New York University, professor de pós-graduação em comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de “Passes e impasses: futebol e cultura de massa no Brasil”, entre outros livros – tem uma tese para o eterno choro sobre o relativo silêncio de nossos escritores diante do futebol, de resto semelhante ao dos escritores de países não menos vidrados no esporte: “A diferença é que os brasileiros se creem os mais apaixonados e entendidos no assunto”.

1. A imprensa e a crítica literária vivem estranhando que o Brasil nunca tenha produzido seu “grande romance do futebol”. Isso faz algum sentido? Literatura combina com esporte?

- Veja que em 1919 Lima Barreto fundou a “Liga Anti-Futebol” e dois anos depois Graciliano Ramos escreveu uma crônica (Traços a esmo), onde dizia que o futebol seria apenas uma “moda fugaz” no país. Tudo isso em um período em que o futebol era um esporte considerado elitista. O futebol se populariza e se profissionaliza em 1933 e, a partir daí, passa a ser considerado a “paixão nacional”. É neste sentido que podemos entender a cobrança da imprensa e da crítica literária. No entanto, se compararmos com o que ocorre em outros países, onde o futebol também é paixão nacional, talvez verifiquemos a mesma “ausência”. A diferença é que os brasileiros se creem os mais apaixonados e entendidos no assunto.

2. A crônica esportiva, por outro lado, tem uma tradição gloriosa no país. Quem é ou foi, para o seu gosto pessoal, o maior representante do gênero entre nós?

- Diria que Mario Filho foi o fundador do jornalismo esportivo no país e um agente fundamental na “construção” do “país do futebol”. Suas crônicas e seus livros, principalmente “O negro no futebol brasileiro”, foram imprescindíveis para se construir uma ideia de nação brasileira por meio do futebol. Tudo isso em um momento de consolidação dos estados-nações no mundo, do projeto integracionista de Getúlio Vargas, de novas formas de conceituar o país, onde a mistura de raças passa a ser vista como um valor positivo de nossa cultura – veja, por exemplo, a obra de Gilberto Freyre, “Casa grande e senzala”. Lembremos que Mario Filho era amigo de Gilberto Freyre, que, gentilmente, prefacia “O negro no futebol brasileiro”, alçando a obra ao meio acadêmico no Brasil. Mas, para meu gosto pessoal, até porque não sou da época de Mario Filho, meu preferido é Nelson Rodrigues, seu irmão.

3. Se a ficção não fica à altura do futebol, a produção intelectual acadêmica sobre o esporte não para de crescer. Foi preciso superar preconceitos para desbravar esse campo na universidade?

- Quando comecei a pesquisar o assunto, havia pouquíssimos trabalhos acadêmicos a respeito do tema. E todos tinham um tom apocalíptico, marxista, que equacionava o futebol como “ópio do povo”. Foi a partir de um livro organizado por Roberto DaMatta em 1982 – “Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira” – que o jogo começou a virar. Antes deste livro, DaMatta tinha escrito, em 1978, “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”. Estes trabalhos apontavam para a importância de estudarmos coisas consideradas “não sérias” no país. Ou seja, como poderíamos aprender mais sobre nosso país por meio do futebol e do carnaval. O preconceito foi se esvaindo e o tom apocalíptico também. Hoje, não se pode mais falar em descaso das ciências sociais em relação ao futebol. Basta verificar a quantidade de grupos de trabalho sobre este esporte nos congressos científicos da área de ciências sociais e humanas espalhados pelo país. Além do número expressivo de livros, capítulos de livros e artigos em periódicos acadêmicos que tratam do tema.

25/06/2010

às 5:01 \ Vida literária

O Grande Romance do Futebol e outras lendas

Onde está o Grande Romance do Futebol Brasileiro? Por que nossos escritores perebas não conseguem fazer justiça a essa porção tão risonha e límpida da alma nacional?

A questão vive rondando a fronteira entre a crítica literária e o departamento de vigilância da auto-estima brasileira. A cada Copa do Mundo, ressurge com ares de grande sabedoria para rechear cadernos literários, blogs e seminários.

Convocados a explicar o fenômeno, os sábios de plantão costumam se dividir em dois times: o dos que consideram os escritores brasileiros elitistas demais para dar bola para o tema e o dos que consideram os escritores brasileiros competentes de menos diante da magnitude do tema. De uma forma ou de outra, culpados.

Mas será que o Grande Romance do Futebol Brasileiro (daqui em diante GRFB, para facilitar) é essa grande lacuna porque, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, os elitistas intelectuais brasileiros “detestam o futebol” – logo eles, com sua forte corrente populista encabeçada por ninguém menos que Jorge Amado?

Ou seria porque, nas palavras do crítico Silviano Santiago, “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado” que provoca a falência dos projetos estéticos que dele se aproximam – ou seja, somos ruins de bola na hora de dar tratos à bola?

A essa altura do jogo, tocando a pelota de lado, alguém sempre recorda – como o escritor Flávio Moreira da Costa, organizador de antologias de contos sobre o tema – que a situação não é tão grave, pois temos boas histórias curtas sobre futebol. É verdade. Minha preferida é aquela de Rubem Fonseca chamada Abril, no Rio, em 1970 (do livro “Feliz ano novo”).

Cabe acrescentar que contamos ainda com belos poemas futebolísticos, inclusive de nomes estrelados como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sem falar nas crônicas propriamente esportivas, o terreno em que o futebol e as letras mais se fecundam – gleba administrada com brilho pelos irmãos Rodrigues, Nelson e Mario Filho.

Mesmo assim, convenhamos que tudo isso é preliminar. Na hora da partida principal, o que entra em campo é um modestíssimo time liderado por um José Lins do Rego menor (“Água-mãe”). Cadê o GRFB? “Eu vim aqui só pra te ver!”, ressoa o coro das arquibancadas. O clima é de revolta.

Pois eu tenho uma pista. Nada de elitismo ou falência da arte brasileira. Aposto que o GRFB está escondido no mesmo limbo em que dormem seus irmãos, os embriões eternos do Grande Romance do Basquete Americano, do Grande Romance da Fórmula 1 Italiana, do Grande Romance do Pingue-Pongue Chinês e do Grande Romance do Curling Escocês.

Acontece que o futebol e outros esportes são eles mesmos narrativas acabadas, dotadas de início, meio e fim e cheias de drama, comédia, tragédia. A poesia e a crônica, gêneros mais apropriados ao lirismo, estão equipadas para abordar esse mundo fechado pela via da exaltação – João Cabral comparando a bola à mulher, Nelson Rodrigues transformando os craques canarinhos em cisnes.

Para uma arte também narrativa, como o romance, a tarefa é mais difícil: envolve uma espécie de concorrência. Isso não quer dizer que o cruzamento de esporte e literatura não possa dar filhotes fortuitos, como o conto fonsequiano citado acima e a primeira e sensacional parte do romance “Submundo” (Companhia das Letras, 1999), de Don DeLillo, em que uma partida de beisebol é descrita com técnica cubista e ambição de grande arte.

Às vezes surge até um sucesso como o romance “Shoeless Joe”, do canadense W.P. Kinsella, também sobre beisebol e tão carregado de sentimentalismo que logo chegou a Hollywood com o nome de “Campo dos sonhos”.

É claro que o GRFB pode acabar dando as caras um dia: é aquela história da caixinha de surpresas, coisa e tal. Mas reconhecer que o cruzamento da paixão esportiva com a boa literatura não tem nada de natural ou obrigatório, nem aqui nem em lugar nenhum do planeta, nos pouparia de muito papo furado a cada Copa do Mundo. Como se não bastasse o dos comentaristas de futebol.

 

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