Blogs e Colunistas

Michel Laub

30/05/2011

às 14:36 \ Vida literária

‘Todoprosa’, 5 anos: a internet já cumpriu sua promessa

Antes que acabe maio, mês de aniversário do Todoprosa, faça-se o registro: este espaço de discussão de literatura acaba de completar cinco anos. Desde sua estreia no extinto site “NoMínimo”, no início de maio de 2006, foram 1.253 posts, todos ainda acessíveis, e um número de comentários arquivados – 24.312 – que deveria ser maior, não fosse a perda de memória de seis ou sete meses ocorrida numa das migrações de servidor, em 2008.

Muita coisa mudou em cinco anos na paisagem da blogosfera literária. As caixas de comentários, por exemplo, que chegaram a ser transformadas pela turma da literatura em salas de chat animadas – e muitas vezes até perigosas, com garrafas e ferros de passar riscando o ar – perderam importância com a ascensão das redes sociais. Hoje a repercussão de um post é medida muito mais por meio do Twitter e do Facebook.

Mas a mudança mais significativa se deu no próprio formato: blogs que, como este, baseiam seu cardápio em informação e num tipo de opinião mais analítica que idiossincrática eram raridade em 2006. De lá para cá, o processo que talvez se possa chamar de profissionalização – embora ainda inclua franco-atiradores de comovente amadorismo – tornou hegemônico o modelo todoprosista, dando um ar de coisa datada ao pitaquismo radical (“Machado sucks!”) e aos próprios espaços autorais que funcionavam como plataforma de lançamento de escritores na primeira metade da última década.

Essas e outras questões estiveram em debate na semana passada em São Paulo, num encontro promovido pela Companhia das Letras para comemorar o primeiro aniversário de seu próprio blog – que, aliás, é uma das provas mais eloquentes de amadurecimento do meio. A conversa foi mediada por André Conti, editor da casa, e além de mim envolveu Raquel Cozer, titular do blog A biblioteca de Raquel e repórter do “Estadão”, e Flávio Moura, editor do blog do Instituto Moreira Salles.

Falar para uma plateia em que havia representantes de vários blogs de literatura – Casmurros, Meia Palavra e Arlequinal foram alguns dos que se identificaram, além da prata da casa, de Luiz Schwarcz a Michel Laub – teve, confesso, um certo sabor de momento histórico. Com o empurrão decisivo dos blogs, profissionais ou não, acredito que já se possa afirmar que a internet cumpriu aquilo que em 2006 não passava de uma vaga promessa: tornar-se o principal espaço público de discussão de literatura, difusão de livros e formação de novos leitores, superando a imprensa tradicional e as revistas acadêmicas – que, naturalmente, não são bestas e também abriram suas biroscas no mercadão virtual.

O vídeo do debate pode ser acompanhado aqui.

E agora chega de balanço. O próximo fica agendado para 2016.

25/03/2011

às 12:27 \ Resenha

‘Diário da queda’: a ascensão de um autor

A notícia é boa para aqueles poucos milhares de leitores fiéis de ficção nacional, mas mais importante ainda para os muitos milhares que nem passam perto desse tipo de produto: “Diário da queda”, o quinto romance do escritor gaúcho Michel Laub (Companhia das Letras, 152 páginas, R$ 38,50), é um grande livro. Desafiando o clima volátil deste início de século, com suas novidades que ficam velhas em cinco minutos, a permanência desse romance deve ser garantida por pelo menos dois achados que seriam dignos de nota em qualquer época na literatura brasileira: o personagem tragicômico do sobrevivente de Auschwitz que, feito um Pangloss autista, dedica os últimos anos de vida a escrever o interminável diário de uma realidade edulcorada e perfeita; e a cena de crueldade adolescente protagonizada pelo narrador judeu na festa de aniversário de João, o colega gói e pobre – a queda propriamente dita do título, fulcro da história.

Se os dois elementos, personagem e cena, têm uma pungência e uma reverberação que atestam um salto qualitativo na obra de Laub, é interessante observar como isso se dá no quadro de uma serena continuidade e fidelidade ao próprio estilo. Como quase todos os romances do autor (a exceção é o irregular “O gato diz adeus”, de 2009, com sua narração triangular de um triângulo amoroso), “Diário da queda” tem um narrador adulto em primeira pessoa às voltas com suas memórias, a maioria de infância e quase sempre girando em torno de relações familiares e dores do crescimento, das quais ele precisa extrair sentido antes de avançar com sua vida. Pode-se dizer que no fundo o gênero por excelência de Laub é o Bildungsroman, o romance de formação, mas com feição própria, não-linear. O acerto de contas com o passado se dá numa estrutura circular em que as mesmas poucas cenas são revisitadas à exaustão, ganhando novos detalhes e implicações a cada vez. A investigação é mais moral do que intelectual. O tom é puxado para o pessimista, mas caseiro e enganadoramente menor.

Certa vez, o também gaúcho Mario Quintana cunhou uma definição memorável de estilo: “Deficiência que faz com que um autor só consiga escrever como pode”. Laub é um escritor de rara deficiência, no sentido que Quintana dá à palavra. Desmentindo quem acredita que um estilo só será pessoal se for abstruso e idiossincrático, sua prosa é transparente, feita quase inteiramente de palavras comuns. No entanto, a típica frase laubiana é inconfundível: prolonga-se, esticando o suspense e acumulando momentum com seu comboio de pequenos enunciados, à beira do soluço e da ruptura sintática, antes de explodir num gran finale que – aí está seu achado – nunca conclui nada de uma vez por todas, mas, como um gancho de telenovela, arrasta o leitor para a próxima etapa. É esse artifício que permite a seus narradores voltar obsessivamente às mesmas cenas sem que se instale a monotonia: a cada visita, chegam a uma nova conclusão provisória, destinada a ser retocada mais uma vez adiante. Com perdão da imagem literalmente rocambolesca, a estrutura é cheia de camadas e dobrada sobre si mesma.

Revisito o primeiro romance do autor, “Música anterior”, de 2001, quando ele tinha 28 anos. Começa assim:

Minha mulher não conseguiu ter filhos.

Antes de ouvir a palavra final do médico, antes dos almoços em silêncio e das crises de madrugada, antes de se convencer de que acordar todo dia significaria para sempre um pedaço de pão e o noticiário do rádio, o trânsito e as previsões do economista são as atrações do noticiário do rádio, antes ela ficou sabendo, ainda nem morávamos juntos, ainda nem imagináramos que ficaríamos quase uma década juntos, eu tenho quarenta e três, ela tem trinta e nove, ela ficou sabendo sobre o meu irmão.

Aí está o molde da prosa que agora, dez anos e quatro títulos depois, conduz a bom termo o projeto mais ambicioso de “Diário da queda”:

Não sei se fiz aquilo apenas porque me espelhava nos meus colegas, João sendo jogado para cima uma vez, duas vezes, eu segurando até que na décima terceira vez e com ele ainda subindo eu recolhi os braços e dei um passo para trás e vi João parado no ar e iniciando a queda, ou se foi o contrário: se no fundo, por essa ideia dos dias anteriores, algo que eu tivesse dito ou uma atitude que tivesse tomado, uma vez que fosse, diante de uma pessoa que fosse, independentemente das circunstâncias e das desculpas, se no fundo eles também estavam se espelhando em mim.

Se o risco de uma certa monotonia existe, ele é apenas formal: a certa altura, o leitor de ouvido apurado já espera a frase longa e o adiamento, vírgula a vírgula, do punchline que trará embutida uma nova interrogação. Como ocorre com todo estilo marcante, o perigo do cacoete e do maneirismo está sempre no horizonte, e em certos momentos da leitura me peguei torcendo para que Laub não usasse o truque, para que o economizasse. No entanto, o que ele consegue dizer em seu novo livro com essa mesma voz tem força suficiente para elevar o sarrafo da ficção brasileira contemporânea. Prova de que Vladimir Nabokov era, como sempre, mais provocador do que ponderado ao dizer que “estilo e estrutura formam a essência de um livro; ideias grandiosas são besteira”.

Sem grandiloquência e acomodadas confortavelmente no arco da narrativa, são justamente as ideias grandiosas, no fim das contas, que tornam notável o novo romance de Laub. Cobrindo três gerações, desde a história do avô do narrador em Auschwitz, e apontando com comedida esperança para uma quarta, “Diário da queda” é uma pequena joia ficcional que, ao tratar sem temor ou reverência a pesada herança da literatura pós-Holocausto, adiciona uma dimensão histórica universal à costumeira obsessão do autor com o passado e esmiúça de forma emocionante a lógica da vitimização e sua capacidade de perpetuar iniquidades, num círculo vicioso que só uma decisão pessoal e heroica, equilibrada entre o esquecimento e a lembrança, entre a autoafirmação e o desprendimento, consegue romper. Difícil imaginar começo de ano melhor para a literatura brasileira.

03/09/2010

às 16:40 \ Começos inesquecíveis

Os melhores começos inesquecíveis (IV)

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

O começo de “Cem anos de solidão”, romance lançado em 1967 por Gabriel García Márquez (Record, tradução de Eliane Zagury), é um dos maiores clássicos do gênero, sobretudo na preferência do leitor comum. Presença obrigatória em listas de aberturas romanescas memoráveis, vale a pena examinar mais de perto o mecanismo que o torna tão eficaz: a superposição de tempos narrativos.

García Márquez demarca com brevidade impressionante dois momentos de ação, separados por “muitos anos”, e em cada um deles pendura um anzol que o leitor dificilmente deixará de morder. O primeiro traz uma isca política ou mundana: quais foram os motivos e o desfecho do tal fuzilamento? O segundo abre uma dimensão poética de formação, situando numa “tarde remota” a transmissão entre pai e filho de um saber sobre a natureza. Sem forçar barra nenhuma, pode-se imaginar até um terceiro anzol em que a isca é a curiosidade de saber como histórias tão díspares vão se combinar.

E tudo isso em duas linhas.

Além de enredar o leitor em mais de uma trama ao mesmo tempo, a abertura que superpõe tempos tem o mérito de fixar à vista de todos as estacas entre as quais vai se estender a corda da narrativa – que, ao contrário do que supõem muitos literatos, deve manter certa tensão até o fim para que o leitor equilibrista não despenque lá de cima e desista do livro.

O escritor colombiano, que nunca demonstrou dúvida sobre a necessidade básica de prender o leitor, gosta do truque. Muitos anos depois, em 1981, havia de repeti-lo na abertura de “Crônica de uma morte anunciada” (Record, tradução de Remy Gorga, filho), com menos economia de meios e, a meu ver, menos sucesso:

No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros. “Sempre sonhava com árvores”, disse-me sua mãe 27 anos depois, evocando os pormenores daquela segunda-feira ingrata.

Mas García Márquez não tem a patente desse tipo de começo. Um exemplo feliz, próximo de nós no tempo e no espaço, é o do romance “O segundo tempo”, de Michel Laub (Companhia das Letras), lançado em 2006:

Hoje o futebol está morto, e duvido que alguém ainda chore por ele, mas não era assim no dia 12 de fevereiro de 1989.

13/08/2010

às 11:36 \ Vida literária

Dez escritores brasileiros abrem o jogo da ‘má influência’

Num bom momento da Flip, Salman Rushdie disse que Jorge Luis Borges foi uma “má influência” em sua juventude. Apaixonado por “Ficções”, passou a tentar escrever daquele jeito, embora sua “inclinação natural como escritor não fosse borgiana”. Deu trabalho, segundo ele, aprender a não escrever como Borges. O Todoprosa aproveitou a deixa para perguntar por e-mail a dez escritores brasileiros quais foram suas “más influências”:

MILTON HATOUM, autor de “A cidade ilhada”: “Acho que a obra de J.L. Borges influenciou várias gerações de escritores. Lembro que na década de 70 eu também imitava Borges. Mas joguei fora esse péssimo plágio deliberado. No começo de sua carreira, todo escritor imita seus antecessores. A imitação faz parte do processo de aprendizagem de qualquer atividade humana. Borges dizia que imitava Macedonio Fernandez ‘até plagiá-lo’. Os contos de ‘História universal da infâmia’ devem muito às narrativas do francês Marcel Schwob (‘Vidas imaginárias’ e ‘A cruzada das crianças’). Acho que Salman Rushdie é um escritor marqueziano. Certa vez ele me disse que adora a obra de García Márquez. Este, por sua vez, já afirmou que lia Borges para aprender a escrever. Na infinita biblioteca do universo, todos podem ser influenciados por todos, mas um bom escritor acaba encontrando sua própria voz, com a qual inventa um mundo particular.”

CAROLA SAAVEDRA, autora de “Paisagem com dromedário”: “Minha ‘má influência’ foi sem dúvida Clarice Lispector. Comecei com ‘Perto do coração selvagem’, ainda adolescente. Aos vinte e poucos anos eu tinha lido quase toda a sua obra. Lembro do espaço enorme que esses livros ocupavam na minha estante. E tudo o que eu escrevia ficava com jeito de Clarice, por sorte eu tinha noção de que o resultado era sofrível. Um dia, peguei todos os seus livros, coloquei numa caixa, e fechei bem fechada. Só fui abri-la quase uma década mais tarde.”

CRISTOVAO TEZZA, autor de “O filho eterno”: “Eu acho que má influência é somente aquela de que você não se livra. No mais, de tudo fica um pouco, e no bom sentido. Lembro que em meu primeiro livro, nos anos 70, os contos de ‘A cidade inventada’, eu sofri um mix de influências, de Borges (inevitável) a Hermann Hesse (de ‘O jogo das contas de vidro’). Só bem lá no fundo dos contos batia um coração de escritor tentando respirar! Em outro momento, parei de ler Faulkner e Conrad, com medo de que aquela sintaxe me contaminasse para sempre. Bobagem. Foram autores que só abriram portas. Já Graciliano Ramos me influenciou (eu acho), no torneio curto da frase. Mas tem a ver com visão de mundo. A poesia de Drummond (sempre falando dos anos 70) me tomou por inteiro de tal modo que eu, como poeta, desapareci completamente. E desisti da poesia, para felicidade geral de parentes e amigos. Não era a minha linguagem. E de um momento em diante (a partir de ‘Trapo’), parei de me preocupar com influências.”

MICHEL LAUB, autor de “O gato diz adeus”: “Meus primeiros contos eram bem derivados do Rubem Fonseca. Até personagem delegado acho que tinha. Um amigo para quem mostrei esses textos disse o óbvio: que aquilo soava muito artificial, o que de alguma forma eu achava também (só não sabia ainda por quê). Superar a influência não foi tão difícil, já que ela era mais temática que de estilo, e temática é algo mais fácil de controlar. Mas demorou um pouco, claro, porque nunca é fácil jogar fora tudo o que você fez e recomeçar do zero.”

ANA PAULA MAIA, autora de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”: “Quando li ‘O apanhador no campo de centeio’, do J.D. Salinger, fiquei tão terrivelmente influenciada que escrevi o meu primeiro romance, ‘O habitante das falhas subterrâneas’, totalmente influenciada por ele. Aquilo foi bom e terrível. Deixei de lado todas as leituras que poderiam me influenciar dessa maneira corrosiva e só voltei a elas quando encontrei o eco da minha própria voz na literatura que escrevo. Ainda é difícil me livrar de certas vozes exteriores, pois elas continuam a me rondar, mas já não aparecem de modo tão descarado nos meus textos.”

BERNARDO CARVALHO, autor de “O filho da mãe”: “Não tenho nenhum caso específico para citar. Todo grande escritor é, nesse sentido, ao mesmo tempo uma boa e uma má influência. Escritores que têm estilos muito marcantes, como Beckett, Guimarães Rosa e Thomas Bernhard, podem se transformar em armadilhas muito facilmente. Você pode adorá-los, mas também vai ter que saber se afastar deles se quiser escrever. É aquela velha história da angústia da influência.”

FLÁVIO CARNEIRO, autor de “O campeonato”: Acho que não existe má influência nesse caso, já que Salman Rushdie, ao ‘matar o pai’ Borges, certamente cresceu muito como escritor e portanto a influência acabou sendo boa no final das contas. Má seria se ele tivesse sido influenciado por um autor ruim e tivesse continuado nesse caminho. No meu caso, quando comecei a escrever, meu autor de referência era o Rubem Fonseca, como aconteceu com muitos da minha geração. Mas a minha inclinação, para usar a palavra usada por Rushdie, nunca foi a da temática urbana, da violência etc., mas a da fantasia, mais próxima do fantástico, por exemplo. Ainda leio e gosto muito do Rubem Fonseca, mas acho que ‘superei’ essa influência escrevendo um romance que é assumidamente uma reescritura de um conto dele, ‘O campeonato’. Escrevi um romance, com esse mesmo título, em que um jovem viciado em leitura de romances policiais se depara com um bando de marginais que resolve colocar em prática o que acontece ficcionalmente no conto do Rubem. Quer dizer, o conto dele entrou como mote ficcional para a escrita do meu romance, que é um policial à la Rubem Fonseca mas com um pé na fantasia, na imaginação meio delirante, que acredito ser uma marca da minha ficção. Esse romance foi escrito nos anos 90, publicado primeiramente pela Objetiva e reeditado agora, numa versão mais enxuta, pela Rocco.”

RAIMUNDO CARRERO, autor de “A minha alma é irmã de Deus”, vencedor do Prêmio São Paulo 2010: “É verdade, todo escritor tem uma má influência. Ou seja, um autor, um escritor, que mesmo sendo genial interfere de modo significativo na vida de um iniciante. No meu caso, a má influência veio – e vem – de João Guimarães Rosa. Cheguei a escrever um livro inteiro de contos – chamava-se ‘O domador de espelhos’ – que foi enviado à Editora Civilização Brasileira por um amigo consagrado, cujo nome prefiro esconder. Ênio Silveira, o editor, recusou-o, alegando exatamente isso: é uma imitação estúpida de Guimarães Rosa e nada mais. Tinha razão. Tive que esquecer o criador de ‘Grande sertão: veredas’ por muito anos. E, ainda hoje, guardo distância. Basta lê-lo numa manhã e à tarde já estou repetindo todos os seus cacoetes. Vade retro, mineiro!”

CÍNTIA MOSCOVICH, autora de “Por que sou gorda, mamãe?”: “Eu, digamos assim, ‘percebi’ a maneira de escrever literatura ao ler Clarice Lispector, e é dela, portanto, que tenho maior influência. Não digo que seja má, no sentido jocoso que Rushdie atribui à influência de Borges: é que nunca me preocupei em não escrever como Clarice. Acho que, mesmo sem essa angústia, a gente escreve um texto singular, próprio, original. Eu sabia que cedo ou tarde encontraria em mim a ‘voz interior’, o ‘estilo’, o jeito, a maneira, aquilo que era profundamente meu e que tão bem a Clarice espelhava. (Claro, se eu escrevesse como a Clarice, melhor ainda.) Agora: nós somos herdeiros de uma tradição, somos sucessores de quem veio antes de nós. Não temos como negar o que somos, quem lemos, ouvimos, assistimos. A ideia de originalidade absoluta é uma quimera. Há em nós quem veio antes de nós. Por que não?”

DANIEL GALERA, autor de “Cordilheira”: “Pensei bem antes de responder, e acho que não tenho um autor específico que possa ser citado como ‘má influência’. Houve muitos casos isolados de tentar imitar algum autor que admiro apenas para descobrir que não era possível, seja por falta de talento ou por incompatibilidade de vozes literárias, mas nenhum caso foi especialmente marcante. De forma geral, lembro de uma época em que tentei escrever contos de recorte mais fantástico, ou próximos do gênero da ficção científica, porque achava que escrever apenas narrativas realistas e contemporâneas era uma limitação a ser evitada. Isso deve ter sido lá por 2003 ou 2004, antes de começar a trabalhar no ‘Mãos de Cavalo’. Os contos resultantes dessa neurose passageira ficaram péssimos e felizmente tive a presença de espírito de nunca publicar nenhum deles. Mas seria justo dizer que nesse período sofri a dita má influência dos gêneros fantásticos, que aprecio intensamente como leitor, mas que provavelmente não sou talhado a criar. Me reconciliei com o realismo urbano/contemporâneo logo em seguida e hoje não me sinto mais forçado a sair dele para explorar minha voz literária, embora não tenha abandonado a ideia de quem sabe, um dia, escrever algo dentro de gêneros como ficção científica e policial, que adoro.”


 

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