Blogs e Colunistas

Margaret Atwood

13/04/2012

às 11:56 \ Pelo mundo

O baú de David Foster Wallace e outros links

Três anos e meio após a sua morte, David Foster Wallace (foto) se consolida como o Raul Seixas da literatura americana: os últimos achados em seu baú são um cartão postal que ele escreveu para Don DeLillo e algumas cenas ainda inéditas de The Pale King, romance inacabado publicado postumamente.

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Da mesma geração de DFW e, para todos os efeitos, tão sério quanto ele no modo de encarar a literatura, Jonathan Franzen se distingue pela absoluta ausência de autoironia. Após mais uma entrevista em que martelou seus temas preferidos – a necessidade que o ser humano tem de ler histórias literárias “complexas” como as que ele escreve e a incapacidade escrevê-las quando se tem conta no Twitter ou no Facebook – abriu a porta para que Tim Parks levantasse dúvidas interessantes sobre a tal “necessidade humana de histórias” e lhe dirigisse outras perguntas incômodas neste artigo (em inglês) no blog da “New York Review of Books”:

Naturalmente, é conveniente para um romancista pensar que, pela própria natureza de seu trabalho, está do lado do bem, provendo uma demanda urgente e geral. (…) Mas qual é a natureza dessa demanda? O que aconteceria se ela não fosse atendida? (…) E por que é tão importante não ser interrompido pelo Twitter e pelo Facebook? Serão tais interrupções piores do que uma velha ligação de telefone fixo ou o simples tumulto de amigos e parentes ao redor da sua mesa de trabalho? Recordemos que Jane Austen adorava escrever em espaços domésticos em que estava exposta a interrupções constantes.

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Uma espécie de anti-Franzen em sua adoção alegre e imediata (oba-oba seria maldade) de novidades tecnológicas, a escritora canadense Margaret Atwood é o primeiro nome de peso a aderir a uma estranha novidade no cada vez mais estranho mercado editorial 2.0: um “clube” de audiolivros – criado pela Audible, empresa comprada há poucos anos pela Amazon – em que os escritores ganham um dólar de bônus, além dos direitos autorais, por exemplar que ajudarem a vender nas redes sociais. Um fundo de 20 milhões de dólares foi criado para este fim. “É um movimento pró-autor”, disse Atwood. Saiba mais sobre o esquema nesta reportagem do “Guardian”, em inglês.

02/03/2011

às 16:32 \ Pelo mundo

Vêm aí os Escritores Unidos, diz Margaret Atwood

“As anchovas estão inquietas”, diz a escritora canadense Margaret Atwood, explicando que as anchovas são os escritores – individualmente fracos, mas fortes quando em cardume, por darem sustentação a toda a cadeia alimentar do mercado editorial.

A inquietude, diz ela, provém da sensação de que a maioria das editoras tem sido intransigente ao negociar direitos autorais para e-books, deixando de levar em conta uma nova realidade em que os baixos custos de produção permitiriam multiplicar o tamanho da fatia que tradicionalmente cabe ao autor (em torno de 10% do preço de capa). “Está no ar”, nas palavras de Atwood, a ideia de repetir no mundo literário o que fizeram alguns artistas de ponta de Hollywood em 1919, entre eles D.W. Griffith e Charles Chaplin, ao romper com os grandes estúdios e fundar sua própria companhia, a United Artists.

United Writers? Mas “escritores unidos” não é uma contradição em termos?

Este é apenas um dos atrativos desta recente palestra de Margaret Atwood no TOC 2011, seminário de novas tecnologias realizado em Nova York. Pontuada por piadas, algumas ótimas, e desenhos em PowerPoint feitos pela própria escritora, a fala de Atwood cobre de forma leve quase todos os aspectos do emaranhado de interrogações que cerca o tema do futuro da indústria editorial, privilegiando o ponto de vista do escritor. O vídeo dura pouco mais de meia hora e vale cada minuto.
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02/02/2011

às 14:15 \ Pelo mundo

Escrever é… (segundo Nabokov, Bolaño, Duras etc.)

O site This Recording vem juntando uma excelente coleção (em inglês, acesso gratuito) de “conselhos” de grandes autores sobre o ofício literário, sob o título “Como e por que escrever”. Coletados em fontes diversas, entre ensaios, artigos, entrevistas e até obras de ficção, os trechos são heterogêneos no conteúdo e no tom, mas compõem um painel instigante. Abaixo, uma pequena amostra em tradução caseira (via The Book Bench):

Susan Sontag: Todo mundo gosta de acreditar hoje em dia que escrever é apenas uma forma de amor-próprio. Também conhecida como auto-expressão. E não se supõe que sejamos mais capazes de sentimentos autenticamente altruísticos, ou capazes de escrever sobre qualquer coisa que não nós mesmos. Mas isso não é verdade.

Kurt Vonnegut Jr.: Garanto que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de trama, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas fora de moda seja contrabandeada para dentro em algum momento. Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava oficinas de criação literária, dizia aos meus alunos para fazer com que seus personagens quisessem alguma coisa imediatamente – ainda que fosse só um copo d’água. Mesmo personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna precisam beber água de vez em quando.

Roberto Bolaño: Nunca escreva um conto de cada vez. Quando se escreve um conto de cada vez, pode-se acabar escrevendo o mesmo conto até morrer. É melhor escrever três ou cinco contos ao mesmo tempo. Se você tiver energia para tanto, escreva nove ou quinze de uma vez.

Margaret Atwood: Leve um lápis para escrever em aviões. Canetas vazam. Mas se a ponta do lápis quebrar, você não conseguirá apontá-lo no avião, porque não pode carregar facas. Portanto: leve dois lápis.

Marguerite Duras: É desconfortável sentar a uma mesa redonda: seus cotovelos não têm onde se apoiar e você não pode contar com eles para descansar da escrita, e enquanto você escreve eles ficam boiando no vazio, e se você não percebe isso imediatamente pensa, “Não sei qual é o problema comigo, estou cansado”, mas isso é porque seus cotovelos não estão apoiados na mesa.

Vladimir Nabokov: O poder e a originalidade envolvidos no espasmo primário da inspiração são diretamente proporcionais ao valor do livro que o autor escreverá. No ponto mais baixo da escala, uma espécie branda de excitação pode ser experimentada por um escritor menor ao notar, digamos, a conexão íntima entre uma chaminé de fábrica, uma moita mirrada de lilases no jardim e uma criança de rosto pálido; mas a combinação é tão simples, a tríade simbólica tão óbvia, a ponte entre as imagens tão batida pelos pés de peregrinos literários e suas carroças cheias de ideias padronizadas, e o mundo que daí se deduz tão parecido com o mundo comum, que a obra de ficção posta então em movimento será necessariamente de pouco valor.

 

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