30/08/2010
às 10:26 \ Vida literáriaO gosto de contar
“Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas como forma de manter o leitor lendo”, disse Kurt Vonnegut. “Se você exclui a trama, se elimina o desejo de alguém por alguma coisa, exclui o leitor, o que é uma coisa muito feia de fazer.”
Também acho feio excluir o leitor. No entanto, o enredo, a trama, o plot – a história, enfim, de preferência envolvendo gente – é um fundamento clássico que foi perdendo valor para boa parte da literatura escrita do século 20 para cá. Disseminou-se nesse período a crença de que “escritores sérios” devem antes de mais nada achatar ou desidratar a dimensão da fábula, que seria coisa de autor popular ou populista, se quiserem voar alto nas questões mais relevantes da forma.
Hoje há mesmo literatos cascudos – conheço dois ou três – que chegam ao extremo de odiar intrigas, peripécias, escolhas, surpresas, que têm alergia a coincidências e abominam detalhes habilmente sonegados pelo narrador, que espumam de raiva com cartas que são abertas e mudam o rumo das coisas (ou não são abertas e mudam o rumo das coisas), pois para eles é inferior qualquer literatura que utilize o enredo de modo mais sedutor, enfático ou colorido.
É que todas as histórias já foram contadas, diz essa subespécie frugal de literato, empinando o nariz enquanto mastiga a fibra dura de exercícios de linguagem.
Permitam-me discordar. História não é coisa a que se possa por fim. História não acaba nunca, ou só acaba quando acabar o homem (a mulher também, viu pessoal?), e depois disso, que diferença faz?
Os exercícios puros de linguagem, estes sim, não duvido que já tenham sido quase todos feitos. De qualquer modo, desejo boa sorte a quem quiser continuar tentando provar que não. Estarei atento à poesia, onde achados nessa área são mais frequentes.
Mas aqui estamos falando de prosa, um tipo de escrita que nos tempos modernos é o veículo natural da história, como foi na antiguidade a poesia. O preconceito contra a história, no âmbito da prosa, é um disparate e um atraso de vida.
Isso obviamente não quer dizer que a boa prosa de ficção possa prescindir de brincar com a textura da linguagem. Separar forma e conteúdo de modo tão tosco é o começo do erro da turma enredofóbica. O jeito de contar uma história vai sempre valer tanto quanto ou mais do que o entrecho em si, mas quando os dois se harmonizam – e o exercício de linguagem não é mais puro, mas aplicado – é que temos o grande prazer da literatura. Ou pelo menos assim parece pensar o leitor, como lembrou Vonnegut.
É sintomático que essa lembrança tenha vindo de um nome da literatura anglófona, que tem uma tradição de trama consideravelmente mais forte que a nossa. Sendo um ramo da portuguesa e, como ela, afrancesada, nossa literatura é mais vulnerável à autocomplacência e à eventual exclusão do leitor. Será por acaso que a literatura de língua inglesa vem dando uma surra na francófona faz tempo?
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